Entre Locarno e Veneza, Alexander Payne fala da sequela de “Election” e o seu próximo filme dinamarquês

(Fotos: Divulgação)

Presidente do júri do próximo Festival de Veneza e homenageado em Locarno com um prémio de carreira, Alexander Payne tem passado os últimos dias descobrindo e revisitando obras do cinema britânico do pós-guerra, este ano em destaque no certame helvético. Entre retrospetivas e encontros com o público, o realizador aproveita o momento não só para celebrar o seu percurso, mas também para se reencontrar com a história do cinema que tanto o influenciou. E quando chegar a Veneza, mesmo com todo o trabalho que terá pela frente, ele promete ver a versão restaurada de Aniki-Bóbó (1942), de Manoel de Oliveira, que será exibida no Lido.

Só vi os filmes tardios desse realizador, que são mais lentos. Não sei se todos são assim. Mal posso esperar para ver este”, disse o norte-americano de raízes gregas ao C7nema, numa entrevista no Palacinema. “Espero viver pelo menos até aos 106 anos, como o Manoel de Oliveira”.

Ao falar da distinção que recebeu em Locarno, Alexander Payne responde com um sorriso característico: “Bem, todos os anos têm de dar o prémio a alguém, não é?”. Mas depressa passa do humor à gratidão: “É uma honra. Sempre ouvi falar maravilhas deste festival, e é a minha primeira vez aqui. Já tinha sido convidado várias vezes, mas nunca tinha conseguido vir — queria mesmo ter vindo no ano passado, especialmente pela retrospetiva da Columbia Pictures.

Sobre o peso de um prémio pela carreira, Payne reconhece o momento com humildade: “Claro, como todos os que recebem um prémio destes, digo que me sinto novo demais para isto. Mas aceito o galardão como um encorajamento para o que ainda está por vir.”

Alexander Payne nas filmagens de Os Descendentes

E, refletindo sobre o alcance do seu trabalho para lá das fronteiras norte-americanas, conclui: “É especialmente reconfortante saber que um realizador norte-americano pode ser apreciado para além das fronteiras dos Estados Unidos, aqui na Europa, pelo mundo fora. É muito lisonjeiro. Sinto-me em casa.”

Admitindo que se sente um sortudo por ter já um longo percurso como realizador, Payne lembra que a maioria dos seus colegas na escola de cinema não conseguiram sustentar uma carreira. “Eu consigo fazer, mais ou menos, os filmes que quero, sem ter de trabalhar por encomenda. É um privilégio”, explica, desvalorizando o facto de ser um dos poucos cineastas nos EUA com direito ao corte final dos seus filmes, o célebre final cut: “Tenho esse poder — mas ele é demasiado valorizado. A maioria dos produtores não quer cortar nada ou montar os nossos filmes. Isso dá muito trabalho. Eles são preguiçosos”. [Risos]

Realizador de filmes como Os Descendentes e Nebraska, que serão exibidos em Locarno como parte do tributo a si, Payne diz que esses filmes representam para si a mesma alegria que todos os outros, mencionando que ambos refletem onde “ele estava na vida” no momento em que os fez. “Mesmo que os meus filmes sejam comédias, sátiras ou dramas divertidos, o que mais me importa é o sentido de lugar. Em Os Descendentes e Nebraska, acho que consegui captar bem esses ambientes”.

Presidente do júri em Veneza

Convidado por Alberto Barbera para presidir o júri do Festival de Veneza, Alexander Payne reconhece que a tarefa é, para ele, “intimidante”. Afinal, a seleção oficial reúne nomes de peso como Guillermo del Toro, Park Chan-wook, Jim Jarmusch e Noah Baumbach.

“Vou acabar por fazer inimizades”, diz, com um sorriso, esclarecendo logo de seguida a sua abordagem: “Quando sou presidente de júri, acho que o meu papel não é impor o meu gosto. É mais administrativo e diplomático: garantir que a vontade coletiva do júri se reflita nos prémios. Sou metade crítico, metade mediador.” E avisa: “A pior coisa é quando a reunião final se prolonga por horas.” A solução? “A chave é fazer pequenas reuniões ao longo do tempo, descartar os filmes sobre os quais ninguém quer falar, e chegar ao fim com decisões claras. E depois, almoçar.” [Risos]

Somewhere Out There

Renate Reinsve protagoniza o próximo filme de Alexander Payne

Ainda com um documentário na agenda, em torno do percurso de 60 anos da pioneira académica de cinema Jeanine Basinger, Alexander Payne vai ter como próxima ficção um projeto na Dinamarca, filmado em dinamarquês. Com a norueguesa Renate Reinsve no elenco, Payne explicou como o filme lhe chegou às mãos: “Inicialmente, em 2019, estava prestes a realizar um filme financiado pela Netflix, com o Matt Damon no papel principal. Tudo estava pronto, mas cinco dias antes do início da produção, o projeto desmoronou. Mantive contacto com o argumentista, Erlend Loe, que é norueguês. Durante a pandemia, ele escreveu um argumento para um realizador sueco que vivia na Dinamarca, com base numa ideia deste. Só que o realizador acabou por desistir. Então, o Erland — de forma típica e louca, como só os escandinavos sabem ser — pensou em mim e enviou-me o argumento, presumindo que eu o adaptaria para a Escócia ou a Irlanda. Eu disse: ‘Não, o filme tem uma cena numa sauna. Temos de manter. Vamos fazer um filme dinamarquês.‘”

Adicionando que obteve cidadania europeia — especificamente para poder realizar filmes na Europa com financiamento estatal completo —, o realizador afirma que um dia quer filmar na Grécia, mas esse desejo fica, por agora, à espera que outros projetos cheguem a bom porto, como a sequela de Election, o seu filme de 1999 protagonizado por Reese Witherspoon.

Election 2

Após mais de duas décadas de resistência a uma continuação — por acreditar que “não se entra no mesmo rio duas vezes” —, Payne revelou ter encontrado, em parceria com o coargumentista Jim Taylor, um conceito sólido e autêntico, capaz de justificar o regresso à personagem de Tracy Flick.

O foco não será reviver a trama escolar original, mas explorar quem é Tracy Flick hoje, numa história atual: “Não é tanto voltar ao mundo de Election, mas sim à personagem — quem é ela agora? Será um filme sobre o presente. E vou voltar à minha cidade natal, Omaha, Nebraska. Aos 64 anos, conheço bem aquela cidade, as suas manhas. Tenho acesso a coisas que não tinha antes. Vai ser uma sátira profundamente americana.

Consciente de que o atual clima político nos EUA poderá contaminar esta sequela de alguma forma, Payne deixa, contudo, o aviso: “Não queremos fazer declarações conscientes sobre o momento atual. Quando o filme sai, o mundo já mudou. Por isso interessamo-nos mais pelo lado humano. Election era uma comédia, uma metáfora política. Mas quando te focas nos psicodramas individuais das pessoas, e como elas se desenrolam em espaços públicos, o filme torna-se político.

É o que vemos com o Trump — a sua psicose, seja o que for, está a ser encenada no mundo inteiro. E nós deixamos. É insano. E então temos de perguntar: o que há nos seres humanos? Como é que a nossa genética, a nossa evolução, nos leva a seguir psicopatas? Deve haver algo em nós, desde os tempos primitivos, que acredita que o mais louco nos vai proteger. Por que permitimos ditadores eleitos? Elegeram o Berlusconi, o Milosevic, o Bolsonaro… As pessoas gostam destes tipos. É de loucos.

A produção de Election 2 está prevista para depois de Somewhere Out There.

O Festival de Locarno decorre até 16 de agosto.

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