Empenhado atualmente em rodar um filme sobre São Francisco de Assis, o australiano nascido na Nova Zelândia Andrew Dominik confessa ainda não ter encarado o clássico de Franco Zeffirelli (1923-2019) sobre o padroeiro da caridade, Fratello sole, sorella luna (1972), mas está com particular atenção aos escritos de outro italiano, Pier Paolo Pasolini (1922-1975), sobre a Cristandade.
“Pasolini fez o melhor filme sobre a fé em Cristo, Il vangelo secondo Matteo, mas o que me leva a debruçar-me sobre uma personagem — seja São Francisco ou qualquer outra — não são as lutas que trava contra o mundo, mas as batalhas internas. As lutas de um indivíduo consigo mesmo despertam nos atores problemas difíceis de negociar, e é aí que surge o cinema que me interessa”, disse o realizador de 58 anos, nomeado ao Leão de Ouro por Blonde (2022) e por The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007), numa entrevista ao C7nema no Festival de Marraquexe.
Dominik participou na secção Conversas e revisitou a sua obra, incluindo os videoclipes com Nick Cave e um documentário sobre Bono Vox.
“Adoro rock’n’roll e continuo atento às novas bandas. Penso o desenho de som dos meus filmes numa conversão do surround para mono e faço takes silenciosos porque acredito que as nossas memórias traumáticas são envoltas em quietude”, explicou o cineasta, que ganhou visibilidade com Chopper (2000), com Eric Bana no papel de um criminoso do Novo Mundo. “É um filme baseado em investigação, que me ficou na cabeça durante sete anos. Uso livros como base do trabalho muitas vezes. Falas que parecem minhas não são: não as escrevi no guião, retirei-as dos romances, porque sei seguir o que está no papel.”
Há, no entanto, uma frase de que assume a autoria: “A América não é um país. A América é um negócio.” É uma fala dita por Brad Pitt em Killing Them Softly (2012), que valeu a Dominik uma nomeação à Palma de Ouro de Cannes.
“O Brad é muito bom. Não tenho medo dos bons atores”, admite o realizador. “Eles sabem que sou capaz de sentir quando não estão a ir bem.”
O Festival de Marraquexe termina a 6 de dezembro.

