O realizador foi um dos destacados durante a premiação da 3º edição do FESTin 2012. O seu documentário “Amor?” é o único filme exibido no festival que até o momento tem a possibilidade de vir a ser distribuído comercialmente em Portugal – pela Midas. Lançado no Brasil no ano passado, “Amor?” foi visto no cinema por mais de 20 mil pessoas, um número elevado para um documentário.
Já o novo trabalho do realizador será uma co-produção luso-brasileira – com a participação da Midas como sócia no financiamento do filme. Previsto para o próximo ano, é um projeto ambicioso: um filme de ficção abordando os últimos 20 dias de vida do presidente brasileiro Getúlio Vargas – num dos períodos mais ricos e conturbados da história do Brasil. Vargas, a figura mais marcante da política brasileira do século XX, suicidou-se em 1954. O argumento já está escrito e o papel principal será vivido pelo ator Tony Ramos, que este ano ainda conclui uma telenovela antes de juntar-se ao projeto.
João Jardim co-assina um filme de grande impacto lançado no ano passado – “Lixo Extraordinário”, que concorreu ao Oscar de Melhor Documentário e ganhou prémios em Sundance e Berlim, entre outros festivais. O filme foi filmado no maior aterro sanitário do Brasil, na cidade de São Paulo.
Segundo o realizador, não existe um parentesco muito evidente com seu novo trabalho. “ O que tem de mais forte em termos de ligação nesses filmes foi algo que me apontaram depois e que é quase um trocadilho: ‘fomos fazer um trabalho no lixo e encontramos beleza; no outro fizemos algo sobre a beleza, que é o amor, e encontramos o lixo’. E afinal é disto que trata “Amor?” – “pegar uma coisa que é a razão de viver de muitas pessoas, o sonho do par ideal e ver de que forma ele se transforma em algo muito negativo”, observa.
“O que mais me motivou a fazer o filme foi tentar perceber como a gente confunde com o amor coisas que não têm nada a ver com ele”. Conforme ilustra, “a questão do ciúme, da posse, que em determinado grau constituem uma doença e tendem a progredir para algo ainda mais danoso, nada tem a ver com o amor. Mas num primeiro momento essas coisas são identificadas com o amor”.
Outro aspeto interessante do filme é contrapor a ideia de que a violência doméstica é algo típico das classes desfavorecidas. Em “Amor?”, a maioria das pessoas possuía um bom nível de instrução. “Estatisticamente falando a violência doméstica atinge igualmente todas classes. Só muda a maneira como se manifesta. A violência está em todo o lugar”, enfatiza.
A ideia de utilizar atores no lugar das pessoas reais não existia no início do projeto. Ela veio na fase da pesquisa, com o recolhimento dos depoimentos em áudio. “Eram experiências muito fortes. Se isso acontecesse na frente da câmara, eu teria que inevitavelmente pedir autorização ao outro – por razões éticas e legais. Não poderíamos mencionar aquela pessoa sem que ela tivesse chance de se defender. E no momento que eu fosse procura-las, elas poderiam não querer falar”.
João Jardim diz-se satisfeito com a receção aqui em Lisboa. “Achei muito boa. É um filme que as pessoas em geral nunca aplaudem. É impossível. Não é um filme que procura o aplauso, muito pelo contrário. É um filme duro, está ali para incomodar, para dizer as pessoas para não se deixarem enganar.” Durante a sessão também chamou a atenção o silencio absoluto, denotando um enorme grau de concentração. De acordo com Jardim, isso acontece também porque todo mundo se identifica.

