Lemohang Jeremiah Mosese: “A raiva é um dos locais de onde vem o meu ato de criação”

(Fotos: Divulgação)

Tal como Ameer Fakher Eldin na sua trilogia “Homeland”,  o trabalho do cineasta e videoartista Lemohang Jeremiah Mosese, natural do Lesoto, mas residente em Berlim, circula muito em torno dos sentimentos de pertencimento e deslocamento, explorando não apenas o grande ecrã, mas igualmente através de instalações artísticas.

E depois do seu ensaio visual “Mother, I Am Suffocating, This Is My Last Film About You”, que estreou no Fórum na Berlinale em 2019, e “This Is Not a Burial, It’s a Resurrection”, com o qual ganhou o Visionary Filmmaking Jury Award no Festival de Sundance, Lemohang exibiu em Berlim, na secção Berlinale Special, “Ancestral Visions of the Future”, um trabalho profundamente pessoal e íntimo onde explora a sua infância, confrontando os momentos que o destruíram e moldaram, nos quais as suas memórias se entrelaçam com a presença da mãe e da pátria, tudo através de um olhar filtrado pelo exílio. “Crio baseado em sensações. O meu trabalho é como um vómito. Vomito sensações e depois observo quais ficam e quais saem”, explicou o cineasta ao C7nema durante a Berlinale, acrescentando quais são as principais sensações que o movimentam: “Sinto uma necessidade extrema de ser visto e ouvido. Crescer nas periferias, ao lado de miúdos que se sentem invisíveis, traz-me emoções muito fortes. Há uma parte dessas sensações que vem da raiva. Uma raiva natural que advém de onde cresci e onde se passam os eventos que retrato. A raiva é um dos locais de onde vem o meu ato de criação. Depois também há amor, que está intimamente conectado a essa raiva. ”.

Lemohang Jeremiah Mosese

Referindo que o seu processo de criação não está de todo formatado, Lemohang diz que deixa sempre os seus trabalhos fluírem via a sua consciência, procurando transformar as suas criações em objetos mais acessíveis para atingir um público maior, sem nunca corromper as suas ideias: “Nos meus trabalhos, as imagens e a poesia das palavras andam normalmente juntas, mas às vezes tenho a visão de uma imagem e esta traz posteriormente as palavras. Mas também há momentos em que as palavras trazem imagens. Muitas vezes, tudo começa como um texto solto que impõem uma paisagem como espaço de transgressão, invasiva e inclusiva. Algo que invade o terreno, muito vi e muito sangrento.”

Numa das cenas mais impactantes do seu mais recente ensaio, sangue e terra andam de mãos dadas, algo que o cineasta sente, mas ainda não consegue exprimir completamente por palavras: “Muitas das coisas que vemos no filme, como o sangue que infiltra os solos, são coisas com um significado que ainda procuro descobrir. Tenho algumas ideias superficiais sobre isso e, quando vejo essa sequência do filme, é uma das coisas que ainda não sei o que realmente significa. Tenho a certeza que tem a ver com a comunidade, comunicação com a terra e comunhão. Quando, por exemplo, as pessoas fumam e mandam parte do cigarro para o solo, ou quando bebem e fazem o mesmo, querem partilhar algo com os nossos ancestrais. Por isso, sei que esta ligação que fiz tem a ver com uma forma de rezar para a terra”.

Feliz pelo prémio conquistado em Sundance, “pois vencer uma distinção significa que és visto e que tudo o que acreditaste em relação a ti não era apenas um ato de delírio ou uma ilusão“, Lemohang Jeremiah Mosese mostrou-se radiante por nova presença em Berlim, desta vez fora da secção Fórum. “Não quero ser visto como mais uma alegoria que entra na Fórum. Amo a secção Fórum, mas não vejo o futuro deste  “Ancestral Visions of the Future” num nicho. Até a palavra ensaio ou alegoria dá logo uma ideia do estilo e linguagem que colocam o filme num campo meramente artístico, sem uma acessibilidade mais vasta para público”. 

Já com dois projetos na agenda, que vão entrar pelo género, embora se recuse a falar de “horror”, Lemohang ambiciona no futuro contribuir para o trabalho dos outros, mas não necessariamente como produtor no sentido mais tradicional: “Quero providenciar um espaço para as pessoas criarem. Um local onde podemos admirar e colaborar juntos. Os filmes são a minha forma de chegar a espaços onde posso ajudar. Creio que é aí que a minha paixão reside”.

O Festival de Berlim termina a 23 de fevereiro.

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