Um troféu batizado com o nome de uma das maiores estrelas da História, o prémio Marcello Mastroianni, hoje repousa sobre a estante de Filippo Scotti, a revelação de “The Hand of God” (“A Mão de Deus”, hoje na Netflix), e atesta a sua relevância entre os jovens talentos de Itália, que enviou uma delegação de talentos distintos para o Festival do Rio 2024. O ator nascido em Gravedona, na região da Lombardia, há 24 anos, é parte desse grupo e passa pela maratona carioca a promover o filme mais recente de um artesão com vasta estrada nas salas de cinema: “L’Orto Americano”, de Pupi Avati. O realizador de 85 anos está em atividade desde 1968. O título da sua película no Brasil ficou “O Quintal Americano”.
O filme passa-se em Bolonha, em 1940. Na ocasião, em plena 2ª Guerra Mundial, um jovem apaixona-se perdidamente por uma enfermeira do exército dos Estados Unidos. Um ano depois, as circunstâncias levam o rapaz a viver no Oeste dos EUA ao lado de um quintal sinistro, exatamente onde reside a mãe da sua amada. A idosa vive desesperada sem notícias da filha, desaparecida desde o fim do conflito entre o Eixo e os Aliados. O rapaz embarca, então, numa busca tensa pela moça, explorando espaços de risco da sua pátria natal.
Há mais duas sessões de “L’Orto Americano” no Festival: uma nesta terça-feira, dia 8, no Estação NET Rio 5, e outra na quarta, dia 9, no Estação NET Gávea 5. Na entrevista a seguir, Filippo explica ao C7nema como foi o processo com Avati.

Depois de uma experiência luminosa (e premiada) com Paolo Sorrentino em “A Mão de Deus”, como foi encarar um realizador com a experiência de Pupi Avati?
Acreditas que este projeto chegou a mim uma semana antes de as rodagem começar? Ele ligou-me, disse a data e eu não tive outra opção que não fosse dizer “sim” para um filme com um realizador destes. Não tive tempo de ler nada sobre o período histórico. Só fiquei com o argumento. A vantagem é que Pupi escreve as personagens de um modo muito detalhado, o que facilita a composição de um perfil mais denso, inclusive as questões que o protagonista oculta.
Como se dá a dinâmica de realização dele?
Pupi é um jovem. Atenção: não costumo falar de juventude e velhice no senso comum, pois uma pessoa muito jovem pode ter um espírito envelhecido. O que eu falo de Pupi passa pela maneira exemplar como ele encara a certeza de que o cinema pode ser habitado pelo mistério.
Que dimensão heroica existe na luta de resistência da seu personagem?
Apesar de alguma extravagância, ele sabe escutar o próximo e encontra sempre um meio de ajudar. Tem muita empatia.
Você é um jovem rosto de uma filmografia do Velho Mundo que arrasta consigo uma das mais fortes tradições de todo o cinema mundial, com Fellini, com Antonioni, com Visconti. Esse património audiovisual histórico pesa sobre quem faz filmes na Itália de hoje?
Ele me impõe uma grande responsabilidade, mas somos filhos do nosso tempo. Não há que se alienar, mas também não há que se envergonhar de entender as modas de hoje e ouvi-las. O nosso cinema sempre foi muito diversificado e segue a inventar caminhos. O caminho do Pupi é um deles.

