De quarta-feira a domingo, a cidade costeira de Paraty — considerada uma espécie de embaixada extraoficial do Cinema brasileiro nas décadas de 1960 e 1970, por acolher grandes criadores — empresta o seu Cinema da Praça para celebrar os 80 anos do realizador Luiz Carlos Lacerda, o Bigode.
Indignar(-se) é o verbo que move o seu Cinema desde 1971, ano em que a estreia de Mãos Vazias marcou a sua consolidação como realizador. Outrora assistente de um dos pilares do audiovisual moderno latino-americano, Nelson Pereira dos Santos, Bigode construiu uma obra profundamente singular.
O baile que deu no moralismo nasceu da celebração do prazer — já presente no notável O Princípio do Prazer (1979). A partir daí, assinou documentários e ficções em abundância, incluindo numerosas curtas-metragens. A mais recente, Celebrazione (2023), aborda a figura de Pier Paolo Pasolini.
Na entrevista que se segue, Bigode reflete sobre a importância de estar naquele local histórico do interior do Rio de Janeiro e lança críticas mordazes aos ranços imperialistas.

Qual é a maior importância de Paraty para a sua carreira e para a sua vida?
Paraty foi um esteio libertário dos anos de chumbo. Foi um doce exílio, uma “ilha perdida no oceano da razão”, como escreveu Machado de Assis sobre a Loucura no conto O Alienista — base de um filme de Nelson Pereira dos Santos, Azylo Muito Louco, que nos abriu as portas dessa cidade, e ela recebeu-nos com uma imensa carga de afecto e uma silenciosa solidariedade.
Fiz muitas curtas lá, a partir de O Sereno Desespero, uma antologia poética dramatizada de Cecília Meireles, filmada em 1972. A minha primeira longa-metragem nasceu lá. Não por acaso, recebi o título de cidadão da cidade. Nesse ambiente, o vento libertário dos anos 1970 juntou-se à liberdade moral de uma cidade que já elegeu dois presidentes de câmara homossexuais — um feito inédito no mundo há cinquenta anos.
Aos 80 anos, a sua carreira continua em ebulição, com novos projectos e muitas aulas. Ao rever a sua trajectória como realizador, inspirado pelo seu mestre Nelson Pereira dos Santos, que imagem do Brasil criou nos seus filmes?
Jamais encontraram nos meus filmes aquele Brasil chamado “país do futuro”, mas sim o Brasil da luta contra o preconceito e em prol da liberdade. Essa é a tónica da minha obra desde a estreia nas longas-metragens com Mãos Vazias, a história de uma mulher que rompe com os padrões burgueses.
Depois, com O Princípio do Prazer, apresentei uma metáfora sobre a liberdade sexual. Já Leila Diniz, sobre a actriz homónima, é a cinebiografia de uma mulher que ocupou um lugar na sociedade nunca “dantes navegado”. Em For All – O Trampolim da Vitória, falo sobre o choque cultural do comportamento moderno que nos chegava de outro país.
Que projectos audiovisuais tem previstos para os próximos meses? E quanto aos livros de poesia?
Até ao final de 2025, concluo a montagem de Campeão de Audiência – A História de Cavi Borges, sobre um artista que transgrediu as regras de produção e exibição e se tornou o maior produtor de Cinema do Brasil. Cavi é uma espécie de “Barretão do B.O.” — o Baixo Orçamento — numa referência a Luiz Carlos Barreto, que produziu sucessos de público e teve duas longas-metragens nomeadas para o Óscar.
Tenho um novo argumento, uma adaptação do romance de Rosário Fusco, O Livro de João, que escrevi durante a pandemia. Estou à espera que este tempo de patrulhamento ideológico abrande. Confio no Presidente Lula. Trabalho também num documentário comemorativo do centenário da revista Verde, publicação de Cataguases que inaugurou o Modernismo em Minas Gerais — na literatura, nas artes plásticas, na arquitectura e no cinema, com a obra pioneira de Humberto Mauro.
Preparo, em paralelo, um livro de poemas pornográficos e de escatologia sexual. Já publiquei um de poemas eróticos. Aos 80, já não tenho limites.
Qual foi a lição de cinema mais valiosa que o seu pai, o produtor português João Tinoco de Freitas, lhe deixou?
Com o meu pai descobri a importância da afirmação da cultura brasileira na luta contra o colonialismo dos Estados Unidos e o seu lixo cultural — salvando-se aí o cinema independente, o jazz, alguns artistas plásticos outsiders, como Warhol, Basquiat e Edward Hopper, e a literatura da beat generation.
Com ele descobri também a potência do cinema brasileiro, num aprendizado que foi depois aprofundado com Nelson Pereira dos Santos. Essa é a minha missão junto dos meus alunos e assistentes: espalhar essa potência.

