Little Jaffna: o coração tâmi­l que bate em Paris

(Fotos: Divulgação)

Enraizado na diáspora franco-tâmil de Paris e misturando preocupações identitárias, crónica social e cinema de género, Little Jaffna, de Lawrence Valin, é uma explosão no grande ecrã que une o realismo ocidental aos “momentos do extraordinário” do cinema de Kollywood (cinema tâmil).

Com perseguições à moda do western, gestos de generosidade coreográfica, cores vibrantes e movimentos em slow motion que se fundem com raízes de autenticidade, em Little Jaffna seguimos Michael (interpretado por Lawrence Valin), um jovem polícia que se infiltra numa rede criminosa envolvida em extorsão e lavagem de dinheiro ao serviço de rebeldes do Sri Lanka — os denominados Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE).

Frenético na abordagem à história de gangsters e introspectivo quando reflete sobre rituais familiares e lealdades de bairro, a primeira incursão do cineasta nas longas-metragens é um dos grandes destaques da 3.ª edição do MyMetaStories.

Por isso mesmo, falámos com o realizador e descobrimos um pouco mais sobre a construção de um filme que teve a sua estreia mundial na Semana da Crítica do Festival de Veneza no ano passado.

Lawrence Valin

Começo por algo que li na Internet Movie Database: diz que avançou para a carreira de realizador depois de ser rejeitado para protagonizar o filme Dheepan, de Jacques Audiard. Foi mesmo assim?

Longa história, mas vou torná-la curta: fiz o casting de Dheepan e, sim, não fiquei com o papel principal. E pensei: depois do Jacques Audiard, quem é que vai fazer um filme com um franco-tâmil? No fim… ninguém. Ninguém fez um filme com um franco-tâmil como personagem principal. Portanto, disse para mim próprio: não vou esperar que um realizador confie em mim — vou confiar em mim.

Candidatei-me à FEMIS (uma escola de realização), entrei e lá fiz a minha primeira curta-metragem.

Treze anos depois, chega este Little Jaffna. E ainda bem que não esperei pelo Dheepan, porque depois dele não apareceu nenhum filme em França com alguém da minha cor de pele no papel principal.

Porque escolheu o tema dos Tigres Tâmil — uma questão tão política — para um primeiro filme?

Quando cheguei à FEMIS, deram-me um conselho: no primeiro filme, fala do que conheces — do que te é próximo. Em miúdo, cresci com esse conflito. Não estive lá, mas em casa falava-se disso constantemente. E era estranho: na rua, ninguém mencionava a guerra; em casa, toda a gente falava dela.

Quis contar esse conflito. Há muitos conflitos no mundo; alguns são pouco visíveis porque estão longe, outros ocupam todo o espaço mediático. O do Sri Lanka — entre os tâmil e cingaleses — não era “popular”, não estava no radar. E houve um genocídio, mais de 70 mil mortos. Senti a necessidade de falar disso.

Mas não queria fazer um documentário sobre os tâmil; queria que o maior número possível de pessoas visse o filme. Por isso, o thriller impôs-se: através da ação e do suspense, podia contar essa história, aquilo que me é próximo — o conflito — e, ao mesmo tempo, falar de identidade.

Cresci com dupla cultura e queria ligar essas duas temáticas: há um conflito, as pessoas fogem, exilam-se noutro país; ficamos com a cultura de origem e a de adoção. Este filme era, para mim, uma evidência como primeiro gesto: dizer de onde venho e para onde quero ir.

É um filme francês, mas sente-se uma influência de Kollywood. Como trabalhou esse equilíbrio — ser um filme francês e, ao mesmo tempo, dialogar com a comunidade tâmil e do Sri Lanka, e ainda com o público em geral?

Era crucial não fazer um filme só para a comunidade tâmil. Em Bollywood, por exemplo, quando o herói dá um murro e alguém “voa” 200 metros, nós, ocidentais, achamos que é comédia, que “não é realista”. Na Índia, vai-se ao cinema para esquecer a realidade dura e ver o extraordinário.

No Ocidente é o inverso: queremos a realidade — o que é verdadeiro, como as pessoas sofrem. Tentei então uma base realista com momentos do extraordinário. Um exemplo: há uma perseguição; a certa altura há um murro com um peixe e o herói desata a correr pelas ruas; depois vem uma confrontação de olhares, quase um western à Sergio Leone; e há um miúdo que “voa” por cima de outros para dar um pontapé.

Na sala, toda a gente se ri — não se acredita. Aí, “baixo o volume” do lado kollywoodiano e regresso ao lado ocidental: mostramos que estamos na cabeça da personagem principal e voltamos a uma luta mais radical, dura. Esse contraste é o jogo do filme.

Little Jaffna

Essa sequência da chapada com um peixe fez-me lembrar um filme do Jackie Chan.

Totalmente. As minhas influências vão de séries B a filmes de ação dos anos 80 e 90. Quis manter esse espírito de generosidade e partilha — também muito do cinema do sul da Índia.

Misturei isso com o cinema ocidental para fazer algo meu. Num primeiro filme, pedem-nos referências: há um pouco de Scorsese, de James Gray; por vezes, explosões de folclore — se quiserem dizer “Tarantino”, aceito; e ecos de realizadores de Hong Kong de outras épocas.

Não me prendi a um estilo: peguei em vários e criei algo que me pertence, sem perguntar se “podia” ou “não podia”. Fiz o filme que eu, enquanto espectador, gostaria de ver.

A música puxa muito pelo rap — algo que vemos hoje nos chamados filmes “de banlieue”. Era importante ter essa sonoridade urbana, mas filtrada pela sua cultura?

Quis misturar códigos. O “filme de banlieue” é muitas vezes o filme dos jovens, dos amigos. O meu tem esses códigos, mas não é só isso: é sobre um infiltrado, é crónica social.

Pego nesses códigos todos, encaixo-os e misturo-os. Também era importante ocupar um espaço urbano com personagens tâmeis e indianas que, em França, costumam ser representadas como migrantes a precisar de ajuda de personagens brancas — figuras frágeis por natureza.

Quando vemos um ator não branco num principal, é muitas vezes para fazer de migrante. Eu quis um filme com figuras de gangsters: figuras que se respeitam, que metem medo, carismáticas, onde se fala de lealdade.

Cresci a ver os filmes do Coppola — O Padrinho (1972) — e aquela comunidade ítalo-americana. Quis mostrar os franco-tâmeis assim: rapazes impecavelmente vestidos, muito coloridos, à sua imagem.

Num filme de gangsters, tudo costuma ser muito escuro; eu fiz o oposto, trouxe as cores da Índia e injetei-as em Paris — porque a ação decorre em Paris. Esse é o mosaico que procuro no filme.

Qual foi o maior desafio: a realização, a escrita ou estar em cena como ator?

A escrita. Num filme como este não há “cabeças de cartaz” — nenhuma estrela francesa para pôr no cartaz. Como financiar, em França, um filme com um elenco da minha cor de pele, sendo um filme francês e não indiano ou do Sri Lanka? O mais difícil foi convencer que não seria um documentário sobre a condição dos tâmeis nem um filme “apenas comunitário”, mas sim uma história universal, acessível a muita gente.

Quando o filme está pronto, percebemos as influências e dizemos “ok, é isto”. No papel, é muito difícil projetar o resultado, sobretudo quando não há nada igual. Levei cerca de cinco anos a escrever. O financiamento veio unicamente pelo guião — por isso, a escrita foi, para mim, o maior desafio.

É este o cinema que quer continuar a fazer — identidade e comunidade — ou quer experimentar outras coisas? Tem novo projeto?

Agora saio completamente da “comunidade”, porque quero continuar a fazer cinema de género — thrillers, filmes de gangsters. Se fizer outro filme “sobre a comunidade”, fico preso à minha representação. Já há este primeiro filme; gostaria que outros realizadores surgissem com outras histórias — há muito para contar sobre este povo e este conflito. Prefiro deixar espaço a outras vozes. Não quero que me rotulem como “o realizador ‘indiano’ que faz filmes com ‘indianos’”.

Vou sair disso. Haverá personagens da minha cor de pele, claro, mas misturadas com outras, e um filme mais amplo — muito mais em língua francesa, totalmente em francês, neste próximo caso.

Como foi a receção do filme na comunidade e na sociedade francesa?

Em França, a estreia teve uma receção muito boa da imprensa e da crítica — foram bastante benevolentes. Sem cabeças de cartaz é difícil atrair media e jornalistas, mas ainda assim estivemos em cerca de quarenta festivais. Esse lado prestigiante criou entusiasmo no cinema de autor francês: de repente, havia “algo novo” no thriller.

Na comunidade, foi mais complicado. A geração mais velha — a que fugiu do conflito e chegou a França — receou que o filme passasse uma má imagem. Compreendo: quiseram integrar-se e manter discrição.

Eu pertenço à segunda geração; preciso de mostrar que existimos, que temos lugar na sociedade. Foi a minha maneira de abordar o conflito através de um filme de gangsters. A terceira geração nem conhecia a guerra do Sri Lanka.O filme criou, pela primeira vez, uma ponte entre gerações para falar disso. É o que retenho: começámos a conversar entre gerações.

Não é “esta é a minha história, não te diz respeito”. Precisamos dessa história para nos construirmos: é parte do nosso legado e explica porque estamos aqui.

Eu nasci em França, mas pergunto: porque é que os meus pais fugiram do Sri Lanka e vieram para França? É por estas razões. É importante para as futuras gerações entenderem esta história, para se poderem construir.

Tem sido difícil essa integração?

Sempre disse: sem modelos é difícil construir-nos. No cinema, sem alguém que se pareça connosco — realizador, ator — é difícil sentir legitimidade.

Comecei a ser comediante em 2011 e só em 2025 tive o meu primeiro papel num filme francês. É duro. Não quis ficar na espera frustrada do comediante que só recebe papéis cliché. Decidi escrever para mim, realizar e provar que é possível.

Dediquei cerca de oito anos da minha vida a este filme. O importante não era fazê-lo “para os outros”, mas para mim — para não ter arrependimentos sobre o porquê de o fazer. Quis iluminar a comunidade e o conflito. Pode incomodar alguns; expliquei com calma que, se não concordam, não há problema: façam também filmes, contem a vossa visão. Mostrei que é possível abrir a porta. Agora podem entrar e trazer as suas histórias.

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