Realizadora de Soldados, Uma História de Ferentari (2017), um retrato íntimo e cru da periferia de Bucareste, e Ivana the Terrible (2019), uma autoficção marcada pela ironia e caos, Ivana Mladenovic apresentou em Locarno, na competição internacional, uma nova longa-metragem: Sorella di Clausura.
Baseado no manuscrito autobiográfico de Liliana Peric, o filme – um dos mais interessantes na corrida ao Leopardo de Ouro – conta a obsessão de Stela por um cantor sérvio e a sua improvável libertação pelas mãos de Vera, uma mulher misteriosa que a arrasta para um mundo de ilusões em plena Bucareste de 2008.
Com Katia Pascariu num desempenho intenso e crú, o filme mistura drama, humor negro e crítica social, refletindo tanto o colapso de um sonho individual como o da própria Roménia na crise pós-adesão à UE.
Nesta entrevista, Mladenovic fala da fidelidade ao texto original, dos desafios éticos de adaptar uma história real e da estética balkan grunge que moldou o filme — um projeto que levou seis anos a concretizar, mas que nunca deixou de ser profundamente pessoal.

Em Portugal temos casos famosos de artistas assediados e perseguidos ao longo de vários anos. Como chegou a esse tema para o filme e o que estudou desse fenómeno? Baseou-se apenas no livro que foi adaptado a filme?
Tudo o que está no filme é inteiramente baseado no livro. Todos os capítulos, toda a estrutura — tudo vem diretamente do manuscrito escrito pela Liliana Peric, uma mulher que era obcecada por um cantor. É a história dela, escrita por ela própria, com uma ironia muito particular, como se conseguisse ver-se de fora.
Não diria que fiz uma investigação aprofundada sobre o tema, pois foi ela mesma quem colocou tudo ali. Está tudo muito bem documentado no texto dela.
Quanto à psicologia por trás desse fenómenos… não estudei especificamente a psicologia da obsessão, porque acho que a obsessão é a obsessão. É fácil, para algumas pessoas, tornarem-se obcecadas por qualquer coisa. E não era tanto um estudo sobre o fenómeno do fandom, que vemos todos os dias, mas sim um foco na própria obsessão em si.
O período em que a história se desenrola, 2008, parece ser importante para o que quer contar.
A história real aconteceu nesse período e quando sabes que algo aconteceu, tentas perceber o que é que estava a ocorrer ao teu redor simultaneamente. Foi um curto período de prosperidade na Roménia — acabávamos de entrar na União Europeia, e havia uma sensação de que os sonhos podiam tornar-se realidade.
Havia muitos empregos estranhos, empresas a serem financiadas de formas inesperadas. No filme, por exemplo, aparece a empresa da Vera Pop. Mas esse foi um período muito curto. Depois veio a crise económica de 2008, e tudo desapareceu.
A personagem está mergulhada nessa ilusão — alguém que sempre viveu com dificuldades, mas que talvez tenha tido sempre uma pequena esperança. Primeiro, sonha com um romance, acha que é possível. Depois, regressa à realidade. E em 2008, a crise destrói essa ilusão de forma imediata.
Ao escrever o guião falávamos muito disso, porque achamos que é um filme também bastante relevante hoje em dia. Agora vivemos numa crise permanente e constante. O dinheiro desaparece, surge, desaparece outra vez. Queríamos fazer uma farsa do Leste Europeu sobre o dinheiro que aparece e desaparece. Para nós, é muito parecido com a realidade atual.
A história dela tem um paralelismo com a história da Roménia nesse período, com essa ilusão?
Sim, exatamente. É o cerne da história.
Como escolheu a Katia Pescariu para o filme?
A Juliana Kravets, a verdadeira Stella, é alguém muito próxima. É difícil encontrar alguém que se pareça com ela, porque, mesmo no livro, ela tem uma ironia muito acentuada, muito humor, e ao mesmo tempo está sempre a reclamar, mas é plenamente consciente de como é. É uma contradição.
Falei com muitas pessoas, muitas atrizes, mas nada assentava. A Katia… não sei, senti que era a que mais queria fazer o papel. Não estava preocupada com a imagem que ia passar, entregou-se completamente.
Durante as audições com atrizes não profissionais, foi mais fácil com a Katia presente, porque ela conseguia ajudá-las, interagir com atores não profissionais e, ao mesmo tempo, ser ela própria — porque também é uma não profissional, na essência. Foi isso que me fez decidir: tinha de ser a Katia.
Qual foi o maior desafio que enfrentou? Sentiu pressão pelo facto de estar a adaptar um livro e a história da vida de alguém?
Sim, houve pressão. O filme demorou muito tempo. Foi adiado várias vezes. Muitas pessoas não aguentam tanto tempo com um projeto — cinco, seis anos. E, ao longo desse tempo, eu própria fui mudando. O guião foi mudando também.
E, à medida que mudava o guião, a pressão de não falhar nas personagens — as pessoas reais, os meus amigos — ia aumentando. Estava sempre a tentar perceber como não os desiludir.
Os comentários que iam fazendo à medida que enviava o texto ajudavam, tornavam tudo mais leve. Mas esta história é muito pessoal. Está profundamente ligada a uma amiga minha que faleceu e que deu-me este livro, talvez com a esperança de que um dia eu o adaptasse.
Como criou uma certa distância, se a personagem era baseada em alguém que conhecia?
Não se consegue. Tenho uma relação muito próxima com a família dela e sempre tive o cuidado de perguntar à irmã dela, que está no filme, : “O que achas disto?” Discutimos muito sobre o que cada uma gostaria ou não gostaria de ver.
Foi difícil. As pessoas costumam dizer que devemos criar distância, fazer algo completamente diferente. Mas acho que, independentemente do que se faça, temos de tentar ser honestos connosco próprios e manter o máximo de ética possível.
Com os filmes que já tem no currículo, qual a principal razão para ter avançado para a sua concretização?
É muito difícil manter-se com um projeto durante tanto tempo. Os nossos filmes demoram anos a ser financiados. E, para aguentar isso, tem mesmo de ser algo profundamente pessoal. É isso.

Livro, filme. Como pensou em termos de estética esta adaptação?
Tive tanto tempo que imaginei este filme de todas as formas possíveis. Lembro-me de falar muito com o diretor de fotografia, o Marius Panduru, mas a escolha dos atores ditou muito o estilo da realização.
Ter a Katia comigo foi decisivo para a forma como o filme foi feito. E tive uma ajuda enorme do Mariusz. Quando tens dois colaboradores principais — neste caso, a atriz principal e o diretor de fotografia — é como se fossem os meus olhos.
Falámos muito, tivemos algumas referências — não quero entrar em detalhes, mas eram vídeos dos anos 80 e 90. Queríamos um visual grungy, balkan grunge, algo assim. Os anos 90 foram a nossa referência.
A primeira semana de filmagens foi muito difícil. Estávamos a tentar perceber o que o filme era, e quando não rodas há tantos anos, sentes que tudo pode escapar-te das mãos. Mas lembro-me exatamente que, ao fim de cinco dias, começámos a brincar mais, a ir ainda mais longe do que tínhamos planeado.Ser completamente livres. E acho que isso é visível no filme. Foi isso que tentámos — não ter medo de nada.
Tem um novo projeto?
Sim, tenho. Quero fazer um documentário que é, na verdade, uma reconstituição completamente alucinada de um dos meus filmes anteriores — o meu primeiro filme de ficção, Soldados, Uma História de Ferentari. E com os meus colaboradores mais próximos. O filme baseia-se num livro autobiográfico de Adrian Schiop, que também atua no filme. Fala de um antropólogo que se muda para a periferia de Bucareste, numa área com população de etnia cigana, para escrever uma tese de doutoramento sobre manele, a música popular da comunidade cigana. Vou voltar um pouco a esse universo.
Em que fase está esse projeto?
Estamos a começar agora.

