Dois anos depois de “Toni en famille”, Camille Cottin volta a colaborar com o realizador Nathan Ambrosioni, novamente numa nova história onde a maternidade está destaque. No filme de 2023, ela desempenha o papel de uma mãe super ocupada com cinco filhos e que tem a ambição tardia de voltar a estudar. Agora, a conhecida atriz de filmes como “A Casa Gucci”, “Stillwater” e “Trois Amies” (ainda inédito em Portugal), além da série “Call My Agent!”, vai ser surpreendida pela irmã, quando esta desaparece e deixa a seu cargo os dois sobrinhos pequenos. “Gostei tanto de trabalhar com o Nathan no ‘Toni en famille’ que fiquei obcecada em trabalhar com ele novamente e fazer parte da sua história no cinema”, disse Cottin ao C7nema em Karlovy Vary, onde “Les Enfants vont bien” teve a sua estreia mundial, inserida na competição ao Globo de Cristal. “É um presente ter este tipo de relação com um realizador que escreve os filmes a pensar em mim. É algo muito precioso. Quando temos alguém tão maduro aos 25 anos, é difícil não pensar no que fará aos 40.”

No filme, Cottin desempenha o papel de Jeanne, uma mulher que terminou uma relação de largos anos por causa do desejo da parceira em ter filhos, enquanto ela não queria. Quis o destino que a irmã, Suzanne, desempregada e um pouco perdida no papel de mãe, deixasse os miúdos ao cuidado da tia, que é agora forçada a recebê-los e lidar, juntamente com as crianças, com o desaparecimento da irmã. “Ainda não é muito comum termos personagens femininas no cinema que não desejam ter filhos”, explica Cottin. “Especialmente alguém que, não querendo ter filhos, acaba por ser forçada a lidar com duas crianças. De certa maneira, essa pessoa sente tudo como uma armadilha. O que é mais interessante no olhar do Nathan é que ele não julga as ações da Suzanne. Muitos diriam que ela fez a coisa mais horrível do mundo. Será possível realmente uma mãe pensar que o melhor que tem a fazer é deixar os filhos ao cargo de outra pessoa? Podemos ver isso como um ato de amor? É difícil olhar para o abandono com essa visão.”
Admitindo que maternidade e paternidade são elementos demasiado complexos, mas que normalmente são vistos como orgânicos e intrínsecos ao ser humano, Cottin sente que “devoção e amor incondicional fazem parte dessa ideia” generalizada, mas sente que nem todas as pessoas estão preparadas ou sentem isso em relação aos filhos: “É bom termos uma perspetiva diferente desta questão. O Nathan é um pouco obcecado com a questão da maternidade. Mostrou isso no “Toni en famille” e agora no “Les Enfants vont bien”, onde novamente a devoção aos filhos e liberdade estão em cima da mesa (…) Todos temos a nossa personalidade e muitas vezes ela não se adapta ao papel que tens de assumir. Claro que tens de te adaptar a uma nova vida quando és mãe. Tens de prevenir problemas, manter um rigor. Quando isso falha, há problemas. E as crianças não dizem tudo diretamente, há uma espécie de codificação. Tenho lutado para assumir o meu papel de mãe e tenho me adaptado. Por exemplo, este ano só aceitei fazer filmes em Paris, onde moro. Gosto de manter as duas vidas, a de atriz e a de mãe. Isso preenche-me. Costumo brincar com o meu namorado, que é o pai dos meus filhos, e dizer que a maior catástrofe que me podia acontecer era a a babysitter dos miúdos abandonar-me (risos). É apenas uma piada, uma brincadeira que temos entre nós (risos). Ele é um ótimo pai e companheiro”.
Confessando que tem dificuldades em interpretar papéis de pessoas que despreza, Camille Cottin dá um exemplo curioso da sua filmografia, no qual interpreta a beata, caçadora de escravos, Madame La Victoire: “No Ni chaînes ni maîtres (Sem Amarras) odiei tanto a minha personagem que foi complicado filmar. Tenho este problema desde pequena: dificuldade em interpretar alguém que odeio. Sei que é estupido isso, pois sou atriz, mas isto acontece porque tenho uma abordagem muito física às personagens. É como se vestisse um fato. E esse fato, essa personagem, era muito cruel e má. Por isso, sentia-me sempre um pouco enojada cada vez que ia para uma cena. Aceitei fazer esse filme porque era muito importante contar aquela história, mostrar a sua dimensão política, e satisfazer o desejo do realizador em relatar este episódio.
O Festival de Karlovy Vary decorre até dia 12 de julho.

