Indiscutível na sua capacidade de dialogar com a tradição da “comédia de erros” à la Fargo (1996) ou No Country for Old Men (2007), Os Enforcados valeu aplausos no Festival de Toronto (TIFF), antes de estrear na sua pátria, o Brasil, na competição pelo prémio Redentor do Festival do Rio 2024. Foi no mesmo evento, em 2013, que o realizador, Fernando Coimbra, conquistou a distinção de Melhor Filme com O Lobo Atrás da Porta (em vitória ex aequo com De Menor). O filme chega agora às salas de cinema em Portugal no primeiro dia de 2026.
O seu regresso ao Cinema, depois do drama bélico Sand Castle (2017), acontece através de uma conversa com Shakespeare, sobretudo Macbeth, sob a forma de uma radiografia — com rosto de filme dos irmãos Coen, humor nervoso e violência explosiva — do império do Jogo do Bicho. No Rio de Janeiro, esta forma de contravenção (um jogo de apostas em que números são associados a nomes de animais) anda de braço dado com as escolas de samba do Carnaval. Não por acaso, o título internacional é Carnival Is Over.
Na narrativa, uma empresária do Bicho, Valério (Irandhir Santos), encontra-se envolvida em dívidas e traições herdadas da família quando decide livrar-se da chefe, a sua tia (Stepan Nercessian), por conselho da mulher, Regina (Leandra Leal, numa actuação espantosa). Depois de o plano ser executado, ambas são sugadas para uma espiral de brutalidade aparentemente sem fim. Filmado em várias localizações do Rio de Janeiro, em coprodução com Portugal, o filme estreia no primeiro trimestre.
Na entrevista que se segue, Coimbra explica ao C7nema as bases teatrais da sua dramaturgia.

Que Brasil está representado em Os Enforcados?
É um Brasil muito específico, de uma realidade que se foi tornando mais brutal depois do golpe de 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, e do bolsonarismo. Sobretudo após o governo Bolsonaro, a imagem da “cidadã de bem” ganhou outro contorno, ainda mais grave, com resquícios de um pensamento de elite herdado do período colonial que, mesmo corrupto, apela a um discurso anticorrupção. O contexto do filme é o do Jogo do Bicho, uma prática que, apesar de ilegal, sempre foi tratada como “aceitável”, envolta numa aura folclórica que esconde o facto de o seu funcionamento ser idêntico ao de uma máfia, tão violenta quanto ela. O que procuro em Os Enforcados é expor esse lugar da contravenção, do imposto sonegado, do dinheiro desviado, do Caixa Dois. É o espaço do “crime social”, da criminosa socialmente aceite.
Qual é a intersecção consciente entre Os Enforcados e O Lobo Atrás da Porta no olhar sobre a violência que irrompe dos espaços sociais?
O Lobo era um filme com discurso social, que falava antropologicamente de um lugar, mas sem estar directamente ligado à questão da classe social. Em Os Enforcados, não: o contraste social é evidente. Basta ver onde filmámos. Era uma mansão em São Conrado, um bairro de elevado poder aquisitivo da Zona Sul do Rio de Janeiro, cuja janela dava para um morro, de onde se via uma comunidade.
Durante o TIFF, várias críticas destacaram o lado de thriller de Os Enforcados. Essa dinâmica de género foi consciente?
O nosso enredo parte de Macbeth e transporta consigo uma violência que traduz o processo elitista de uma cidade como o Rio de Janeiro. À medida que a política brasileira se foi tornando mais violenta e mais higienista, o filme também se foi tornando mais “coreano”, aproximando-se do que se vê em Parasitas e OldBoy. Ainda assim, tentei ir além do thriller na construção do argumento, mostrando que cada passo das personagens é, na verdade, um tropeço.
O Lobo Atrás da Porta tinha uma referência explícita a Medeia e agora Os Enforcados bebe de Shakespeare. Onde entra o teatro na sua filmografia?
É uma referência consciente, até porque venho do teatro, embora em O Lobo Atrás da Porta tenha recorrido menos ao mito. A dramaturgia teatral é a matriz dos arquétipos e, quando pensamos em Macbeth, Édipo Rei ou Hamlet, falamos de textos que abrangem uma vasta gama de temas nas suas narrativas. No caso de Shakespeare, há ainda o facto de ter retirado muitas das suas histórias de outras fontes, reescrevendo-as a partir de lendas ou factos históricos. Foi, de certa forma, isso que fiz nos meus filmes.

