Festival de Toronto 2026: Em “Children Untold”, Miwa Nishikawa olha para os órfãos esquecidos do Japão do pós-guerra

Com uma carreira de mais de duas décadas, Miwa Nishikawa estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto um drama sobre os órfãos do Japão do pós-guerra, questionando a responsabilidade dos adultos perante esses jovens.

Na última edição do Festival de Karlovy Vary, em julho, um dos filmes que marcou a retrospetiva Out of the Past – KVIFF 60/80 foi Children of Hiroshima. Baseado no livro Children of the Atomic Bomb, organizado por Arata Osada em 1951, e adaptado ao cinema por Kaneto Shindō em 1952, Children of Hiroshima nascia dos testemunhos de rapazes e raparigas de Hiroshima que tinham sobrevivido à bomba atómica. Shindō, natural da cidade, pegou nessa matéria em bruto para enfrentar diretamente as consequências do bombardeamento e da guerra, não se detendo apenas nas marcas deixadas no território, mas sobretudo nas feridas físicas e mentais de uma identidade japonesa pulverizada numa questão de segundos, a 6 de agosto de 1945.

Miwa Nishikawa

Setenta e quatro anos depois, e também ela oriunda de Hiroshima, a cineasta japonesa Miwa Nishikawa volta a pegar no tema das crianças órfãs do pós-guerra, cinco anos depois de ter assinado Under the Open Sky (2021).

Foi, aliás, durante a preparação desse filme, onde acompanhamos um ex-yakuza que cresceu num orfanato, que nasceu o desejo de Nishikawa de se debruçar sobre os órfãos que ocuparam as ruas do Japão devastado pela Segunda Guerra Mundial. Naquela altura, a invasão da Ucrânia ainda não tinha acontecido e a japonesa diz que nunca imaginou que uma nova guerra destas dimensões viesse a acontecer.

“Durante a preparação do filme, na pandemia, enquanto escrevia o argumento e durante as próprias filmagens, começaram a surgir cada vez mais guerras em diferentes lugares do mundo”, explicou a realizadora ao C7nema numa entrevista por Zoom a partir do Festival de Toronto, onde o filme teve a sua estreia mundial e se tornou o primeiro filme nipónico a abrir a secção Platform.“Também comecei a observar situações em que pessoas que se opunham à guerra eram condenadas ou atacadas por isso. Enquanto fazia o filme, comecei a sentir que as circunstâncias do mundo se aproximavam cada vez mais da realidade que eu estava a tentar representar.”

Essa inquietação sente-se num filme que recusa sempre uma narrativa confortável sobre o Japão, assente no modelo binário de heróis e vítimas que, segundo ela, tem marcado a maioria dos filmes sobre o conflito. Para ela, Children Untold não é assim uma história de vítimas ou heróis, defendendo que o cinema japonês deve interrogar não apenas o sofrimento da população, mas também a forma como pessoas comuns foram enganadas, participaram e fizeram mal aos outros.

A ação do filme decorre em 1945 e Kotoko (Ami Koyae), uma rapariga de 12 anos com talento para o piano, perde a família e acaba entregue a si própria no pós-guerra. Depois de perceber o destino reservado a muitas mulheres sem meios de subsistência, ela corta o cabelo e passa a apresentar-se como rapaz, juntando-se a um grupo de órfãos que sobrevive à margem da sociedade, vendendo jornais, roubando provisões e negociando no mercado negro. Paralelamente à história desta menina, acompanhamos igualmente Sone (Fumi Nikaido), uma antiga professora que atravessa a sua própria espiral de pobreza e exploração, mas que nunca desiste de procurar a jovem Kotoko.

Conforme Nishikawa explica, ela não estava apenas interessada em transformar estas crianças em símbolos passivos da tragédia, mas, acima de tudo, em perceber o preço da sobrevivência no que diz respeito à identidade, à moralidade e à relação com os outros quando sobreviver se torna a prioridade.

Por isso mesmo, a escolha de uma protagonista feminina foi complexa e Nishikawa conta que encontrou, durante a investigação para o projeto, vários testemunhos de raparigas que cortavam o cabelo e se faziam passar por rapazes: “Se ela continuasse a viver como rapariga, provavelmente teria sido destruída tanto mental como fisicamente”, conta Nishikawa, acrescentando que passar-se por rapaz foi uma forma de sobrevivência.

Preparar a jovem Ami Koyae, então com apenas 11 anos, para essa interpretação foi particularmente delicado. A produção recorreu a uma orientadora para lhe explicar gradualmente a violência e a exploração sexual enfrentadas pelas mulheres naquele período, enquanto Nishikawa procurava, com enorme sensibilidade, fazê-la compreender por que razão algumas mulheres foram obrigadas a vender o corpo para sobreviver. “Não era apenas para proteger o corpo, mas também a mente, e tentar evitar ser manipulada ou explorada pelos adultos e por outras pessoas. Foi um processo muito difícil, mas avançámos pouco a pouco, passo a passo, para que a jovem pudesse compreender tudo aquilo.”

Children Untold

A questão mais perturbante de Children Untold talvez seja, porém, qual o papel dos adultos perante semelhante vaga de órfãos deixados pela guerra. Nishikawa estima que existissem cerca de 120 mil órfãos de guerra e considera que a resposta do Estado e da sociedade japonesa demonstrou uma negligência coletiva. Sobre o tema, e depois de anos de investigação e da concretização do filme, chegou a uma conclusão particularmente dura. “Os órfãos de guerra eram, de certa maneira, inconvenientes para os adultos daquela época”, diz-nos, acrescentando que “ao não olharem verdadeiramente para esses miúdos, os adultos iam conseguindo fugir da realidade.”

Já quando questionada sobre as maiores dificuldades de fazer este filme, a japonesa explica que realizar um drama histórico desta dimensão constituía “um risco industrial”, o que inviabilizava o envolvimento dos grandes estúdios japoneses. Foi assim que surgiu a jovem produtora K2 Pictures, que tornou possível o projeto mais ambicioso da carreira da cineasta, que foi descoberta por Hirokazu Kore-eda e se estreou na realização com Wild Berries (2003).

Depois disso, lançou Sway (2006), apresentado em Cannes, Dear Doctor (2009), Dreams for Sale (2012), The Long Excuse (2016) e o já mencionado Under the Open Sky (2021). Porém, como a própria admite, Children Untold é de outra dimensão: “Graças à K2, conseguimos trabalhar com um orçamento bastante grande para os padrões do cinema japonês. Isso permitiu-me pensar o filme numa escala maior do que seria habitual.”

O Festival de Toronto prossegue até ao dia 20 de setembro.

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