Depois de exercitar a musculatura do lirismo em “Hold Your Breath Like a Lover” (2014) e “The Night I Swan” (2017), Kohei Igarasi segue as ondas da serenidade ao desbravar as veredas do luto em “Super Happy Forever“, lançado em Veneza e incluído em San Sebastián na mostra Zabaltegi-Tabakalera. A finitude, tema recorrente em Donostia em 2024, é abordado pelo cineasta japonês sob uma ótica romântica. Prestes a estrear no Japão, o filme acompanha o retorno do sofrido Sano à região de Izu, num resort onde um dia vive felizes momentos com a sua finada companheira, Nagi. Um dos motivos do seu regresso ao local é o desejo de reaver um chapéu vermelho que a mulher perdeu por lá.
Na entrevista a seguir, Igarashi fala ao C7nema sobre a forma como o povo nipónico trata o fim da vida.
Há filmes sobre morte, sobre a finitude, em várias alas deste festival. De que maneira o tema do luto inspirou a escrita de “Super Happy Forever”?
Nem sempre alguma coisa que se perde vai desaparecer. Não creio em apagamentos, mas em mudanças do ponto de vista: o que estava aqui fisicamente hoje, e morre, daqui a muitos anos vai permanecer de outra forma. Este filme fala sobre o que fica de uma vivência depois que alguém parte.

Essa sua perspetiva traz alguma observação sobre o luto na cultura japonesa?
No Japão, o conceito de “história triste” é muito fluido, uma vez que lidamos com a morte como se ela fosse uma condição presente no nosso dia a dia. Daí, falar dela de forma leve e serena.
É uma tentação usar o termo história de amor para definir o seu filme. De que maneira consciente o argumento tratou o romantismo?
Hoje em dia, as tramas românticas não são mais tão comuns quanto já foram. Como gosto muito de filmes antigos, quis trazer um espírito amoroso de época para “Super Happy Forever“, de forma branda. É um bem-querer que abordo ao mostrar duas pessoas a comerem juntas ou envolvidas na procura por um chapéu perdido.
Como foi a escolha da paleta de cores para traduzir esse amor em imagens?
Apostamos no contraste: de um lado, o azul do mar e, do outro, o vermelho do chapéu.
De que maneira o resort em Izu pode ser definido como uma personagem?
Hotéis luxuosos como aquele foram muito comuns no Japão após a reconstrução económica do país no pós-guerra. Eles não são mais usados como eram no passado e, por isso, para o filme, funcionam como um vestígio do que nós já vivemos.
Quais são os próximos passos do filme após a estreia comercial no Japão, esta sexta-feira?
Temos um circuito de festivais à vista, com Busan, Chicago e Vancouver no caminho.

