Entrevista a Jose Pozo (‘El Cid’)

(Fotos: Divulgação)

“El Cid: La Leyenda” marca a estreia de José Pozo como realizador. O filme é uma das maiores apostas de sempre do cinema espanhol e espera conquistar miúdos e graúdos um pouco por todo o mundo. O realizador esteve em Portugal na apresentação oficial da obra e o C7nema teve oportunidade de falar com ele sobre o seu trabalho, novos projetos e o futuro do cinema europeu de animação.

Este filme implicou três anos e meio de trabalho e uma equipa de 800 pessoas. Inicialmente, o que o apaixonou neste projeto?
Bem, três anos e meio é o tempo que normalmente levamos a fazer um filme de animação tradicional, com esta qualidade, mesmo em indústrias mais desenvolvidas como a dos Estados Unidos. Na Filmax temos lutado para termos sempre todos os pressupostos para fazer isso mesmo: filmes de qualidade, mas conscientes das nossas diferenças face aos EUA. Em primeiro lugar, não queríamos ter menos tempo para fazer “El Cid”, e foi por isso que lhe dedicámos todo esse tempo.

Como é que se coordena uma equipa de 800 pessoas?
É complicado, ainda para mais porque estamos a falar de 800 pessoas em 16 países diferentes. O inglês acabou por ser o idioma comum, e a internet e o telefone foram fundamentais, dado que eu estive sempre a trabalhar em Espanha. Não conhecia os animadores. Chegámos mesmo a travar amizade por telefone e internet, e só depois tive oportunidade de conhecer alguns. É uma relação difícil, mas também bonita: pensar que, noutros países, a milhares de quilómetros, há profissionais empenhados a trabalhar no teu filme.

Como surgiu a ideia de adaptar a lenda de “El Cid” ao cinema, mais concretamente ao cinema animado?
Achei que esta é uma personagem histórica que merecia um filme. É uma figura muito importante para a história de Espanha e muito mais próxima da minha cultura do que, por exemplo, o Rei Artur ou Camelot. Além disso, era a oportunidade de fazermos uma história “nossa” com o objetivo de a exportar, pois tem valores universais. El Cid perde tudo de forma injusta, mas luta para recuperar o que perdeu. Dessa forma, defende valores que o tornam uma personagem apelativa. Mesmo sem saber ao certo como o filme ficaria, sabia que interessaria em todo o mundo.

E para futuros projetos, vai manter esta temática dos heróis e da história do país?
Não necessariamente. Agora estamos a trabalhar em “Don Quixote”, projeto que irei realizar. No dia 6 de julho a Filmax vai estrear em Espanha “Pinóquio 3000”, uma visão futurista da história de Pinóquio. Para já temos trabalhado com personagens clássicas e literárias, mas isto não pretende ser uma tendência fixa. Há também projetos diferentes em carteira, como “Nocturna” e “Gisaku”, em diferentes fases de produção. Se surgirem personagens históricos interessantes, espanhóis ou de culturas próximas da nossa, é bom podermos “vendê-los” ao mundo.

Entre os próximos projetos falou em “Nocturna”. Que tipo de projeto é?
“Nocturna” é um filme muito bonito. É um projeto de animação tradicional, com um estilo de desenho e argumento originais, adequado a crianças mas também a adultos. A temática é a noite, a escuridão, as personagens que nela se movimentam e os medos associados. O objetivo é ajudar as pessoas a enfrentarem o medo do escuro. Visualmente, lembra um pouco o estilo de Tim Burton, mas tem identidade própria. Será a estreia na realização de Adrián García e Víctor Maldonado, diretores de arte de “El Cid”.

E outros projetos como realizador? Falou em “Pinóquio 3000”…
Não, o “Pinóquio 3000” é o próximo projeto da Filmax, estreia em Espanha já em julho, mas não sou o realizador – sou o produtor da parte criativa. Como realizador, o próximo será o “Dom Quixote”, uma adaptação divertida e moderna desta aventura, no estilo de El Cid, mas em animação digital 3D.

A Espanha tem apostado no cinema de animação. Acha que Espanha e a Europa têm força para competir com os EUA ou o cinema asiático?
Mais do que competir, temos de procurar o nosso espaço. O cinema europeu de imagem real tem o seu prestígio, mesmo não sendo tão comercial como o americano. Mas a animação europeia praticamente não existia: faziam-se poucos filmes e raramente chegavam ao cinema com impacto. O objetivo da Filmax, e de outras empresas, é mudar isso – que o público saiba que pode ver bons filmes de animação europeus no cinema, sem ter de depender apenas da Pixar, Disney ou DreamWorks, que fazem trabalhos excelentes. Nós também podemos fazê-los, e com muito menos dinheiro, o que é importante. Reconheço que ainda não podemos atingir o nível de perfeição técnico deles, não por falta de talento, mas de orçamento.

E quanto à distribuição, vai estrear na Europa e nos Estados Unidos?
Sim, a estreia nos EUA está marcada para setembro. Será o primeiro filme de animação espanhol – e creio que europeu – a estrear lá, em 500 salas. É um passo importantíssimo, porque é difícil os americanos deixarem entrar produtos que competem com o seu cinema. É já um reconhecimento de que o filme tem nível para entrar no mercado americano e fazer bons resultados.

Quais são as suas expectativas, não só nos EUA mas também na Europa? Já tem feedback do público?
O filme já estreou em Espanha e foi um dos maiores sucessos nacionais, com cerca de 600 mil espectadores, estreando em plena época natalícia, quando estavam em exibição os maiores títulos mundiais. Já estreou também no México e na Coreia, com bastante sucesso. Ainda vamos estrear em mais de 30 países, por isso não posso falar de reações globais, mas até agora a resposta tem sido positiva. Agrada muito às crianças, mas também surpreende os pais.

Falou que “El Cid” foi um dos maiores sucessos de bilheteira em Espanha. Como vê esta boa aceitação do público, não só entre crianças, mas também entre adultos?
Empresas como a Pixar conseguiram que o cinema de animação fosse respeitado: primeiro pela crítica, depois pelos adultos e só depois pelas crianças. Isso prova que animação é cinema com letras maiúsculas. É um processo de produção diferente, mais demorado e caro, mas um bom filme de animação deve ser reconhecido como tal – um bom filme, ponto. Infelizmente, ainda é um género subvalorizado por quem está dentro da indústria, que muitas vezes nem sabe como é feito. Mas o público tem respondido de outra forma e provado que um bom filme de animação pode ser um dos maiores sucessos de bilheteira, além de rentável para as produtoras. Isso deve motivar-nos a produzir cada vez mais.

Carla Calheiros

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