Entrevista a Andrew Stanton, o realizador de «John Carter»

(Fotos: Divulgação)

Pai da trilogia “Toy Story”, “Monstros e Companhia”, “À Procura de Nemo” e “Wall-E”, grande parte do melhor acervo da Pixar, Andrew Stanton lança-se naquele que é o projeto da sua vida, ao adaptar a história original que lançou Edgar Rice Burroughs como autor de aventura e ficção científica. Foi precisamente em 1912 que editou “A Princess of Mars”, a primeira novela da série “Barsoom” (o seu nome para Marte), segundo o popular género “pulp fiction”, num misto de espadachim, combinando elementos de western e ficção científica. Foi essa a obra que viria a inspirar o trabalho de Ray Bradbury e Arthur C. Clark, além de inúmeros cineastas ao longo das décadas.

Numa conversa esclarecedora com Andrew Stanton, de 47 anos, fica bem evidente a alavanca que faz andar a técnica criativa que sustentou a Pixar, mas também ainda a presença da figura tutelar do guru Steve Jobs. Quando se trata de perceber o que deu vida ao projeto inicial de Edgar Rice Burroughs, percebe-se que o desafio – e o risco, meu Deus! – é algo que merece bem esta leitura.

Aparentemente, “John Carter” é um projeto de uma vida inteira, para si, não?

Acho que jamais trabalharei em algo em que passei tanto tempo à espera. Li o livro quando tinha 10 ou 11 anos, em 1976. Aliás, ainda guardo todos os 11 volumes. Passei então mais de 30 anos à espera.

Não foi, portanto, nada planeado…

Eu nunca planeei nada na minha vida. Eu nem sequer planeei ser realizador ou escrever. Isso só aconteceu nos meus 20-30 anos. O que planeei foi comprar o bilhete para ver o filme. Sempre ansiei que alguém o tornasse num filme. O que jamais pensei é que seria eu a avançar com o projeto.

Como se passou o casting do Taylor (Kitsch) e da Lynn (Collins)?

Antes de começar a procurar, idealmente queria que fosse alguém desconhecido. Se sairmos do modo de pensar de Hollywood – e dos vossos editores (risos) -, acho que o público vai querer ser entretido e acreditar naquelas personagens. No caso de um papel icónico que poderá iniciar uma nova série, logo que vi o episódio piloto da série “Friday Night Lights” percebi que o Taylor Kitsch seria uma boa escolha. Era ainda muito novo, mas ele interpretava uma personagem muito mais jovem do que ele. Ele acabou por ficar numa short list. E tudo acabou por ficar dependente da química que deveria funcionar entre ele e a princesa Deja Thoris. E a Lynn acabou por ser uma ótima surpresa que veio numa lista atrizes. Eu fiquei imediatamente convencido. Não só pela beleza dela, mas pela sua força, energia e paixão. Era algo inato nela. Acabou por ficar nessa short list. Entretanto, fizemos testes com pares de atores e eles sobressaíram. 

Li no imdb que o Jon Hamm foi considerado? É verdade?

Não vou deixar ninguém ficar mal visto, porque poderei voltar a trabalhar com alguns deles outra vez… (risos). Mas digo-lhe, não vi nenhum mau, vi sim muitas possibilidades. Foi um bom problema.

Pelo que sabemos, o orçamento deste filme é colossal. Fala-se de 250 milhões, é uma soma que confirma?

Andará nessa área. Mas o que importa? Todos os filmes que fiz custaram muito dinheiro. 

Mas em todos os seus filmes tornou-se altamente lucrativo… Acha que “John Carter” poderá igualmente chegar a esse nível?

Mas nunca soube isso quando os estava a fazer! Isso eu nunca poderei saber. Vocês têm de acordar – ou os vossos editores têm de acordar -, pois ninguém pode controlar isso. Quem disse que sabe como o público vai reagir está a mentir. O que se pode controlar é tentar fazer algo que possa valer o tempo e o bilhete que as pessoas vão pagar. Foi isso que aprendemos com o Steve Jobs. Se eu fizesse o que as pessoas queriam, não teríamos hoje estes iPhones à minha frente. A ideia é o que temos e não como a vendemos. 

Foi fácil contar com o Willem Dafoe no elenco?

É estranho, porque como já tinha trabalhado com ele, não me lembrei. Ele foi a voz de Gill, um dos peixes do aquário, em “Nemo”. Felizmente, ele mostrou o seu interesse em participar. E foi nessa altura em que percebi que era perfeito para Tars Tarkas. Eu considero-o uma espécie de Rei da interpretação. 

Como foi trabalhar com CGI neste filme? Sentiu uma grande diferença da animação?

Esse foi um dos desafios que quis correr, pois achei que não era um desafio assim tão grande. Digamos que metade do filme é algo que eu sei. No fundo, metade do filme é mesmo animado. Ou seja, um filme de imagem real, mais um ano e meio de animação combinada. O que significa o dobro do trabalho…

Presumo que deveremos esperar uma continuação da série?

Era como se preparasse apenas o primeiro episódio de uma série. Não, eu tenho criado o desenvolvimento dos três filmes.

Mesmo que em termos de “box-office” seja complicado obter grandes números…

Ouça, eu não sou estúpido. Tudo depende o sucesso, claro. Mas eu quero estar preparado se tiver. É o lado mais responsável do autor do guião. Não vou ficar à espera que me digam que sim e depois ficar sem tempo. É uma questão de ser prudente. Mas também tenho muitas outras ideias se por acaso não correr bem. 

A parte II será “The Gods of Mars”?

Sem dúvida.

E a parte III?

Estou a seguir os livros. E o terceiro é “The Warlord of Mars”. São onze livros. Eu não tenho planos, mas a minha ideia é esta: gostaria de dar início a uma série, como James Bond ou Harry Potter. E tal como eu fiz, tentar explorar todas essas facetas de Marte e encontrar novas terras com estas personagens. Mesmo que mude de realizadores, de estúdios, de atores… Mas poderei ter esse legado? Eu sei que é um desejo enorme. Mas é o meu desejo de fã. O que eu queria era dar vida ao primeiro e achar que poderia gerar outros.

Isso significa que continuará a alinhavar outros projetos de animação?

Sem dúvida, eu tenho estado na Pixar durante estes dois anos a pensar em outras cosias, claro. Exceto quando estou em filmagens, o meu emprego é, e sempre será, na Pixar.

 
 

 

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