Um cinema municipal em Elne, no sudoeste de França, deixou de ter o nome do realizador René Vautier, por decisão do presidente da câmara, Steve Fortel, cuja lista foi classificada pelo Ministério do Interior francês como de extrema-direita. A sala passou a chamar-se La Bobine Illibérienne, numa alteração que o autarca justificou com a necessidade de “neutralidade“, defendendo que o cinema “não deve ser politizado“.
A decisão provocou protestos em Elne e no meio cinematográfico francês, com dezassete organizações profissionais, entre as quais a Association du cinéma indépendant pour sa diffusion (ACID), Association française des cinémas d’art et d’essai (AFCAE) e Distributeurs indépendants réunis européens (DIRE), a condenaram a mudança. Essas associações consideram que a retirada do nome procura apagar a obra e as lutas do realizador e manifestaram ainda preocupação com a liberdade de programação da sala, cuja gestão passou para a autarquia.
Autor de cerca de 180 filmes, René Vautier realizou Avoir vingt ans dans les Aurès (1972), sobre jovens franceses envolvidos na Guerra da Argélia, e Afrique 50, uma obra ligada às lutas de independência realizada no início da década de 1950, cuja denúncia das condições de vida na África Ocidental sob domínio francês lhe valeu prisão e uma proibição de exibição em França durante décadas. No seu currículo consta ainda o filme “perdido” Un homme est mort (1951), sobre a morte de Édouard Mazé, operário e militante da CGT de 26 anos, atingido mortalmente por um disparo policial durante uma greve de estivadores e trabalhadores da construção, e o documentário Marée noire, colère rouge (1978), dedicado à mobilização dos bretões após a catástrofe ambiental provocada pelo naufrágio do petroleiro Amoco Cadiz
Em resposta à decisão da autarquia, várias salas independentes francesas adotaram simbolicamente o nome René Vautier durante um dia e apoiaram uma petição lançada por habitantes de Elne para que o antigo nome seja reposto.

