Nesta entrevista ao C7nema, Eryk Rocha revela-se bastante pessimista com o Brasil e o mundo geral – nesse que é um belo e poético conto sobre a precariedade do trabalho no seu país. O filme utiliza de câmara na mão para narrar as desventuras de um motorista (Fabrício Boliveira) na noite do Rio de Janeiro, onde o argumento de Rocha habilmente escapa do esquematismo que pode afetar esse tipo de proposta através de uma narrativa pulsante.
Tropeçando em jovens bêbados, numa enfermeira que acaba se revelando uma bela possibilidade e em outras efemérides enquanto luta para arranjar dinheiro para pagar a pensão e rever o seu filho. O filme enquandra o seu drama no quadro mais vasto de uma cidade cheia de energia num país que se vê, a estas alturas, politicamente tomado por um governo de cunho messiânico-militar que põe em risco os próprios pilares da sua democracia.
Eryk Rocha, filho do icónico Glauber Rocha, já teve exibido em Portugal o seu último filme, “Cinema Novo”, de 2016, obra que correu o circuito de festivais internacionais (venceu o L’Œil d’or no Festival de Cannes, certame onde já tinha recebido uma distinção com a curta-metragem “Quimera”, de 2004) a revisitar um dos momentos mais emblemáticos da cinematografia brasileira. “Breve Miragem de Sol” é o novo trabalho do cineasta no cinema e o segundo de ficção.
A câmara na mão parece continuar a ser um recurso inesgotável em termos dramáticos. A sequência da saída dos torcedores do jogo do Flamengo é impressionante e, mesmo em acontecimentos quotidianos, como o momento inicial com os quatro jovens no táxi, ganham uma intensidade particular. Concorda?
A linguagem da câmara foi algo que conversamos muito com o Miguel Vassy, diretor de fotografia do filme que fez um belíssimo e visceral trabalho de imagem. O desejo era incorporar no filme aquela fisicalidade do personagem, a respiração, a tensão e a pulsação daquele corpo, para fazer o espectador ver e ouvir o mundo com Paulo.
É assim que vivemos esse fluir com suas viagens, choques, desvios, riscos e dificuldades, mas esse corpo exausto que trabalha para sobreviver, que resiste e luta em um país desmoronando como o nosso, esse corpo está vivo, esse corpo ama, deseja, canta, dança, sonha. .. Esse corpo é a força da vida, do afeto e do fogo.
Mais do que referir a algum momento político específico da atualidade brasileira, você antes optou por contar uma história mais universal sobre uma precariedade económica e uma exposição à violência que já acompanham a sociedade brasileira há muito tempo – para além de factos mais existenciais, como a solidão. Era sua ideia focar-se numa história mais intemporal?
“Breve miragem do sol” tem múltiplas camadas, entre elas o filme fala sobre violência sistémica e precarização do trabalho. Nosso protagonista, Paulo, é um trabalhador brasileiro, é a exemplo de grande parte dos brasileiros estão imersos e sufocadas por certos problemas quotidianos e históricos, onde a vida e as relações são mediadas pelo dinheiro, o “deus dinheiro”. Estamos vivenciando a uberização do mundo: hoje, no Brasil, existem mais de 45 milhões de trabalhadores informais, sem nenhuma proteção social. É a captura da energia e da força vital do trabalhador.
A política econômica ultra-neoliberal de Bolsonaro e Guedes é uma tragédia e tem como objetivo desmantelar o Estado, ou melhor, subordinar o Estado ao capital financeiro das famílias mais ricas do país. É importante lembrar que o Brasil é um dos países com maior desigualdade social do mundo. Esta política econômica está destruindo os direitos dos trabalhadores e as conquistas sociais dos últimos 20 anos.
Esse fenómeno de uberização é resultado do desemprego e da necessidade de levar arroz e feijão para casa diariamente. O governo de Bolsonaro não é apenas um governo ruim, é um governo assassino, isso fica ainda mais claro agora com sua atitude em relação a tudo o que vivemos com a pandemia. Então, voltando ao cinema, Paulo vive aquele contexto de crise grave e profunda, paradoxalmente o trabalho que o oprime é ao mesmo tempo a solução provisória para ganhar dinheiro imediato e aliviar suas tensões, resolver seu dia a dia e pagar a pensão de seu filho.
Existem também algumas referências no filme sobre a forma que a tecnologia tem sido usada. Através de uma das notícias que o seu protagonista ouve no rádio você dá conta do fenómeno das “fake news” e em outro momento fala de um ataque “hacker”. Acha que certa utilização esses recursos representam uma ameaça à democracia?
Essas notícias de rádio fazem parte do dia a dia de Paulo como taxista e são uma camada importante do filme, pois trazem o trabalho de fora de campo do som que é muito importante na narrativa. Acredito que em especial essas notícias apontam problemas muito graves que estamos vivemos no Brasil e no mundo.
Bolsonaro e muitos outros usaram essa máquina de guerra da mentira e desinformação para chegarem ao poder, mas isso não foram eles que inventaram, é fruto de um solo preparado há muitos anos por um sistema perverso e naturalizado. São problemas de um sistema colapsado que está levando a humanidade à ruína.

Na altura do lançamento de “Cinema Novo”, você partilhava em algumas entrevistas da perplexidade de muita gente a propósito da destituição de Dilma Rousseff e sobre o que isso representava na interrupção do processo democrático no Brasil. Quatro anos depois, e até com a possibilidade de uma reeleição do atual presidente, como acha que todo essa democracia, muito nova e frágil, pode sobreviver?
Como diz o português Boaventura Sousa Santos, “as democracias morrem democraticamente“. No Brasil, vivemos nos últimos anos um processo de luto e perdas. Existe uma desesperança muito forte em relação ao presente. É importante destacar que o governo Temer teve origem no golpe de 2016 que derrubou a presidente Dilma.
De 2016 para cá, o Brasil sofreu vários golpes e retrocedeu. Hoje o governo Bolsonaro é cada vez mais um governo militar, os ministros civis restantes estão caindo…Na América Latina conhecemos bem essa história, nossa história latino-americana é marcada por golpes e interrupções e o que vai acontecer no Brasil é imprevisível.
Em outubro do ano passado mencionava três novos projetos nos quais estava a trabalhar: “Edna”, um filme sobre Elza Soares e o projeto “Queda do Céu”. Como está a evolução deles? Existe algum com possibilidade de lançamento em breve?
Nesse momento estamos lançando o “Breve Miragem de sol” no Brasil na plataforma Globoplay, e o filme segue correndo festivais pelo mundo. Em paralelo estou na fase da mixagem no caso do “Edna”, que deve começar a circular no início de 2021. Muito em breve começamos a preparar o filme “A Queda do céu” que será um desafio enorme e irei co-dirigir com Gabriela Carneiro da Cunha.

