Duas décadas depois de projetar “Vinil Verde” na Quinzena de Cineastas, numa sessão que lhe abriu os caminhos da Croisette como realizador, o pernambucano Kleber Mendonça Filho recebeu o sinal de verde de Cannes para voltar ao festival de maior prestígio do mundo, de novo na competição oficial, na disputa pela Palma de Ouro com “O Agente Secreto”. “A sensação é de que estou à espera na fila da montanha-russa, a ouvir o barulhinho do carro a chegar. Em maio, quando a disputa começa, afivelo o cinto de segurança e inicio a corrida”, diz Kleber ao C7nema, via Zoom.
Há seis anos, ele e Juliano Dornelles concorreram à Palma com “Bacurau” e receberam das mãos do documentarista Michael Moore o Prémio do Júri, atribuído ex aequo ainda a “Os Miseráveis”, de Ladj Ly. Antes, em 2016, foi ao evento com “Aquarius”. Na ocasião, atraiu holofotes para o Brasil ao abrir o jogo sobre o golpe de estado que ocorria em solo nacional com o Impeachment de Dilma Rousseff. Ele, a sua equipe e elenco (encabeçado por Sonia Braga) passaram pelo tapete vermelho da Croisette com cartazes em folhas de A4 expondo o avanço da extrema direita.
Agora, a sua longa-metragem mais recente, revive os tempos de ditadura. “O Agente Secreto” passa-se em 1977. O protagonista é o eterno Capitão Nascimento, o baiano Wagner Moura. A estrela de “Narcos” encarna Marcelo, um especialista em tecnologia que foge de um passado misterioso e volta ao Recife em busca de paz. Mas logo ele percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura. Ao lado de Wagner estão Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Hermila Guedes, Thomás Aquino, Alice Carvalho, Edilson Filho e o alemão Udo Kier. O filme é uma coprodução Brasil (CinemaScópio Produções), França (MK Productions), Holanda (Lemming) e Alemanha (One Two Films) e terá distribuição no Brasil da Vitrine Filmes.
Cannes, que abre a sua programação no dia 13 de maio, com uma sessão de “Partir Un Jour”, de Amélie Bonnin, ainda não divulgou as datas em que “O Agente Secreto” terá exibições no Palais des Festivals, para o júri presidido pela atriz francesa Juliette Binoche.

Na entrevista a seguir, Kleber conta ao C7nema as suas memórias do balneário onde encontrou um de seus ídolos, David Lynch (1946-2025), ao vivo.
O seu cinema, desde “Aquarius”, carrega explicitamente uma natureza de máquina do tempo, não apenas na utilização de arquivos, mas pela maneira como lida com o passado. De que forma esse seu procedimento de voltar no tempo se aplica à década de 1970 de “O Agente Secreto”?
O argumento de “O Agente Secreto” destravou para mim quando entrei na porção mais séria do trabalho de montagem de minha longa-metragem anterior, “Retratos Fantasmas”. Naquele filme, pesquisei o Recife dos anos 1950, 60 e 70. Esse trabalhou foi essencial ainda que as duas produções sejam completamente diferentes entre si. O “Retratos” é um ensaio documental. “O Agente Secreto” é uma ficção, um thriller. Existe algo em comum, entretanto, na conexão com o passado… e com o futuro.
Escolheu como protagonista uma estrela de prestígio internacional que passou por uma fase artística anfíbia, ao assumir o posto de realizador ao lado da sua carreira como ator. Ao filmar “Marighella” (2019), Wagner Moura virou cineasta. O que esse artista plural te oferece?
Ele é um artista de delicadeza que se instalou no Recife por quase quatro meses ao longo das filmagens. Ficamos amigos nesse processo. Essa experiência dele como realizador fazia-se ver na compreensão que tinha do filme por dentro. Percebia isso pela forma como ele via a câmera.
A sua aproximação inicial de Cannes aconteceu através do seu trabalho como jornalista, como crítico, no Recife. O que significa olhar para aquele balneário hoje, sob uma nova vivência, agora como cineasta?
Há 20 anos, estive na Quinzena com uma curta, o “Vinil Verde”. Antes, estive lá como parte da imprensa. Tinha acabado de fazer 30 anos. Foi a experiência perfeita naquele momento da vida em que fiz um investimento na cinefilia, em que recebia um salário para ver filmes. Realizei ali um sonho juvenil de ter um trabalho como crítico. Era 1999 quando cheguei lá e fui ver uma sessão das 8h30. O filme: “The Straight Story”, de David Lynch. Na sequência, fui à conferência de imprensa dele… daquele artista que já fazia parte da minha vida fazia muito tempo, na minha condição de cinéfilo, de seu espectador. Ao perceber que estava na mesma sala que David Lynch, consegui formular que o cinema estava dentro de mim. É você e o cinema, é o cinema e você.

