Homenageado em Itália, no Festival Laceno d’Oro (1-8 dezembro), onde recebeu o Prémio Carreira e assistiu à exibição integral da sua obra, Leos Carax deu uma masterclass onde revelou os pilares do seu Cinema.
Do encontro decisivo com Denis Lavant à direção de atores como gesto intuitivo, passando pela obsessão pelas ligações entre corpos, o fascínio por rios, pontes, pelo movimento e a consciência do peso humano, Carax fez uma síntese do seu pensamento, onde não faltou uma crítica à saturação visual contemporânea, a marca de Paris na sua formação e a ideia de que o Cinema nasce do encontro.
Aqui ficam 7 ideias da sua conversa em Avellino.

A relação com Denis Lavant como origem do Cinema de Carax
Carax reconhece que o seu Cinema nasceu do encontro com Denis Lavant: “Tínhamos a mesma idade. Mesma idade, mesma estatura.” Recorda que se conheceram aos 22 anos e que Lavant “não queria fazer cinema. Queria fazer teatro, poesia e circo.” O impacto foi imediato: ao ver a sua fotografia, pensou apenas que “parecia estranho.” E admite sem hesitar: “Não poderia ter feito filmes se não tivesse encontrado o Denis.” Para Carax, Lavant tem “um corpo de bailarino, um corpo que dança”, um corpo que redefine a própria forma de filmar.
A descoberta intuitiva da direção de atores
Carax começou a filmar sem saber dirigir atores: “não fazia ideia de como dirigir um ator, talvez ainda hoje não faça”. Lavant surgiu primeiro como um rosto estranho numa fotografia e depois como revelação de um método baseado no risco e na metamorfose. O Cinema nasceu da intuição.
O tema da ligação e dos corpos que procuram o outro
Os seus filmes iniciais giravam, diz ele, em torno de uma única pergunta: “como entrar em relação com o outro e como conectar-se”. As pontes funcionaram como metáforas dessa vontade de aproximação, porque “ligam coisas, ligam pessoas”. Tal como as suas personagens, que tentam aproximar-se, tocar-se, reconhecer-se — mesmo quando falham. “Gosto de rios… gosto de cidades atravessadas por rios e onde há pontes”.

A cidade como primeiro grande choque estético
Paris marcou-o profundamente: “Cheguei a Paris quando tinha 17 anos, não conhecia ninguém.” Caminhar ao longo do rio, atravessar pontes, observar rostos — tudo foi revelação: “foi incrível esse primeiro impacto com a cidade”. Mas também viu a cidade de Paris transformar-se: “as cidades deixam de ser habitáveis, as pessoas são empurradas para as margens”. Essa ambivalência — maravilha e desencanto — infiltra-se no seu Cinema.
O peso e a gravidade como condição humana
A frase de Louis-Ferdinand Céline (1894–1961) acompanha-o: “os homens são pesados”. Carax acrescenta: “passamos o tempo inteiro a tentar ser mais leves”, seja através do amor ou da tecnologia. Mas a leveza é sempre uma ilusão: a realidade virtual, diz, “dá a impressão de flutuar nas nuvens, mas é tudo uma piada, porque é pesado”. O Cinema “é uma tentativa falhada, mas bela, de contrariar esse peso”.
A crítica à poluição visual contemporânea
Carax busca uma frase – “Um mestre japonês, nunca me lembro se era o Ozu, dizia que, se olhas para duas coisas, uma árvore e uma criança, entre as duas tens de lavar os olhos” – para dizer que hoje em dia “é impossível lavar os olhos”. A proliferação incontrolável de imagens — ecrãs, dispositivos, vigilância — retira peso e verdade ao real. Vivemos saturados, e a saturação torna-nos cegos: “O digital dá a impressão de flutuar nas nuvens, mas é tudo uma piada — é pesado.”
O Cinema como enigma, encontro e não-saber
Carax descreve o Cinema como um território de mistério mais do que um sistema de regras: “Não sei o que o cinema faz. Sei apenas o que significa para mim.” A relação com a arte, diz, não se esclarece — “não sabia quando comecei; sei ainda menos hoje” — e o gesto cinematográfico nasce do coletivo: “não se pode fazer um filme sozinho.” Sem rodeios, diz não ser um cineasta realista e afasta-se de um lado profético atribuído aos seus filmes: “nunca sei do que falo”.

