Entrevista a Benh Zeitlin, o jovem realizador de «Bestas do Sul Selvagem»

(Fotos: Divulgação)

É um miúdo este Benh Zeitlin. Mas pode até ser uma das maiores surpresas do ano se as suas ‘Bestas’ conquistarem o Óscar de Melhor Filme e/ou Benh o de Melhor Realizador. E até isso pode acontecer. Encontramo-lo numa esplanada em San Sebastian onde apresentou o seu filme. Isto já depois de uma digressão de sucessos e um acumular de prémios desde que estreou em Sundance. Segundo a IMDB, já são mais de cinquenta prémios. Impressionante, especialmente se tivermos em conta que Benh chegou a pensar que o filme seria um fracasso. 

Falar deste filme tem sido o que mais tem feito durante este ano. Tem sido uma longa jornada, imagino. Anteviu este sucesso?

Não, definitivamente não. Nunca imaginamos algo assim. Sabíamos que queríamos ir a Sundance mas não sabíamos o que viria depois. Nós acabamos o filme dois dias antes do início do Festival e não tivemos sequer tempo para pensar sobre o assunto. Foi algo que aconteceu de repente. Tivemos uma grande recepção em Sundance, no dia a seguir eu conheci as pessoas do local e surgiram as críticas. Foi uma verdadeira torrente. Não tinha a menor ideia que as coisas iam funcionar assim. Na altura assumia que por esta altura estaria já a filmar um novo filme…

Quando pensa no filme e onde está agora, o que sente? 

Humm (risos) É tudo um pouco louco. Não podia ser mais diferente. Fazer este filme foi um processo sujo, duro, uma verdadeira bagunça. Já a tournée do filme é algo completamente diferente, mas mais relevante que isso é que esta obra era algo que queríamos, que acreditávamos, ainda que talvez tivéssemos noção que funcionasse nesta dimensão. Há que ver que esta é a primeira longa-metragem deste grupo de pessoas, o Court 13. Porém o conceito [do grupo] é que iriamos sempre criar filmes e contar histórias pouco convencionais com um sentimento popular. Que fossem filmes emocionais e não artísticos, e que tivessem ação. Eu não cresci a ver filmes altamente artísticos. Eu cresci a ver desenhos animados, o Roger Rabbit e esse tipo de coisas. Este tipo de filmes transmite uma sensação (…) nós queremos que estas obras tenham esta conexão universal (…) Este tipo de filmes transmite isso…

Era isso que lhe ia agora perguntar. Enquanto trabalhava no filme havia a noção de levar as pessoas numa experiência em que se sentissem nele?

Sim. Nós somos cineastas orientados para a audiência. Não funcionamos de maneira a que eu me isole e diga, não se metam com a minha visão. Nós mostrávamos o filme semanalmente a pessoas diferentes, com profissões diferentes, interesses diferentes. 

Durante o final cut?

Não, na fase de edição. Todas as semanas nós queríamos uma perspectiva diferente daquilo que estávamos a fazer e todos esses comentários, conselhos e reações ajudaram-nos a dar forma ao filme.

Quvenzhané Wallis é Hushpuppy

À história também?

Sim, a história é a história. Todas essas escolhas tiveram como base o interesse na comunicação, em oposição, não sei… a criar uma obra de arte. Sempre foi um trabalho comunicativo em que se queria que as pessoas entendessem de que tratava o filme. Esses eram os princípios que nos regiam e é nisso que estou interessado.

Já referiu que cresceu a ver desenhos animados. Que outras influências tem e até que ponto a sua ida para Nova Orleães o influenciou para a construção desta obra?

Eu adoro os filmes de Hollywood mas nunca tive interesse em trabalhar nessa indústria. O glamour que existe nisso é algo que não me interessa. Os filmes que eu vi e que me fizeram pensar que é isto que quero fazer são obras como o Fitzcarraldo, os filmes do Emir Kusturica, como o Gato Preto Gato Branco, o Deliverance. São filmes onde é óbvio que o processo da sua construção é uma aventura. Foram feitos em locais com pessoas e existe uma experiência de vida neles. Não era simplesmente ir para o trabalho, num estúdio, num ambiente corporativo…

Preferencialmente com atores não profissionais…

Sim. Sabe, há uma série de filmes que adoro mas que são muito pouco vivos, ou seja, tudo é falso. Isso faz parte do jogo, ver as pessoas nos sets a atuarem de maneira a dar um significado a emoções. É uma linguagem de dar significado a algo. Depois há aqueles filmes em que realmente vemos algo verdadeiro, da mesma maneira que o assistimos num documentário. Num filme de ficção quando vemos o Klaus Kinski lá com os macacos à volta dele no «Aguirre: The Wrath of God», nós podemos dizer que sim, isto está mesmo a acontecer. E isso inspirou-me, tal como os filmes do Cassavetes que trazem com eles uma experiência real e visceral. Esses são os filmes que eu via. Não me influenciaram as histórias que contavam, mas sim a forma como traziam a realidade para o grande ecrã. Isso inspirou-me e é algo que queria fazer.

Isso antes de ir para Nova Orleães?

Sim, quando estava na escola era projecionista e mostrava muitos filmes.

Alguns desses que mencionou?

Sim. Eu mostrei o «Aguirre», o «Badlands». Eu vi estes filmes a partir da cabine de projeção. Foi muito inspirador. Sabe, antes de ir para Nova Orleães eu procurava um local para fazer este tipo de filmes.

Alguma ideia em mente?

Bem, eu tinha uma ideia para uma curta-metragem que acabei por fazer em Nova Orleães, mas na verdade quando tive a ideia eu estava a viver em Nova Iorque…

Mas já tinha estado em Nova Orleães

Sim, um par de vezes mas toda a minha vida quis ir viver para lá. Porém, na altura ainda não estava no meu radar. Na época eu pensava que ia viver para a Europa e fazer o filme na Grécia. Visitei muitos locais no continente mas não encontrei o que queria..

Benh Zeitlin e Quvenzhané Wallis

E não procurou em Portugal?

Não, apesar de já ter visitado o país desde então. Na altura eu visitei a Lituânia, Praga, Budapeste e Belgrado.

Como chegou à história, às personagens, aos atores e não atores deste filme?

Foi um processo, foi um trabalho de casting que fizemos desde muito cedo. Mal começamos a escrever o filme iniciamos a busca dos atores, até porque sabíamos que as personagens seriam criadas de forma colaborativa entre  o guião e as pessoas. Nós passamos nove meses à procura da Hushpuppy e vimos cerca de 4000 crianças. Tínhamos equipas de casting à procura por todo o estado, em todas as escolas primárias…

Na altura o nome Hushpuppy já estava criado?

Sim, o nome já existia. É engraçado, mas aqui [San Sebastián] ninguém sabe o que é. Hushpuppy são umas bolas de pão de milho. São aquilo que podemos chamar junk food, muito comuns no sul dos EUA…

A nossa ideia sempre foi contratar alguém localmente. Não tinha muita importância se eram atores profissionais ou amadores. O filme é tão enraizado que queríamos alguém que tivesse o espirito indomável do local, aquele tom de voz e o sotaque característico daquela região. Era essa a nossa ideia.

Depois de todo este sucesso e da lista alucinante de prémios que o filme acumula, já tem – como se diria no mundo da música – ideia para um “segundo álbum”?

Quando fazemos uma obra como esta temos a ideia que nunca mais na vida faremos um filme. “Eles vão-me expulsar do país, isto vai ser um desastre”. Nós pensamos sempre que temos uma e só uma chance. Por isso, o facto de sabermos que poderemos continuar a fazer filmes é sensacional. O filme que eu pensava que faria depois deste iria ser muito simples, pois pensava que este [Bestas do Sul Selvagem] iria ser um grande fracasso. Mas agora já assumimos o sucesso e vamos tentar fazer outro filme louco…

Com grande orçamento?

Com um orçamento maior que o deste, mas basicamente o mesmo espirito. A história será muito maior que o orçamento, será também filmado no Louisiana, com a maioria dos atores que participaram neste e praticamente com a mesma equipa. Mas será um filme diferente…

Está já a escrever o argumento?

Sim…

Já tem nome?

Não… ainda não 

 
 
 
 
 
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