“Trampolim do Forte”, primeira longa-metragem de ficção de João Rodrigo Mattos, dividiu com “Amor?”, de João Jardim, uma menção honrosa entregue pelo festival na premiação ocorrida no dia 16 no cinema São Jorge – os dois únicos prémios distribuídos para as longas em competição para além do principal, atribuído a “Febre do Rato”, de Cláudio Assis. Trabalha no momento em dois novos argumentos, ainda em sigilo – um para um filme com Lázaro Ramos (visto no filme de encerramento do FESTin, “Amanhã Nunca Mais”) e outro para o realizador Mika Kaurismaki (irmão de Aki) que vive no Brasil. Também dirige a produtora DocDoma, que recentemente teve o documentário “Cuica de Santo Amaro” selecionado para o maior festival do Brasil, “Nem Tudo é Verdade”.
Com filmagens terminadas, após seis semanas de trabalho, no início de 2009, “Trampolim do Forte” começou a circular em festivais ao longo de 2010 e, depois do FESTin, ainda participará em mais um, o último, em Los Angeles. O lançamento comercial no Brasil ocorrerá entre agosto e novembro – e não existem previsões para distribuição em Portugal.
Filmado na praia do forte, em Salvador, Bahia, aborda a dura vida de meninos pobres cujos únicos momentos de lazer são aqueles passados junto do trampolim. Nenhum dos garotos era ator, são todos estreantes. Todos vêm de classes desfavorecidas e a sua pré-seleção para os castings foi feito junto a ONGs e instituições que lidam com crianças carentes. No total, o casting envolveu cerca de 400 crianças, sendo selecionadas 45 para uma primeira fase – grupo do qual saíram as 14 que entraram no filme. Foram dois meses de preparação. “Tinha que ser bem feito, porque se atuação das crianças não desse certo o filme não funcionaria. Todo o filme se centra na atuação deles, e estão todos bem, sinto imenso orgulho”, afirma Mattos.
Depois de “Trampolim do Forte”, eles estão dando continuidade com o seu envolvimento em atividades artísticas, participando de cinema e teatro. Muito diferente do trágico destino que teve Fernando Ramos da Silva, celebrizado no “Pixote” – clássico de Hector Babenco exibido no FESTin – que nunca conseguiu sair do meio de onde vinha e acabou morto pela polícia durante um assalto. “Nesta época não havia essa preocupação. Hoje pensamos nisso, é uma grande responsabilidade”, observa o cineasta.
AS AMEAÇAS À INFÂNCIA
“Trampolim do Forte” é sobre os problemas que atingem a infância. O realizador explica que “Aquelas crianças trabalham muito e não tem tempo para elas. No pouco tempo que elas têm para serem crianças vão para o trampolim. Lá podem viver aquilo que realmente como realmente deveriam na maior parte do seu tempo. O lúdico, a amizade, a solidariedade, a fraternidade, a criatividade – simbolizada através dos saltos. Esse espaço, entre o momento em que decolam até o cair na água, é de extrema liberdade. E quando eles mergulham, como no plano que fecha o filme, ficam protegidos de tudo aquilo que está do lado de fora, é uma coisa quase uterina.”
O cineasta acredita que a questão não é regional, mas sim global – pois também ocorre nos países desenvolvidos, por outros motivos. “Existem países com problemas graves como a exploração sexual infantil, a pedofilia, o trabalho escravo e países com alto nível de problemas com relação a internet e a sobrecarga de atividades – inglês, natação, balé”, observa.
O filme foi rodado ao mesmo tempo e no mesmo local que outro sobre crianças, recentemente exibido em Portugal, “Capitães de Areia”. Por isso, foi muito comparado a ele. Para o realizador, “’Capitães de Areia’ é um filme “barra pesada” sobre crianças na marginalidade. O ‘Trampolim’ tem outra abordagem – é a história de crianças que trabalham. O que move o filme é a amizade».
Reconhece, no entanto, uma espécie de inevitabilidade de incluir a violência no registo. “Há uma violência psicológica nas entrelinhas – e é pesada. Mas é um filme que trata esse aspeto de uma forma mais sutil, tem poesia ali. Eu queria que a busca da emoção do expetador fosse guiada pela doçura da infância. Tem o aspeto barra pesada, mas tem esse condão da leveza e a tentativa de resgatar o que há de melhor nos seres humanos”.
E como João Rodrigo Mattos, filho de antropólogo e proveniente da classe média, tomou contato com esse universo? “Foi bem natural. Eu fui criado no centro da cidade de Salvador, num bairro de classe média, e como não havia parque infantil eu ia parar ao porto da barra – que era a praia mais próxima de casa. Pulava muito do trampolim, como o meu filho hoje também pula. E saltava também da ponte de Mar Grande que aparece no filme. Apesar de ser de classe média ficava lá, ouvindo as histórias. Algumas eram pesadas, outras nem tanto.”
Vivendo em Portugal enquanto preparava um documentário sobre Agostinho da Silva, seu avô, e com saudades do Brasil, Mattos começou a escrever o guião pensando imediatamente naquele local, que segundo conta não mudou nada desde a sua infância até aos dias de hoje. “Sempre sonhei em fazer um filme ali, o filme partiu da locação”.

