A realizadora franco-suíça, premiada no Festival de Berlim em 2012, está em Lisboa para participar da Festa da Francofonia – ao mesmo tempo que está a encerrar um périplo de um ano ao redor do mundo para divulgar seu segundo filme, “Irmã” – que em Portugal estreia nesta quinta-feira (21/03).
Foi nesta viagem que a realizadora concluiu, conforme observou em conversa com o C7nema, que “as pessoas não sabem o que é a Suíça”, o que a leva a querer continuar a trabalhar no seu país. Terra de chocolates, estações de esqui, bancos e, essencialmente, associada à riqueza e alto padrão de vida, o país da realizadora inclui muitas contradições. “A Suíça tem muitas coisas más e é por isso que quero continuar a fazer filmes lá”, observa.
Após a sua aparição no certame alemão no ano passado, onde venceu o Urso de Prata, “Irmã”, obra que tem Léa Seydoux no papel principal, teve uma excelente carreira internacional – sendo a obra escolhida pelos suíços para representá-los nos Oscars. A trajetória culminou com a recente nomeação a Melhor Filme em Língua Estrangeira nos Spirit Awards. O sucesso abriu-lhe muitas portas e no momento ela trabalha no guião para um primeiro filme a ser rodado nos Estados Unidos – ainda sem título. Sobre o sucesso, ela diz ter ficado “comovida”.
A História de um ladrão de esquis
Uma das contradições da qual fala a cineasta é mesmo a premissa básica de “Irmã”, baseado numa memória antiga sobre uma experiência bastante estranha vivida por ela numa passagem pelos Alpes, quando andava por lá um menino que roubava esquis. “Na altura achei estranhíssimo que se recomendasse às pessoas que tivessem cuidado com os esquis, pois andava alguém a roubá-los. Então um dia essa memória veio ao de cima e comecei a construir a história dele – quem era, como vivia, porque tinha necessidade de roubar…”.
Simultaneamente, o processo de escrita do guião respondia a um desejo de voltar a trabalhar com Kacey Mottet Klein, que fazia de filho de Isabelle Huppert no seu primeiro trabalho, “Home – Lar Doce Lar”, e que na época tinha oito anos.
A Bela e desagradável irmã
Ao mesmo tempo, esse ladrão infantil precisava de uma família e assim foi delineando-se a figura da irmã, que viria a ser desempenhado por Léa Seydoux. É quando surge em cena que o filme toma uma direção diferente do que se poderia esperar, pois ela não aparece como uma adulta responsável, que faz julgamentos e passa advertências ao menino. “Eu não queria fazer um filme baseado em juízos morais ou numa abordagem social. Não é esse tipo de história”, diz Meier.
Ela concorda, no entanto, que a sua protagonista, com toda a sua desresponsabilização inconsequente, é uma personagem desagradável. “Sim, é difícil gostar dela mas, de qualquer forma, com o passar do tempo, percebe-se toda a sua fragilidade. Quando se percebe o quão jovem ela é até temos alguma empatia. Para além disto ela é bonita e você sente todo o falhanço dela”, observa. De qualquer forma, o mistério que envolve a sua origem e a sua idade dá um rumo mais interessante ao filme. “É quase como um conto de fadas”, conclui.
“Irmã” fez parte de um ano interessante para atriz, que ainda protagonizou “Adeus Minha Rainha”, ao lado de Diane Krugger. Para viver a desagradável irmã do protagonista, a atriz passou por um processo de casting, o segundo para um filme de Ursula Meier. No primeiro, no entanto, para “Home”, a cineasta não achou que a atriz corresponde àquilo que ela procurava, mas agora foi diferente. Para além de ter conseguido captar toda a dureza e a fragilidade da personagem, o aspeto de Seydoux prestou-se muito bem para ocultar a idade dela – algo importante para o desenvolvimento da história.

