A propósito de «As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne»: Entrevista a Steven Spielberg

(Fotos: Divulgação)

Chegou finalmente às salas o encantamento do ano! Tem de se ver para acreditar. Vale a pena colocar os óculos e entrar neste mundo de sonho. Enquanto a Europa se maravilha, pode ser que os americanos descubram este herói. E o tornem ainda mais famoso que… Indiana Jones.

Voltamos a ser crianças de novo e a conhecer o espanto, o encantamento. Tinha de ser Steven Spielberg. O herói de quem se diz ser indicado dos 7 aos 77 anos, sofreu um toque de magia e adquiriu vida, volume e até uma nova dimensão. Mas não perdeu pitada do seu lado intrépido, da atitude de paladino em procura da verdade. Um repórter à antiga. Tudo isso e muito mais salta literalmente do ecrã quando assistimos a «As Aventuras de Tintin e o Segredo do Licorne», seguramente o grande evento cinematográfico do ano. Isto porque não existe nenhum filme como este. E nem vale a pena referir Avatar, pois trata-se de um misto de imagem real com captura de movimentos (Motion capture), em que verdadeiros actores vestem fatos de com luzes que depois posteriormente traduzidos para um programa informático que permite criar novas texturas, mas mantendo esse movimento real, detalhado e incrível. Pois este é o primeiro exemplo, pelo menos rasga definitivamente com todas as tentativas anteriores com resultados pouco convincentes. Há que ver para crer.

Uma vez mais, Tintin procura os pergaminhos que poderão conduzir ao tesouro do antepassado do capitão Haddock. Tudo, numa viagem que faz um desvio pelo livro “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, onde o capitão com problemas de álcool e um temperamento feroz, é primeiro apresentado a Tintin. Mas não é só, Spielberg permite-se, e bem, em adornar a história com novos elementos, onde até Bianca Castafiore canta uma ária numa pequena cidade perdida no deserto. E até uma sequencia de perseguição com a marca de Spielberg, que acaba também por ser uma piscadela ao videojogo da Ubisoft que aí vem, e no qual a companhia de Spielberg teve total controlo. E há ainda uma surpresa: um belo hidroavião português, muito apreciado pelo realizador, onde decorre uma das melhores sequências de acção.

Foi então com toda esta carga como bagagem que seguimos Steven Spielberg, o britânico Jamie Bell, na personagem de Tintim, o actor francês Gad Elmaleh, como o sheik Ben Salaad, mas também a produtora Kathleen Kennedy, que acompanha Spielberg desde E.T., o supervisor dos efeitos especiais Joe Letteri, que trocou a Instrial Light and Magic de George Lucas para se juntar à Weta de Peter Jackson, co-produtor com Spielberg, e responsável pelos efeitos especiais de «Avatar», «Planeta dos Macacos: A Origem» e agora a trabalhar com Peter Jackson nos dois filmes «The Hobbit».

Sentámo-nos com a equipa em Bruxelas, com um encontro com a imprensa internacional e local, assistimos à estreia mundial em Bruxelas, presenciámos à inauguração do comboio rápido Thalys, Tintin, no qual viajámos até Paris para a estreia local e presenciar mais um desfile na passadeira vermelha.

Finalmente, a sessão de entrevistas, onde o Sol representou Portugal. Mal entrou na sala do Hotel George V, no centro de Paris, Steven exclamou. “Já é uma cara conhecida… Afinal, acabamos por nos conhecer bem.” Sim, irreal, como num um filme.

Porque demorou 30 anos a fazer o filme?

Ponhamos assim a questão: muitos de vocês descobriram o Tintin quando começaram a andar, mas eu descobri-o nos meus 30 anos. Tornei-me de novo num garoto quando li todos os livros. E num fã instantâneo. Infelizmente, estas personagens nunca chegaram à América. Mas achei que era importante, pelo menos para mim, recuperar o culto. Rejeitei aliás os diversos guiões que recebi nos anos 80, porque não estavam à altura do original. Apesar de Hergé já não estar connosco, continuámos a imaginar se aprovaria os nossos guiões. Entretanto fiquei muito ocupado a fazer outros filmes e o tempo foi passando. Depois tive filhos e isso tirou muito do meu tempo. 

Calculo…

Sim, crianças e filmes tiram-nos imenso tempo. Quanto a este filme eu queria fazê-lo de uma forma muito especial. Nos anos 80 nunca pensei em fazer o filme em animação. Mas à medida que a tecnologia foi avançando no novo milénio percebi que seria a ferramenta ideal para fundir a arte de Hergé e de Tintin em imagens em movimento. 

Chegou a conhecer o Hergé?

Conheci-o, mas apenas através do telefone. 

No entanto, presta-lhe uma bonita homenagem na cena da abertura do filme em que ele desenha o Tintin…

Sim, de alguma forma, queria tê-lo no meu filme. 

O que lhe disse quando conversaram?

Disse-lhe que era um grande fã das suas histórias, ao que ele respondeu que também admirava os meus filmes, e em particular dos Salteadores da Arca Perdida. A conversa decorreu em 1983,  pouco depois do filme ter estreado, em 81. Quando lhe disse que tinha lido críticas que comparavam o meu filme às aventuras de Tintim, Hergé disse que sentira a mesma sensação. Achava até que eu tinha lido os livros dele. Mas não, tinha apenas tinha lido um deles e apenas por terem feito essa comparação. Disse-lhe que estava a telefonar-lhe porque queria adaptar os livros dele. E ele respondeu assim: “acho que você é o único realizador a quem eu confiaria uma adaptação dos meus livros.” Foi mesmo assim, não me estou a gabar… (risos)

Acredito. E não tentaram encontrar-se?

Sim, mas nessa altura não foi possível porque estava a filmar Indiana Jones e o Templo Perdido, em Londres. E filmávamos durante seis dias por semana. Combinámos então que me encontraria com ele daí a três semanas. E deixámos o resto da conversa para essa altura. Duas semanas depois ele morria.

Como responde àquelas acusações de racismo dos anos 30. Acha que isso está ultrapassado?

Se quer que seja franco, nunca percebi que existia essa preocupação. O único livro que tinha terríveis problemas de racismo foi O Ídolo Roubado (ou Tintin no Congo). Será um livro que nem eu nem o Peter Jackson jamais nos aproximaremos e é um livro que o próprio Hergé teve oportunidade de pedir desculpas enquanto vivo. Disse que estava muito embaraçado com isso. Não só era um produto da sua juventude, mas também do mundo e dos tempos em que vivia. E eu aceito isso. E sigo em frente. E concentro-me na adaptação de outros livros dele.

Quando primeiro teve a ideia de abordar o universo de Hergé, e manter-se fiel à visão dele, teve a noção de que teria de esperar por inovações tecnológicas?

Eu tive de esperar por uma inovação tecnológica que não sabia que viria a existir; tive de esperar por uma tecnologia que não sabia o que iria ser. Mas uma coisa eu sabia nessa altura – estávamos nos anos 80 -, é que uma adaptação das aventuras de Tintim em imagem real, com os actores devidamente maquilhados, iria parecer ridícula e desapontaria as legiões de fãs em todo o mundo. Felizmente, foi socorrido nos anos 90 por uma série de guiões que desenvolvi e que achei indignos da arte de Hergé. Por isso, nos anos 80 abandonei a ideia de adaptar Tintim e fiz uma série de outros filmes. Voltei depois a adquirir os direitos no início do século XXI. 

Já a pensar em fazer o filme em animação por ‘motion capture’?

Sim. No entanto, esse era um meio que ainda não estava pronto; ainda superava algumas barreiras na sua afirmação. No entanto, sabia que podia concluir o guião e encontrar uma companhia de animação que estaria disposta a fazer algo que nunca tinha sido feito. Foi aí que descobrimos a Weta, de Peter Jackson e começamos uma parceria para este filme. 

Nessa altura considerou alguma outra alternativa?

Poderíamos ter escolhido a ILM, do meu amigo George Lucas, com quem fiz muitos filmes. Mas tinha um pressentimento que conseguiria fazer um bom trabalho com a Weta. 

Chegou a pensar fazer a mistura de imagem real com digital? 

O que começámos por fazer foi um teste com o Milu para perceber qual seria o resultado. E três meses depois pude ver o resultado. Desci à minha sala de projecção e vi o Milu. Estava fantástico. Entretanto, apareceu também o capitão Haddock no ecrã. Era o Peter Jackson com um fato de Capitão Haddock, com aquela voz cavernosa e, claro, com uma garrafa de uísque na mão.  Acabou por fazer uma espécie de audição, não a sério, claro, mas mesmo assim uma audição. O que deu para ver como a animação de Milu interagia com um ser humano. 

Ficou satisfeito com o resultado?

Com esse teste, percebi duas coisas: em primeiro lugar, ao ver o Milu, um cão digital, a interagir com um ser humano, percebi que não funcionava. Isso foi imediatamente descartado; a outra coisa que percebi era que o Peter Jackson era um fã tremendo do Tintin. De tal maneira que o convidei para ser meu parceiro na produção. Esse foi um teste decisivo porque me deu o Peter Jackson. Mais do que a animação do cão. 

Podemos pensar que com este filme se supera finalmente a diferença que existe entre a animação e a imagem real?

Sim, acho que essa diferença fica superada. Sobretudo porque as personagens parecem ter uma alma, respiram e parecem ter as mesmas emoções que nós. Mesmo sem serem interpretados por pessoas verdadeiras. Não é um auto-elogio, eu dou todo esse crédito à Weta, ao Joe Letteri e a todos os animadores que concretizaram este sonho.

Mas o Joe Leteri tem trabalhado essencialmente em imagem real. Como é que se adaptou a este universo?

É uma extensão do trabalho que temos feito. Primeiro, com uma personagem e perceber como faremos a performance capture e como lhe daremos vida. Fizemos isso com King Kong, e um pouco melhor com Avatar. Finalmente, depois de Avatar percebemos que podíamos fazer um filme inteiro com este tipo de tecnologia.

Acha que Tintin supera Avatar?

Foram os mesmos animadores. As pessoas que fizeram Avatar fizeram também Tintin. Claro, Avatar também superou um fosso, mas era um filme que combinava imagem real com animação. Tintin é só animação. Pode não ser um totalmente revolucionário, mas é uma forma nova de contar uma história. Aliás, devo confessar-lhe uma coisa, já estávamos a fazer Tintin, quando vi Avatar. O Jim (James Cameron) perguntou-me se queria assistir a uma projecção que ia fazer com os seus actores. Foi essa também a primeira vez que o Jim viu o filme completo em 3D. No final, disse-lhe que era o melhor filme que tinha visto, depois de Star Wars, do ponto de vista de inovação tecnológica. Em segundo lugar, apercebi-me que os animadores que tinham feito esse trabalho incrível vinham trabalhar comigo. Senti-me o realizador mais sortudo do mundo.

É verdade que durante a rodagem de Tintin já estava também a filmar War Horse. Houve aqui alguma partilha de tecnologia?

Não, porque não existe qualquer tipo de tecnologia em War Horse. É um filme apenas com actores e cavalos. Não há tecnologia. É um filme old school.

Qual a razão da estreia americana ser deixada para mais tarde?

A ideia é que se trata de um filme novo apenas baseado numa boa história. Isto porque os americanos não conhecem o Tintin. Ficamos à espera que os americanos possam descobrir o Tintin, da mesma forma descobriram Indiana Jones, E.T., Star Wars ou filmes como Avatar, que não têm nada a ver com livros que venderam 220 milhões de cópias. No fundo, o filme posiciona-se da mesma forma que Toy Story e Up. 

O Steven está a reinventar uma nova forma de fazer cinema. Acha que pequenas cinematografias, como a portuguesa, se podem reinventar e criar uma indústria, por muito pequena que seja?

Uma indústria é baseada num produto e na criação desse produto. Neste caso, na criação de filmes de uma forma consistente. Não se pode ter uma indústria sem ter essa consistência. Isso pode significar seis filmes por ano. Por exemplo, a minha companhia faz apenas seis filmes por ano e nós achamos que somos uma mini-indústria. Mas para ter uma indústria com maior expressão, tudo depende da quantidade que se projecta e se serão financiados pelo governo, se financiados por entidades privadas. Tudo isto ajuda se se criarem filmes que tenham sucesso e possam ver vistos no estrangeiro. Se isso foi feito de uma forma consistente, podemos chamar-lhe uma indústria.

Acha que o governo deverá envolver-se?

Não sei se deveria envolver-se, isso será com o governo. Mas há países da Europa que criam subsídios. 

Alguns países… O Steven disse que uma possível sequela dependerá do sucesso deste filme. No seu entender, o que poderá ser considerado um sucesso?

Isso será determinado ao longo do tempo. Se o filme atingir o nível de sucesso que reivindique novos filmes, tanto eu como o Peter (Jackson) estamos prontos e ansiosos por fazer novos filmes do Tintim. É algo que queremos fazer entre os nossos projectos de filmes de imagem real. 

É verdade que o Clint Eastwood o visitou no set? Pode falar um pouco do que se passou nesse dia?

O set de Tintin esteve aberto a muito realizadores. Eu queria apresentar este novo meio aos meus amigos. Por isso que quis pôde visitar-nos. E o Clint é um amigo há muitos anos. Ele veio, mas não ficou muito tempo, porque viu apenas uma sala branca enorme, com pessoas vestidos como se fosses mergulhadores e com fatos de luzes em todo o lado. Apenas ficou um quarto de hora, enquanto que muitos amigos ficaram por duas ou três horas. E disse-me. “isto ultrapassa-me muito…”

Se o filme for um êxito – algo que me parece inevitável – em que livros se irá basear a sequela?

O Peter e eu prometemos um ao outro que não iríamos revelar qual seria o próximo filme do Tintin antes de obter esse sucesso. Mas já escolhemos a próxima história e o guião já está escrito. Isto no caso de haver vontade para que façamos uma nova história.

No início da sua carreira, o Steve era considerado um “wonderkid” (miúdo maravilha). Acha que mantém esse atitude?

Acho que me chamavam “wonderkid” quando eu era um “wonderkid”, mas tenho agora sete filhos e acho que perdi o meu estatuto de “wonderkid” logo que tive o primeiro. A partir dessa altura era apenas o pai… 

(risos) Só para terminar, de onde veio aquele “avião português”, mencionado no filme, durante a perseguição a Tintin e Haddock?

É um modelo de um avião que eu gosto muito. É um avião português da altura. Um magnífico hidroavião. Tenho aliás uma reprodução no meu escritório.

Artigo originalmente publicado no Jornal Sol 

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