Seis meses depois de estar na Berlinale para promover o seu “Teaches of Peaches”, Merrill Nisker, que se tornou o ícone queer Peaches, invade agora o Festival de Veneza, cortesia de Marie Losier (Cassandro, the Exotico!), que assina um documentário “Peaches Goes Bananas”, sobre a cantora e ativista: .
“Trabalho e conheço a Marie Losier há mais de 15 anos. Se o “Teaches of Peaches” sente-se como uma conversa num 1 para 1, mesmo que as pessoas não me conheçam, o da Losier parte do lado de dentro do meu mundo, do meu cérebro e do dela”, explicou-nos a cantora em Berlim, cidade a que chama de casa. “Não abdico da minha cidadania canadiana, por isso – não sendo alemã – não posso votar. Mas sinto o privilégio de onde vivo, mas também a gentrificação. Sejam jovens ou idosos, a cidade está a sofrer. São tempos difíceis. Há mudanças políticas, culturais , económicas”.
Numa mistura de materiais de arquivo, entrevistas e imagens da digressão de aniversário do seu álbum homónimo, “Teaches of Peaches” contou com a realização de Philipp Fussenegger e Judy Landkammer, cujo maior desafio “foi não criar nem um filme clássico de digressão nem uma biografia clássica, mas uma narrativa paralela em que a história de Peaches e o seu desenvolvimento são claramente trabalhados sem se tornarem nostálgicos”, olhando-se assim para o presente e o futuro da cantora e ativista, que cedeu 7 mil horas de gravações, em formato digital, para os cineastas criaram este tributo, que não deixa incólume a toxicidade que se vivia nos anos 90, quando surgiu. “Quando olhas para trás vês toda a toxicidade existente. Na minha criação procurei responder a muitas questões que tinha na cabeça, nomeadamente reagir aos standards que a sociedade te dava. E enquanto respondia às minhas questões, respondi à de muitos outros”. “Existe uma ótima maneira de olhar para os anos 90 e como esta era foi das mais ‘fucked-up’, diz-nos, completando: “ Vejam o festival de Woodstock. O que aconteceu em 1999 e o ambiente tóxico que lá se viveu”.
Já em “Peaches Goes Bananas”, Loisier “pinta o retrato de uma mulher e, mais importante, de uma artista” com quem se identifica em vários níveis. “Depois dos anos cinquenta, sinto o corpo mudando e, ainda assim, a necessidade de continuar criando e experimentando tanto quanto as gerações mais jovens é mais forte do que nunca. Em 2006, durante as filmagens do longa-metragem ‘The Ballad of Genesis and Lady Jaye‘, conheci Peaches aleatoriamente. Este foi o início de uma filmagem e amizade de 17 anos”, explica Loisier nas notas de intenção publicadas na página da Giornate degli Autori.“Sou tocada pela sua perseverança e energia incansável para experimentar e colocar seu corpo no centro da sua arte com grande beleza e liberdade. Peaches questiona e redefine constantemente os limites de sua identidade. O seu trabalho é comprometido, rebelde e brincalhão com força irreverente e insolente. A necessidade de experimentar, de se reinventar, a necessidade de viver plenamente, livremente, e enfrentar as normas e hostilidades, amando, dançando, criando, continua no centro do meu trabalho”.
Descrita por Loisier como “um ícone queer transgressor, uma feminista intransigente e uma mulher em constante transformação”, Peaches sabe que a Europa parece estar a guinar à direita e a ceder ao conservadorismo. “Há um crescimento exponencial em todas as direções de conseguir mais direitos, mas também dos retirar. Vivemos tempos assustadores em que ideologicamente as pessoas votam mais à direita e revelam mais conservadorismo. Que mais posso fazer que lutar contra isso?”, explica-nos, prometendo continuar a lutar, sempre com prazer e paixão. A “fun fight”, sublinha, citando Bayard Rustin, ativista homossexual dos direitos civis dos negros nos EUA, que recentemente teve direito a um biopic por parte da Netflix, que falava de júbilo na busca pela revolução.
Nas questões queer, Peaches recusa a busca de uma “normalização”, palavra que teme usar, mas apregoa a necessidade de maior “compreensão e sensibilidade”. “Não acho que devemos falar de conquistas do mundo não-binário. Acho que o essencial é a compreensão. Podia falar em normalizar o tópico, mas não quero usar esse termo. Compreender e ser sensível, é isso que falta.”
Recordando que a sua conexão direta com o cinema começou em 2012, quando ela mesmo assumiu a realização de “Peaches Does Herself”, documentário que foi exibido no TIFF e que pegava num show em palco, “a partir da perspetiva dos fãs daquilo que eles queriam que eu fosse”, Peaches confessa ter sentimentos mistos em relação à cultura do cancelamento, disparando: “É complicada a questão do cancelamento, pois embora certas atitudes tenham de ser condenadas, devia de haver mais espaço para o debate e não simplesmente encerrar o tópico com um fechar de portas.”
“Peaches Goes Bananas” é exibido a 1 de setembro no Festival de Veneza.

