Conversa com Andrei Plakhov, programador do festival e um dos mais importantes críticos russos. Levantando assim o véu para um dos festivais internacionais numa localidade mais remota (Khanty-Mansiysk, Sibéria), mas onde o gelo e as temperaturas geladas contrastam com um profundo calor humano. É assim o ‘espírito do fogo’.
Fale um pouco na história do festival ‘Spirit of Fire’ e o seu envolvimento na programação.
Tenho estado envolvido neste festival deste o início, em 2003. Portanto, há dez anos. Na altura, não fazia ideia do que seria este lugar, pois a Rússia é um país muito grande. Vivo em Moscovo e viajo muito pelo país, mas nunca tinha estado aqui, em Khanty Mansiysk. Achava que era uma pequena cidade no meio de nada. E era um pouco, mas entretanto com a descoberta do petróleo, a cidade explodiu.
E quando foi isso?
Por volta de 2004.
Como foi então que o Andrei chegou ao festival?
Foi um convite do Sergei Solovyov (famoso realizador e argumentista russo e ainda diretor de festival). Tinham construído uma sala de cinema moderna e bonita…
… Esta onde estamos agora?
Exato. Entretanto, o governador da cidade decidiu organizar um festival de cinema. A região já tinha uma atração pelos desportos de inverno, mas não um cinema. O público não estava habituado a ver cinema. Pelo menos, cinema de autor. Acho que durante estes dez anos, começou a criar-se um novo público, mais jovem.
É aliás, esse o objectivo desta programação, dar a conhecer novos realizadores, certo?
Sim, é verdade. Temos a seção internacional competitiva com primeiras e segundas obras e uma seção russa, com primeiras obras. E há ainda uma seção em que as pessoas são convidadas a fazer os seus próprios filmes.
Felizmente, o festival tem patrocinadores importantes, como a Gazprom. É uma presença que vai continuar a existir?
Sim, a Gazprom é um patrocinador muito importante. Nos últimos anos a empresa cresceu imenso. E tem patrocinado muitas atividades culturais e desportivas na região. Tem investido muito dinheiro em cultura. E em arte também.
É também importante que o festival tenha uma exposição internacional. Foi assim desde o início?
Sim, é importante perceber o que os realizadores russos andam a fazer. E dar isso a conhecer a convidados estrangeiros. E assim possam comparar o que se passa no resto do mundo.
Falemos então dos filmes. Poderia traçar um perfil dos filmes da seção internacional aqui presentes?
Acho que é um conjunto de filmes que reflete a situação real e social dos seus países. Temos um filme que é feito por um cineasta alemão que tinha nacionalidade russa (‘Nemez/O Alemão’, de Stanislav Guntner), e que estabelece precisamente essa diferença de culturas, pois é um filme alemão que aborda a cultura russa. Temos também filme que abordam problemas de emigração (‘Kuma’, do realizador curdo Umut Dag’), mas também de integração, como ‘Children of Sarajevo’, de Aida Begic, sobre os eventos terríveis na anterior Jugoslávia. Ao mesmo tempo queria ter uma aproximação mais artística, como sucede no caso de ‘Branca de Neve’ (do catalão Pablo Berger), um filme louco sobre o conto dos Irmãos Grimm. Temos também um filme chinês (‘Sweet Eighteen’, de He Wenchao) muito diferente do que temos visto da cinematografia chinesa. É nesse sentido uma visão nova da realidade. Entre, muitos outros…
É sempre importante a reação do público. Qual o balanço que faz desta edição?
Acho que as pessoas começam a aderir aos poucos, sobretudo os mais novos. Estão muito abertos a este tipo de experiências, até porque não têm possibilidade de as ver durante o ano. É um cinema diferente. Por outro lado, há ainda uma secção dedicada ao cinema de e por pessoas com deficiência e aos mais velhos, que tem tido muitos bons resultados e grande adesão. Por outro lado, temos ainda uma seção dedicada às crianças. No fundo, uma programação variada e para diferentes gostos.
Acha que é um festival que já adquiriu a sua voz no espectro dos festivais na Rússia?
Acho que está cada vez mais estabelecido. Claro que leva o seu tempo, mas o país também é muito grande. Mas de ano para ano tem crescido. E ao contrário de outros festivais que acabam, o ‘Spirit of Fire’ tem mostrado a sua vitalidade. Para mim, tem sido uma boa viagem. E acho que é um local com muito potencial para crescer. E até trazer algum turismo.

