Pelo segundo ano consecutivo, o vencedor do Prémio Motelx para Melhor Curta-Metragem Portuguesa foi para um filme de animação: «Conto do Vento», de Cláudio Jordão e Nelson Martins, sucedeu a «Bats in the Belfry», de João Alves, na tão desejada honra.
Contando já com um currículo grande (Prémio Animação no Porto7 – Festival Internacional de Curtas do Porto e participações no Fantasporto 2011, Faial Film Fest 2011 e no Caminhos de Coimbra), o «Conto do Vento» conquistou o júri da mostra lisboeta dedicada ao terror (segundo Christian Hallman, porta-voz do Júri): “Pela narrativa imaginativa, o ponto de vista original e sensibilidade artística na ilustração da fábula de uma rapariga e da sua mãe numa sociedade preconceituosa, contada pelo vento.”
O c7nema teve a oportunidade de entrevista Nelson Martins, um dos realizadores, no rescaldo da vitória.
De onde veio a ideia para ‘Conto do Vento’?
A ideia surgiu na sequência de um workshop a que tive o privilégio de assitir em 2006 no Festival de Avanca, com o realizador americano Jeff Burr (realizador de alguns blockbusters de terror). Até à data, não tinha grande interesse pelo género, mas o que esse workshop permitiu foi não só olhar de forma despreconceituada para o género como o começar a admirar, depois e assistir à análise de clássicos de Browning, Corman, Argento, Carpenter, etc. O impacto foi tal que no fim do workshop estava certo que queria fazer algo no género, e a história surgiu de imediato.
A história propriamente dita, surge do imaginário popular de contas e lendas de bruxas, o que se revelou o ambiente perfeito para uma história contada pelo vento.
Qual tem sido o percurso do filme?
Para usar uma expressão já gasta…de vento em popa. Tem sido um percurso muito interessante desde que estreou no Avanca’2010. Para estreia teve uma óptima reacção do público e acabou por receber, o prémio de Produção Avanca2010 e uma Menção Honrosa na categoria de estreia Mundial.
Seguiu-se o Prémio Revelação em Coimbra, no Caminhos do Cinema Português, Prémio Animação no Porto7, Prémio Nacional de Multimédia na Categoria de Entretenimento, Melhor Curta de Terror Português no MOTELx e recentemente o prémio Melhor Filme de Animação no Naoussa International Film Festival na Grécia. Mas seguramente não são só os prémios que definem o percurso de um filme. Ter sido seleccionado para Annecy foi para nós uma distinção que nos deixou muito orgulhosos, bem como o Festival de Sitges ou mesmo o Fantasporto.
Sendo um filme que vive do percurso feito essencialmente em festivais, a nivel internacional tem tido presenças em países como França, Uruguai, Holanda, Coreia, Polónia, Croácia, Brasil, Itália, Espanha, Arménia, Inglaterra, Turquia, Canadá, Grécia e Argentina.
Como foi vencer o Motelx? Acreditam que este conto seria recebido assim num festival de terror?
Uma total e inesperada surpresa. Este filme ser seleccionado para um dos mais importantentes festivais nacionais do fantástico deixou-nos entusiasmados, porque ao fazermos este filme queriamos obviamente que agradasse aos fãs deste género, que têm caracteristicas muito particulares. Receber o prémio foi muito além das nossas expectativas principalmente porque o faz entrar automaticamente no périplo de festivais europeus fantásticos de referência (como foi já o caso de Sitges em Espanha).
Achávamos simplesmente que era uma história diferente do que é normal encontrar neste festival pela perspectiva da história, pela plástica e pela realização e por isso com potencial ou para se gostar muito ou detestar!
O cinema de animação português é muito forte nas curtas. Haverá espaço para longas de animação?
Espaço de produção creio que sim na medida em que há bons técnicos, bons animadores, bons realizadores e acredito, boas histórias. Agora espaço para tornar uma produção destas lucrativa e acima de tudo sustentável (porque a ideia não será só fazer uma) já é mais dificil responder, pois sabe-se que o cinema nacional normalmente não cativa muitos espectatores em Portugal, o que obriga a que seja uma produção com olhos postos no Mundo e isso levanta desde logo questões, de distribuição e, acima de tudo, exigência.
Como se sabe a animação é das “disciplinas” mais dispendiosas do cinema pelo que pensar em longas-metragens em Portugal terá que ser, provavelmente, numa lógica de co-produção internacional e com garantias de uma boa distribuição, de outra forma é um potencial…filme de terror….daqueles que acabam muito mal!
Tem algum novo projecto?
A Kotostudios já está a trabalhar nos próximos projectos quer na área cinamatográfica quer televisiva, nem todos de animação.
Desde já podemos dizer que este primeiro projecto no género do fantástico aguçou o apetite para futuros devaneios.
Medo…muito medo 🙂

