Foram necessários nove anos para Roberto Bomtempo terminar um filme construído sobre quase três décadas de vida. Em O Gesto Entre Nós, apresentado na Première Brasil: Retratos do Festival do Rio, o ator e realizador mergulha no arquivo íntimo de André Curti e Artur Luanda Ribeiro, criadores da companhia de teatro gestual Dos à Deux e companheiros na arte e no amor há 28 anos. O que inicialmente poderia ser um documentário sobre uma companhia teatral transformou-se, diante de Bomtempo, numa investigação sobre aquilo que permanece quando palco, casa, criação e intimidade deixam de possuir fronteiras nítidas.
O Gesto Entre Nós terá duas sessões simultâneas nesta terça-feira (6), às 21h30, no Estação Claro Gávea 1 e no Estação Claro Gávea 2, ambas com presença de convidados. O documentário volta a ser exibido nesta quarta-feira (7), às 13h45, no Cine Santa Teresa, na Rua Paschoal Carlos Magno, 136.
A sua matéria-prima é rara. Durante quase três décadas, André e Artur fizeram da câmara uma companheira, registando ensaios, deslocações, processos criativos e momentos privados. Bomtempo não sabia da dimensão desse acervo quando decidiu filmá-los. Só depois de cerca de um ano de convivência o casal revelou a existência das imagens mais íntimas. Foi uma descoberta que mudou o documentário: “Foi ali que descobri que o filme era sobre a história de amor dos dois”, recorda.
Aos 63 anos, Bomtempo chega ao documentário depois de uma vida em trânsito entre interpretação e realização. Encenou teatro desde os 20 anos, passou 13 anos a trabalhar no comando de telenovelas e estreou na realização de longas com Depois Daquele Baile, filmado em 2004. Vinte e um anos depois, diz ter trocado parte da ansiedade pela capacidade de escutar aquilo que um set lhe oferece. Nesta conversa, ele avalia os seus modos de criar.
Entre Depois Daquele Baile e O Gesto Entre Nós passaram-se 21 anos. Que realizador nasceu dentro do ator Roberto Bomtempo durante esse tempo? E o que aprendeste atrás da câmara que jamais terias aprendido diante dela?
Muita coisa se passou. Antes de Depois Daquele Baile, eu já era realizador de teatro. Comecei a fazer teatro aos 19 anos e aos 20 já tinha dirigido a minha primeira peça. Depois vieram cinema, televisão, 13 anos a dirigir telenovelas. Acho que o que mudou foi a ansiedade. Hoje tenho muito mais prazer num set porque a ansiedade é menor. Entendi que, por mais que penses um projeto durante meses ou anos, é na hora de filmar que a coisa realmente acontece. Os meus canais precisam estar abertos para perceber o que está à minha volta e aquilo que cada pessoa traz. E ser ator soma muito ao realizador que sou. Sei o tempo dos atores, as inseguranças, a cabeça deles. Consigo perceber que cada intérprete tem um caminho diferente até chegar ao lugar que uma cena pede. E o contrário também aconteceu: tornar-me realizador fez de mim um ator melhor. Quando estou diante de uma câmara, sei exatamente o que aquele enquadramento e aquela lente estão a pedir.

Quando começaste o filme, não conhecias a dimensão do arquivo pessoal de André e Artur. Como se entra numa intimidade de quase 30 anos sem a invadir?
Quando pensei em fazer o filme, não sabia que eles tinham esse arquivo. Sabia que documentavam os ensaios e os processos de criação, mas demoraram a contar que também tinham muitas coisas íntimas. Só depois de cerca de um ano de convivência disseram: “Temos muita coisa nossa, mas precisamos fazer um filtro para saber o que queremos mostrar”. Aquilo transformou o meu olhar e a nossa relação de confiança. Quando senti que realmente abriram a vida para mim, a nossa intimidade multiplicou-se por mil. Passei a poder estar perto deles com um gravador ou uma câmara sem que ficassem travados. Mas tive sempre essa preocupação: como entrar na vida íntima sem invadir? Dizia: “Se eu estiver demais, avisem-me”. Isso nunca aconteceu.
O título O Gesto Entre Nós parece condensar tanto a criação teatral quanto a intimidade do casal. Depois de observá-los durante tantos anos, qual é o gesto que melhor define André e Artur?
O olhar. Sem dúvida. Eles são gestuais o tempo inteiro, são físicos, mas há uma coisa muito forte quando se olham. Esse olhar é maior do que todos os gestos. Existe uma cumplicidade impressionante. Às vezes é um olhar muito breve, muito rápido, mas carrega uma profundidade de conhecimento. Fecho os olhos e vejo um olhando para o outro. Por incrível que pareça, esse é o maior gesto que ficou para mim.
Há uma câmara presente durante décadas. Em que momento sentiste que eles já não estavam a representar para ela?
Eles têm uma capacidade muito rara de esquecer que existe uma câmara ligada. O que encontrei de mais íntimo foram dois artistas, dois seres humanos, duas pessoas que se amam profundamente e que, através desse amor, procuram uma arte que também os move profundamente. A arte é o alimento da vida dos dois. Eles procuram o mesmo objeto artístico. A câmara estava ligada com algum objetivo, mas eles conseguiam esquecê-la. E aí aparece alguma coisa muito verdadeira.
São quase 30 anos da vida deles e nove anos da tua própria vida dedicados ao filme. O que essa convivência tão longa com o tempo provocou em ti?
Fez-me pensar o tempo inteiro na passagem do tempo na minha própria vida. Passei horas e horas sozinho em casa a olhar para aquelas imagens. Isso trouxe reflexão, mas também agonia e angústia. Fez-me olhar muito para a finitude. Amo viver, e a finitude causa-me apreensão. Mas também vejo que melhoramos com o tempo, se estivermos abertos a aprender com os erros. Olho para Artur e André e vejo como amadureceram, como são homens mais fortes hoje. Fazer um filme durante nove anos sobre uma história de quase 30 obriga-nos a aprender a paciência. E acho que a paciência é uma sabedoria.
Depois de tantos anos a alternar entre os dois ofícios, ainda consegues separar o Roberto ator do Roberto realizador?
Não dá para dividir. Caminham de mãos dadas o tempo inteiro. Leio um livro e sou realizador. Vejo uma cena e tenho um olhar de realizador. Quando estou num palco ou num set como ator, existe um realizador dentro da minha cabeça. Mas aprendi também a separar as funções quando trabalho para outra pessoa. Nunca permito que o meu realizador interfira no trabalho de quem me está a dirigir. Coloco-me ao serviço daquele projeto. Isso não diminui o meu espaço de criação como ator; pelo contrário, o desafio de entrar no universo de outra pessoa é muito excitante.
Se tivesses de reduzir O Gesto Entre Nós a uma única ideia, qual seria?
É um filme sobre o amor. Não diria que é um filme sobre uma companhia de teatro. É sobre o amor entre as pessoas e sobre o amor como maneira de nos colocarmos no mundo. Aos 63 anos, é nisso que acredito. Quero falar, através do que faço, das coisas em que acredito. Para algumas pessoas isso pode ser piegas. Para mim, não é.

