Ao ser laureado com o Urso de Prata, no anúncio do Grande Prémio do Júri da Berlinale 2024, por “A Traveler’s Needs” (em exibição no Festival do Rio sob o título “As Aventuras De Uma Francesa“), Hong Sang-soo voltou-se para o júri e perguntou: “O que viram no meu filme?“. Foi um gesto jocoso de quem crê na simplicidade como veio de expressão estética. Aos 63 anos, um dos realizadores mais prolíficos da atualidade coleciona prémios e fãs por onde passa. Há uma forte procura pela sua longa-metragem nas bilheteiras do evento brasileiro, onde a presença da atriz Isabelle Huppert, à frente do elenco, é um chamariz. Há sessões esta quarta-feira, no Cine Santa Teresa, e na quinta, no Kinoplex São Luiz.
Com uma média de duas longas por ano, Sang Soo acumula as funções de realizador, argumentista, montador e compositor. Conta com o apoio da companheira, a atriz e produtora Kim Min-hee, para levantar os seus projetos. Badalado na Europa sobretudo após o êxito (entre a crítica) de “Hahaha” (Prémio Un Certain Regard de 2010, ele é celebrado por uma dramaturgia personalíssima, que já rendeu nomeação a 190distinções, das quais 60 conquistou.
Em “A Traveler’s Needs“, a flautista Iris (papel de Huppert) dá aula de Francês para ganhar a vida na Coreia do Sul e, sempre que pode, entorna litros e litros de Makgeolli (um vinho de arroz) enquanto coleciona encontros, desencontros e aprendizes. Ao exibir a longa-metragem na Berlinale, ele deu respostas ao C7nema. Antes, conversou detidamente connosco após a projeção de “Walk Up“, em San Sebastián.

Existe uma brincadeira entre os críticos de que um filme novo pode estar a ser feito no momento em que se senta connosco, num festival como a Berlinale, para comentar o seu filme mais recente. Como se viabiliza isso?
Faço o que faço, como faço, por escrever, fotografar e rodar tudo eu mesmo, confiando papéis e funções técnicas a amigas e amigos, além de contar com a minha mulher para produzir. Filmo situações do dia a dia que são simples. Não preciso de efeitos especiais. Eu mesmo opero a câmara. Só preciso de alguém para captar o som. Com isso, o orçamento é pequeno. A montagem fica por minha conta também.
E tem tantas histórias para filmar? De onde saem os seus enredos?
É só olhar para a vida e o que ela te mostra. É só entender que nem tudo o que aparece em cena precisa de uma explicação ou de uma conexão direta com a narrativa. Eu posso ser capturado pela imagem de um gato a correr, registá-la e supor que faz sentido estético tê-la na edição de uma história que é absolutamente alheia àquele animal. Ele está ali só por fazer parte do mundo, por me ter oferecido um momento que, filmado, gera um sentido artístico.
“A Traveler’s Needs” rompe com a linha recente de filmes em P&B que vinha fazendo. O que a cor simboliza aqui?
A alternância do preto e branco com imagens coloridas na minha filmografia não vem de uma tese racional. Nada do que faço vem. É mais uma reminiscência, o resquício de algo que me pede uma reação fílmica em P&B. Cresci a ver clássicos do cinema. Eles eram sempre em preto e branco. Filmar assim evoca esse passado da minha relação com o cinema, por uma questão de afeto e não por um gesto snob, para incorrer no dito “filme de arte”. É uma escolha emotiva, que deve ser bem cuidada para não se estilizar.
Qual é o papel cinemático da palavra falada no grande ecrã?
Conversar é uma prática que encaixa as pessoas socialmente, gera conexões, abre sentidos, convida a descobertas. Filmar a palavra é filmar a sociabilidade. É deixar que as pessoas se revelem sem performances, apenas deixando as palavras soltas. Escrever essas conversas exige de mim apenas uma adequação do que é dito ao perfil e à essência de quem o diz. É uma questão de construção de personagens. As personagens são a partir do que dizem. Dizer é ação. Sou apaixonado pela literatura. Li Faulkner, Hemingway, os grandes todos. Ali, aprendi a força da palavra.

