Entrevista a Naomi Watts – ‘The Ring’ (2002)

(Fotos: Divulgação)

Nascida em Inglaterra, Naomi viu-se forçada a ir viver para a Austrália com apenas 14 anos. “Mesmo na Inglaterra tínhamos por hábito saltar de cidade em cidade. Esta instabilidade devia-se ao facto de a minha mãe não ter uma carreira definida”, recorda Naomi. Os seus pais haviam-se divorciado quando Naomi tinha apenas 4 anos e, como a própria afirma, “o meu pai passava o tempo a viajar, por isso vivíamos com os meus avós e cheguei mesmo a estudar em sete escolas diferentes”. O facto de a sua avó materna ser australiana acabou por influenciar a decisão de irem viver para a Austrália. “Ideia que detestei, na altura. Aos 14 anos estamos ainda à procura de um certo equilíbrio. É evidente que, quando chegámos, houve uma espécie de choque cultural, mas acabámos por nos ajustar ao novo modo de vida. Acabei por me apaixonar por aquele país e sei, hoje, que foi a melhor decisão que a minha mãe tomou.”

A sua carreira como atriz começou com a participação em Flirting, onde contracenava com a amiga de longa data, Nicole Kidman. Embora, naquela época, não soubesse o quão bem-sucedida Kidman viria a ser, Naomi recorda como a sua amiga foi capaz de lidar com a fama e a atenção dos media — algo que Naomi também teria de gerir nos meses seguintes. “Embora não tenha pedido conselhos, pude observar e aprender com a experiência de Kidman.”

Com uma carreira feita de avanços e recuos, Naomi criou grandes expectativas com Tank Girl (1995), Hunt (1999) e o ainda não exibido thriller Down. Mas o sucesso em Hollywood nem sempre é duradouro e muitas foram as vezes em que pensou em desistir. No entanto, foi a sua amiga Nicole que a convenceu a não desistir. A própria Naomi afirma: “Ela tinha sempre uma palavra amiga, mesmo quando tudo parecia acabado, nunca me deixou desistir. Insistia para que não me deixasse abater e seguir em frente. E ela tinha razão.”

Foi com Mulholland Drive, de David Lynch, que Naomi teve a sua grande oportunidade. Com uma mistura de surpresa e confiança, percebeu que este seria o filme que a lançaria em Hollywood. “Por um lado, não me surpreende. Afinal, estamos a falar de um papel fantástico que, por vezes, nem durante toda uma carreira temos a sorte de interpretar, quanto mais num só filme.” Mas, por outro lado, acrescenta: “Nunca pensei que me dessem essa oportunidade. Foi preciso que um único homem, David Lynch, tivesse a coragem de acreditar em mim, para que todos compreendessem que, realmente, eu podia ser bem-sucedida.”

Atualmente, Hollywood está a ser muito generosa. Naomi pode escolher o que bem lhe convém. Watts acaba de rodar The Ring, remake de um conhecido filme de terror japonês, no qual interpreta o papel de uma jornalista que procura desvendar o mistério por detrás da morte de todos os que veem uma determinada cassete de vídeo.

Segundo a atriz: “Senti-me atraída por este guião, porque a protagonista era feminina, a desempenhar um papel normalmente destinado a homens. Ela faz uma viagem incrível, lutando através do caos que a rodeia e acabando por fazer uma espécie de viagem interior.” Essa viagem começa quando conhecemos a personagem, “uma mulher complexa, que aparenta ter uma boa relação com o filho. Ao longo desta viagem, a personagem compreende que precisa de ser uma mãe mais atenta e reflete sobre o que descobre: ‘eu aprendi uma lição e tenho de mudar com ela’.”

Embora o filme The Ring contenha momentos de absoluto terror, Watts teve de se guiar pela imaginação de forma a expressar os níveis de medo experimentados pela sua personagem. “Eu tenho um nível de medo igual a qualquer ser humano. Gosto de interpretar este sentimento. Gosto de pensar que consigo manipular as emoções dos outros. Afinal, o cinema é exatamente isso: deixar que a nossa mente acredite e sinta emoções expressas por outros.”

Embora não se considere fã do género, Watts admite gostar de “bons thrillers psicológicos. Eu gosto de filmes de terror que demoram a assustar-nos; esses sim, são verdadeiramente assustadores. Filmes como Don’t Look Now e The Shining. Considero The Ring um filme desse género.”

Embora interprete uma repórter no filme, Watts diz não encontrar muitos aspetos comuns entre a sua personagem e a sua própria relação com a imprensa sensacionalista. A atriz julga a imprensa americana mais moderada em comparação com a australiana. Assim, com um sorriso, comenta: “Na Austrália a imprensa é mais dura. Penso que somos dos piores, embora a britânica seja também bastante nociva. A maioria das pessoas gosta de saber que espécie de preparação tive para interpretar o papel. Na verdade, saí de um filme no País de Gales diretamente para Seattle para filmar The Ring. Como pode ver, não tive muito tempo para explorar a personagem. Assim, foi necessário utilizar a imaginação, passar de uma atitude de jornalista para uma de mero ser humano que deseja sobreviver e, quem sabe, até mesmo salvar o mundo. Para a minha personagem, não se trata de conseguir uma boa história.”

Da mesma forma, Naomi Watts procura que a sua vida pessoal não seja alvo de especulações. Dando particular atenção à sua privacidade, a atriz recusa-se a comentar o seu envolvimento com o australiano Heath Ledger.

Embora, hoje em dia, Naomi seja confrontada com a fama, diz lidar com este aspeto da vida profissional de uma forma natural: “Continuo a fazer o que sempre fiz, a sair com as mesmas pessoas. É verdade que a nossa vida sofre alterações — afinal, temos um conjunto de compromissos que nos preenche o dia a dia. No entanto, embora toda a atenção seja, por vezes, desagradável, penso ser necessário continuar a ter uma vida normal. Não sou do género de pessoas que têm medo de sair de casa e deixar de viver tudo o que há para viver.”

A atriz alcançou agora a posição pela qual lutava há uma década. Tendo a possibilidade de escolher como gerir a sua carreira, Naomi aceitou desafios que nunca antes sonhara — como a possibilidade de trabalhar com o realizador de Amores Perros, Alejandro González Iñárritu, contracenando, em 21 Grams, com atores como Sean Penn e Benicio Del Toro. Sobre este filme, comenta: “Cresci com o trabalho de Sean Penn e considero-o um ator extraordinário. É para mim uma honra trabalhar com ele.”

Recentemente, Watts terminou as filmagens, em Paris, de Le Divorce, onde contracena com Kate Hudson. Da mesma forma, participou no filme britânico Rain Falls, com Kate Beckinsale, e em Plots With a View, com Brenda Blethyn. Não podemos também esquecer o filme australiano The Kelly Gang, com Heath Ledger e Rachel Griffiths.

Na verdade, a vida parece sorrir para Naomi Watts… e ela sorri em troca.

Paul Fisher/Dark Horizons em L.A/c7nema

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