Um filme de acção, com robots para toda a família? Sim, é possível. Já agora, o que é isso de ‘Simul-Cam B’? Fique então a saber também tudo sobre os inúmeros projectos deste génio criativo que não tem medo das palavras. Nem dos filmes que faz. Daqui a uns anos ouviremos falar de Kodachrome, o tal “road movie com um pai e um filho”. E Frankestein, que já se compara a Rede Social… Pois é, só lendo.
O canadiano de 43 anos parece um geek que bebeu demasiada Dr. Pepper, a famosa bebida energética americana que aparece no filme – e que Levy garantiu nada ter a ver com ‘product placement’. Seja como for, Levy fala, sempre em voz alta, de forma apaixonada por este seu filme que o afastou de uma colagem ao género de comédias como a saga «À Noite no Museu» ou o recente «Date Night/Uma Noite Atribulada». A verdade é que ele é mesmo capaz de ter razão: assume que faz filmes comerciais e neste caso fez um filme para juniores e adolescentes, ainda que o feeling dos filmes desportivos esteja lá. Bem como Hugh Jackman, bem acompanhado pela revelação Dakota Goyo. E até a belíssima Evangeline Lily, sempre que está em cena não vemos mais nada. Mas são mesmo os robots, no melhor ‘motion capture’, as verdadeiras estrelas da fita. Ao pé deste filme, os Transformers são uma brincadeira enfadonha e sem sal. Falámos com Shawn em Londres. Sim, ainda ouviremos falar muito dele. Fixem-lhe o nome.
Depois de provas dadas na comédia, o Shawn aventura-se também na acção com efeitos especiais. Foi assim uma mudança tão radical quanto parece?
Uma coisa eu posso dizer, é que esta experiência já me modificou. Na verdade, queria perceber o que seria capaz de fazer num género tão diverso. Foi muito gratificante fazer um filme em que todo o nosso empenho não está ao serviço do riso e pode ser ao serviço do que está na minha cabeça.
É assim tão diferente?
Acho que poderia passar um semestre a ensinar as diferenças entre comédia e não comédia. Mas acho que serão os críticos e o público a decidir se é assim tão diferente ou não. Basta o filme ser tão diferente de tudo o que já fiz para a experiência ser muito satisfatória.
O que o fascinou mais nesta história?
Acho que foi o lado da redenção que mais me atraiu.
Mais do que os efeitos especiais?
Eu já tinha feito alguns filmes com efeitos especiais. Trabalhei com o Jim Cameron durante alguns meses, e posso dizer que ele adora a tecnologia. Para mim, a tecnologia interessa-me enquanto serve o filme.
Quais foram os desafios tecnológicos nestes filme? O ‘motion capture’?
Sim, o ‘mo-cap’. Foi algo que eu tive de aprender a combinar com a câmara de simulação. Um assunto que desconhecia.
Mas servia o propósito de um filme sobre desporto…
E eu adoro filmes sobre desporto. O Rocky, por exemplo, não só o primeiro, mas a série toda. Essa foi aliás a minha primeira inspiração para escrever o guião.
Chegou a pensar em lançar este filme em 3D?
Sim, chegámos. O Steven Spielberg, que é ao mesmo tempo o meu produtor executivo e o estúdio, falou comigo sobre essa possibilidade, até porque isto passou-se no verão do ano passado, quando estavam todos envolvidos no 3D. É claro que pensámos nisso, mas optámos por não tornar esse efeito em algo redutor.
Pode explicar um pouco como foram concebidas as cenas de combate?
Claro. Seis meses antes de filmarmos, o boxeur Sugar Ray Leonard e os lutadores colocaram os fatos de macaco com os sensores e recriaram as diversas cenas. O que é bom no ‘mocap’ é que eu dirigi a performance do boxeur com o papel do Atom, bem como o Zeus. Ou seja, são gente, não animações. Sete meses depois fomos para Detroit para fazer a ‘Simul-Cam’. De um lado eu tenho o Hugh e o Dakota, de um lado do ringue, mas quando olho para a minha câmara o programa combina as pessoas e os robots de forma simultânea. Eu via exactamente o que se vê agora na minha câmara. Isso é ‘Simul-Cam B’. Na mesma forma podia mostrar ao Hugh e Dakota o que eles estavam a ver. Isso elimina as suposições e as dúvidas. ‘Simul-Cam’ e ‘Mo-cap’ mudou muitas coisas.
Aquela cena do combate final fez-me lembrar o famoso combate com o Ali…
… Foi o ‘rope-a-dope’, no combate Rumble in the Jungle, no Zaire. Com o Foreman. Mas o Rocky também se serve desse combate. Esse ‘rope-a-dope’ é um pilar na estrutura narrativa, porque toda a narrativa se baseia numa gratificação diferida, algo que remonta a Aristóteles. Temos de suster a antecipação e esperar, esperar… E depois ‘bum’! Isso é estrutura narrativa. Por isso, quando o Atom começa a ripostar, isso é a narrativa.
O Hugh teve de se preparar fisicamente?
O Hugh está normalmente em grande forma. Como ele já jogou boxe, até lhe disse para não estar tão em forma, pois daria mais realismo à personagem. Mas depois decidimos não lhe dar uma barriguinha… Poderia haver queixas. (risos)
Há muito ‘product placement’ neste filme, não há? Muita Dr. Pepper… (risos)
Sabe uma coisa, não recebi um dólar da Dr. Pepper. Nada. Mas queria uma bebida energética que pudesse estar nos estados dos combates. E não uma bebida inventada. Isso não funciona. Não vou dizer que não existe ‘product placement’ no filme, mas são as coisas habituais. É o ‘corporate sponsorship’ que se vê as grandes arenas desportivas. Mas não Dr. Pepper.
É verdade que tem muitos projetos, certo?
Bom, de acordo com a Imdb, deverei ter umas dezenas projectos em diferentes fases de andamento… (risos)
Seja como for, deverá fazer algo com Kodachrome…
Pensei que me iria falar de Frankenstein e Fantastic Voyage, pois é o que me costumam perguntar. Mas, sim, Kodachrome é um projecto que eu guardo grandes esperanças. Isto porque será o meu ‘drama’. Continuará a ser comercial e popular. Mas quer saber sobre o projecto?
Sim, sim…
Tudo começou com um artigo que li no New York Times sobre o último laboratório de Kodachrome nos EUA. Onde vinham pessoas de todo lado com um último rolo que nunca tinha sido revelado. Isso fez-nos pensar numa espécie de Meca algures no Texas, e o que seria uma odisseia para esse laboratório, com as histórias escondidas nesse rolo de filme. Foi então que o Jonathan Tropper, que é um grande autor, começou a escrever um guião. Já tem 90 páginas e é um “road movie de pai e filho”. É um filme que espero fazer nos próximos dois ou três anos.
E Frankenstein?
Esse é um que eu poderei fazer no próximo ano. E vou ver actores enquanto estiver aqui na Europa. O que posso dizer é que não se parecerá com nada do que se viu sobre o tema. Continuará a ser um ‘monster movie’, sobre criação e monstruosidades morais. É sobre um Viktor Frankenstein jovem e a sua relação com o amigo e cúmplice Igor. O próprio guionista já reconheceu ver semelhanças à Rede Social/Social Network, do David Fincher. Era um filme sobre amizade e traição diante de uma invenção grandiosa. Aqui Viktor e Igor criam algo entre a vida e a morte. É muito possível que venha a filmar durante a Primavera.
E o que será de Real Steel 2 no meio desses projectos todos?
As boas notícias são que o Hugh vai estar ocupado durante a Primavera, pois vai ser o Jean Valjean, em «Os Miseráveis». Quando um realizador começa a ter muitas ofertas de trabalho passa-se o seguinte: temos de ter diferentes projectos a correr, pois sabemos que só um entre vinte tornar-se-á num filme. Sobretudo se forem filmes caros, como os que eu faço. Por isso, têm de ser feitos na altura certa. Posto isto, espero que façamos uma sequela do «Puro Aço», mas nunca será nesta Primavera.

