Fiel à sua vocação de revisitar obras completas de realizadores com estatuto autoral, o BAFICI criou uma secção paralela para mergulhar na filmografia — pautada pela estranheza — do húngaro György Pálfi, com cinco longas-metragens da sua autoria. O incontornável Taxidermia: Histórias Grotescas (2006), sensação de Festival de Cannes, estará em destaque, assim como o recente Hen (2025), cuja protagonista é uma galinha em busca de paz. A sua companheira, a argumentista e professora Zsófia Ruttkay, acompanha-o em Buenos Aires e apresenta ainda os restantes títulos — Hukkle (2002), Final Cut: Ladies & Gentlemen (2012) e His Master’s Voice (2018) — nos ecrãs portenhos. Ambos conversaram com o C7nema sob o impacto das recentes eleições no seu país. Após 16 anos no poder, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, reconheceu a derrota para Péter Magyar nas eleições de 12 de abril. As consequências dessa mudança de poder são o foco desta entrevista.
Como veem a situação atual da Hungria? O que há de melhor e de pior hoje?
György Pálfi: “O melhor é que conseguimos mudar o governo depois de 16 anos — algo que ninguém acreditava ser possível. Ainda estamos meio desconfiados, a tentar perceber onde pode estar a armadilha. Mas há uma sensação de euforia, de que podemos voltar a viver com mais liberdade. O pior foi justamente essa relação com o nosso próprio país, quando éramos tratados como inimigos e não recebíamos qualquer apoio. Isso é devastador.”
Zsófia Ruttkay: “Ao mesmo tempo, é difícil sair de um estado de resistência. Foram 16 anos a viver assim. Agora precisamos de reaprender a viver noutro sistema.”
E como está o cinema húngaro atualmente?
Zsófia Ruttkay: “Muito dinheiro foi investido em filmes de propaganda, com pouca qualidade. Enquanto isso, muitos projetos importantes nunca saíram do papel.”
György Pálfi: “O nosso cinema está muito fraco. Foi praticamente destruído por decisões políticas. Alguns realizadores independentes ainda conseguem filmar, mas sem os recursos necessários para concretizar o que realmente desejam. Temos muitos talentos, mas agora precisamos de lidar com os danos causados. Muitos colegas não resistiram ao sistema, outros perderam a capacidade de criar. Uma geração inteira cresceu sem esperança de fazer cinema. Ainda assim, agora temos uma nova oportunidade. Eu quis ser realizador depois de ver Star Wars (1977), ainda criança. Os filmes húngaros só chegaram até mim muito depois. Gosto muito de Szerelem (1971), de Károly Makk, e de The Red and the White (1967), de Miklós Jancsó, um dos melhores filmes de guerra que já vi.”
Como é ver a vossa obra reunida numa retrospetiva tão longe de casa?
Zsófia Ruttkay: “É importante lembrar que Hen é o nosso primeiro filme distribuído na Argentina. Durante anos, os nossos filmes circularam mais em festivais, para um público específico. Esta retrospetiva não foi construída por estratégia de marketing, mas pelos próprios filmes. Isso deixa-nos muito orgulhosos.”
György Pálfi: “É ótimo reencontrar estes filmes aqui. É bom perceber que as pessoas gostam do nosso trabalho. No nosso país, nos últimos 15 anos, fomos praticamente ignorados pelo governo e por parte da sociedade. Esse contraste é difícil: ao mesmo tempo que somos reconhecidos aqui, tivemos de lutar muito para sobreviver artisticamente em casa.”
O corpo é um elemento muito forte nos vossos filmes. Qual é o significado disso?
Zsófia Ruttkay: “O maior desafio em escrever sobre o corpo é evitar tabus. Para fazer bons filmes, é preciso ultrapassar limites, esquecer barreiras. O interdito está ligado à nossa relação com o corpo. Se tivermos uma boa relação com ele, não existe tabu.”
György Pálfi: “Não penso em simbolismo. Para mim, o corpo é talvez o único facto realmente importante que temos. E muitas vezes não reconhecemos isso. Ficamos a falar, a filosofar, mas o corpo é mais inteligente do que nós. Tudo o que pensamos vem dele. O corpo é a base, o nosso chão.”
Como foi trabalhar com a personagem animal de Hen?
György Pálfi: “Ela é uma estrela de Hollywood, por isso tive de trabalhar com ela como trabalharia com a Mandy Moore ou a Scarlett Johansson. Tive de ir além da superfície e pensar nas semelhanças que temos com esse ser vivo. Às vezes parece que estamos a dizer o que ela pensa, mas na verdade não sabemos o que uma galinha pensa. Ainda assim, há elementos da vida dela muito parecidos com os nossos. Se falarmos da personagem — e não do animal — ela é alguém excluído da sociedade, que luta pela liberdade e pela sobrevivência.”
Zsófia Ruttkay: “Se virmos o filme até ao fim, ela pode representar algo mais do que um ser vivo. Pode simbolizar, por exemplo, o desejo de criar. Talvez os ovos não sejam apenas ovos, mas uma forma de criação — como a arte ou o pensamento.”
O filme parece muito físico, mas também espiritual. Como se articula essa dimensão?
György Pálfi: “No início do filme usamos um pequeno haicai, que muitas vezes o público esquece. Fala de uma gota de orvalho — algo simples, mas que pode significar tudo. Essa ideia espiritual é essencial no meu cinema, porque trata da ligação entre seres humanos, animais, natureza e até objetos. É algo que não consigo explicar totalmente.”
Zsófia Ruttkay: “Esse haicai funciona como uma pista: mesmo na menor coisa, como uma galinha, pode reconhecer-se o mundo inteiro.”
Quais são os próximos projetos?
Zsófia Ruttkay: “Decidimos trabalhar numa trilogia de animais. O próximo filme deverá chamar-se The Monkey e queremos filmá-lo na Índia. O argumento já está pronto.”
György Pálfi: “O terceiro filme ainda é segredo, mas pode envolver outro país — quem sabe até o Brasil. Temos vários argumentos prontos, mas falta financiamento. Muitos produtores receiam investir porque nunca sabem exatamente que filme vão receber.”

