Keep Quiet: os silêncios do crepúsculo indígena

(Fotos: Divulgação)

Sempre houve espaço para thrillers sombrios, de violência crepuscular, nas curadorias de Giona A. Nazzaro desde que o crítico de Zurique assumiu a direção artística do Festival de Locarno, em 2021 — o que garantiu espaço ao taquicárdico Keep Quiet na reta final da seleção de 2025. A sessão desta quinta-feira decorreu com grande expectativa, e há ainda mais duas projecções agendadas, sexta e sábado, do filme de suspense realizado por Vincent Grashaw.

O realizador norte-americano escolheu Lou Diamond Phillips, astro de La Bamba (1987), para o papel principal. Na trama, o polícia indígena experiente Teddy Sharpe (interpretado por Phillips) precisa capturar um fugitivo particularmente cruel, cujo regresso a uma reserva rural expõe os seus segredos mais sombrios e pode desencadear uma guerra violenta entre gangues. O caso acaba por ser também um convite para o protagonista reencontrar os próprios demónios do passado.

Em atividade desde 2002, quando lançou a curta-metragem Callous Sentiment, Grashaw já tem um longa-metragem em vias de estreia — Bruton, com Theo Rossi, previsto para o final do ano. Agora, chega a vez de Keep Quiet, que o realizador analisa na entrevista que se segue, concedida ao C7nema.

O realizador Vincent Grashaw – Crédito @Randomix

Como é que ainda se consegue extrair surpresa de um género tão comum como o thriller?

Tornar um thriller numa experiência única depende de uma combinação de vários fatores, entre os quais a perceção de que os silêncios podem ser mais interessantes do que aquilo que é dito. Procuro abordar o género através de tramas enraizadas na realidade, com uma violência crua. Filmámos Keep Quiet em apenas 18 dias, e a abordagem utilizada no filme Sicário para as sequências de ação serviu-me de inspiração.

O facto de ser também o montador do filme influencia a busca por um tom que surpreenda?

Nos meus dois primeiros filmes, não fiz a montagem, e nesses senti que gastava muito tempo a explicar o que pretendia. Quando edito, trabalho rapidamente e também faço a edição de som. No caso de Keep Quiet, a banda sonora de James Wakefield teve um papel fundamental na criação da atmosfera de tensão que procurávamos.

De que forma pode Teddy Sharpe, o seu protagonista, ser considerado um herói?

É muito difícil usar um uniforme policial num ambiente em que a farda é vista como um símbolo de ódio por uma comunidade marcada pela formação de gangues. Ele é, sim, um herói, mas do tipo falhado, preso em dilemas morais. Quanto mais heroico ele é, menos vilanesco se torna o antagonista, Richie, porque o meu objetivo é humanizar as personagens.

Essa parece ser a sua marca autoral, desde Coldwater (2013). Aliás, essa humanização dos arquétipos foi notada em Locarno em 2024, quando exibiu Bang Bang. Que conflitos humanos — e sociais — regem o universo indígena de Keep Quiet?

Como realizador, vejo-me como um investigador. Interessa-me descobrir o que as personagens têm dentro de si, e não as vejo como monstros. Seria fácil colocar alguém como Teddy no papel do “bom rapaz”, mas ele tem falhas. Neste filme, há um poder na amizade, que atravessa a formação das gangues nas comunidades indígenas. Elas surgem como um sinal de fraternidade e como um mecanismo de sobrevivência.

Como foi o processo de construção da personagem com Lou Diamond Phillips?

O Lou é uma lenda, com uma longa carreira no cinema, e transmite confiança. Não gosto de trabalhar com atores com temperamento difícil. Nas pesquisas que fiz antes do projeto, percebi que ele era visto como um profissional disponível e aberto ao diálogo. Foi uma bênção trabalhar com ele.

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