Entrevista a Brad Pitt, produtor e protagonista de «Mata-os Suavemente»

(Fotos: Divulgação)

Até a matar convém que seja com elegância. E, porque não até, com algum charme? É precisamente ao pensar nas futuras vítimas que Jackie aprecia um trabalho limpo, preferencialmente de longe, sem ligações emocionais. Se é para matar, então que seja uma morte… suave. É este o novo papel de Brad Pitt em Mata-os Suavemente, numa nova colaboração com o neozelandês Andrew Dominik que o dirigira em O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford. Ele que tem sabido equilibrar a sua carreira entre as figuras de perfil mais positivo, alguns vilões, durões e, claro, assassinos. Sendo que qualquer estupor que Brad aceite encarnar, será sempre revelado de acordo com um suposto lado bom, com uma aceitável dose de charme.

Pois assim é também Brad Pitt. Sim, o charme é com ele. De cabelo claro ligeiramente comprido, onde de notam, aqui e ali, algumas brancas, no cabelo e na barba por fazer, óculos escuros e um sorriso discreto. O homem fala devagar, pausadamente, seja a compreender os porquês das suas personagens, os contornos e os problemas da vida familiar ou simplesmente quando encara o melhor da vida. Brad já viu muito, tem criado uma família numerosa e, louve-se a coragem, tem sabido (con)viver com os fotógrafos à sua porta. Ele e Angelina Jolie. E os seis filhos do casal, entre adotados e naturais. uma vida em cheio? O próprio nos confessa quando sente saudades da confusão doméstica e de ter sempre alguém a gritar pelo “pai”! Talvez por isso, sinta também a necessidade do equilíbrio de papéis um pouco, digamos, para gente crescida. Mesmo assim, tal como Angie, também ele já emprestou a voz a personagens de animação. Esses, e pouco mais, serão para já aqueles que podem ser apreciados pela prole lá em casa. Já para os outros, terão ainda que esperar uns anos. Tal como o super-violento Mata-os Suavemente, numa curiosa mescal entre crime organizado em pleno nascimento da crise económica que abalou a América e o mundo. Mas é bom o sacana do filme. Foi em Cannes, há seis meses atrás, que falamos com Brad. 

Começa a ser uma tradição vê-lo aqui em Cannes… 

Sim, gosto muito de Cannes. E é um lugar onde os realizadores são muito apreciados. É bom estar aqui em competição com o filme do Andrew Dominik e de outros realizadores que admiro. 

Acha que por viver em França a sua forma de encarar o cinema se alterou? 

Não. Mas sinto aqui uma apreciação muito grande pelos cineastas, pela sua voz e o ponto de vista. Existe também uma apreciação por filmes mais subtis. E acho até extraordinário existir uma lei que garante ao realizador um “final cut” (a montagem final). 

Tem estado ultimamente muito ativo. O que mudou para si desde o ano passado? 

Não mudou nada. Continuo a fazer as mesmas coisas. O ano passado foi um ano em que trabalhei muito; agora, pelos vistos, é a Angie que trabalha mais. Por isso, fico com a possibilidade de ser mais o pai. 

E que tal o papel de pai, é um que gosta de interpretar? 

Claro que sim. Apesar da Angie ser o  motor daquela casa, também gosto de sentir alguma confusão, gosto das brigas e de sentir que há sempre alguém a chamar pelo pai. Faz-me sentir bem. 

Dos muitos projetos que recebe, como é que escolhe aquele que quer interpretar ou produzir? É uma intuição? Foi o caso deste? 

Sim, há um lado de intuição. É algo inexplicável que me diz que isto será interessante prosseguir. Algo que seja novo, diferente. E neste caso, com o facto de Andrew (Dominik, o realizador) se ter tornado um amigo. Nesse sentido, O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford continua a ser um dos meus preferidos. Talvez por isso quisesse voltar a trabalhar com ele. Por isso, quando me chegou com esta ideia, sobre um filme que abordava o escândalo do colapso das rendas nos EUA, o que estaria na origem da crise de hoje, fiquei fascinado. Tive a certeza de que seria o projeto adequado.  

Sente que esta crise também o afeta a si?  

Claro que sim. O que me interessou foi perceber como todos os escândalos financeiros foram descobertos e como uma série de pessoas perdeu a casa onde vivia. É algo traumático, e foi apenas devido à falta de regulação dos mecanismos de controle que criou esta oportunidade para a ganância. É claro que o pecado da ganância faz parte da natureza humana, mas sob a alçada das regras do capitalismo parecia que estava legitimada. O que nos leva à questão do que é na realidade um capitalismo responsável. Houve um comportamento criminal mas não ninguém parece ser responsável. Digamos que é difícil viver em paz com isto.   

Por falar em dinheiro, no final do filme, a sua personagem diz mesmo algo como isto: “Neste país é tudo uma questão de negócio”… Foi uma ideia que quis abordar? 

Exato. Eu quis fazer um filme que falasse de algo do nosso tempo. Que fosse relevante para nós enquanto cidadãos. Eu quero trabalhar com realizadores que respeito, pois este é um processo de verdadeira colaboração. Eu queria ter a certeza de que estava em boas mãos e de fazia algo que me afastasse de casa em termos criativos. Basicamente, foram estas duas razões que me fizeram avançar.  

Ainda que se tratasse de um filme muito violento. Não receia ver a imagem do Brad Pitt cool associada a um filme tão violento como este?  

Mas nós vivemos num mundo violento. Não tento esconder isso. Dito isso, é também uma metáfora sobre o negócio. E o negócio pode ser “Darwiniano”, cortante, por isso, para mim, as execuções são metafóricas.   

Diz isso por ser um assassino que mata suavemente? 

Não se trata de uma violência niilista. Digamos que existe algum carinho pela outra pessoa, tentamos que a sua morte seja confortável, mais fácil para elas. É apenas uma parte desagradável do negócio. Matar ou ser morto é um aparte potencial da vida de crime.  

Contudo, não hesitou em colocar essa violência no ecrã… 

Há qualquer coisa que me atrai. Pelas boas ou más razões.   

Já agora, neste filme, as mulheres praticamente não existem, porquê? 

Bom existem algumas.   

As prostitutas… 

Pode ser. Mas os homens estão sempre a falar sobre as mulheres. Aliás, todas as personagens são muito afetadas pelas mulheres ou pela sua falta. Algo que, inevitavelmente, leva a uma grande tristeza.   

Por falar em mulheres, todos nos lembramos quando o Brad apanhou uma boleia de duas grandes mulheres em “Thelma e Louise”. Lembra-se? Já foi há alguns anos. Algumas vez imaginou que essa viagem o pudesse levar tão longe? 

Sim, foi já há alguns anos… mas, veja bem, nunca é possível antecipar o futuro. O que eu sei é que queria fazer parte do mundo dos filmes. Na altura era ainda difícil perceber o que aquilo era, o que eu poderia ser neste negócio ou o que fazer com uma oportunidade. Tratava-se apenas de procurar as oportunidades e ter a sorte de entrar no negócio. Para mim, isso foram os anos 90.  

O que sente agora quando vê um desses filmes na televisão…  

Eu não vejo televisão…  

Pelo menos, “Thelma e Louise” é um dos filmes que pode mostrar aos seus filhos…

 É verdade. Mas há outros que terei orgulho um dia em lhos mostrar. E espero que eles também fiquem orgulhosos de mim. No entanto, não gosto muito de me concentrar no passado. Acho que vou pensar nisso quando já não puder trabalhar mais…  

Existe para si algum filme que lhe tenha mudado a vida ou lhe tenha dado uma perspetiva de vida diferente?  Essa é mais uma experiência que se tem numa idade mais jovem. Posso dizer-lhe filmes que me mostraram culturas que não conhecia e me tornaram mais curioso sobre o mundo, me fizeram viajar pelo mundo, conhecer pessoas e reagir de forma diferente, ter um ponto de vista diferente. 

Vem-lhe à memória um filme que o tivesse marcado ou salvo por alguma razão? 

Deixe-me ver. Por exemplo, lembro-me de ver Febre de Sábado à Noite. E recordo-me de ter entrado à socapa no cinema, porque se tratava de um filme “não aconselhável a maiores de 18 anos”. E eles eram muito rigorosos. Por isso, comprei um bilhete “para todos” e fiz de conta que ia à casa de banho. Entrei quando o “pica bilhetes” se distraiu por um momento.  

Pode dizer-se então que foi “salvo” pelo John Travolta?… (risos) 

Não (risos)… Mas modificou-me a ideia daquela família novaiorquina. Eu sou de Ozarks, das montanhas (entre o Missouri e o Arkansas). Sou um homem do campo. Por isso fiquei fascinado ao ver aquela família vibrante, gregária em que gritam e se batem uns aos outros. Parecia-me algo feroz, mas também com muita unidade e amor. Foi algo que me afetou mesmo.  

Quando foi que começou a pensar em trabalhar como ator, lembra-se disso? Foi algo natural em si? 

Por acaso onde eu vivia isso não fazia parte da lista de oportunidades de carreira. Já contei esta história muitas vezes. Duas semanas antes de acabar o liceu, toda a gente falava de trabalho, e eu não tinha nada previsto. Por isso, duas semanas mais tarde, com o depósito do carro cheio e 300 dólares no bolso, fiz-me à estrada…  

Li algures que teria considerado a hipótese de ser jornalista… 

Sim, cheguei a matricular-me na escola de jornalismo. Mas, infelizmente, eram apenas aulas como as outras. É claro que agora penso o contrário… 

Como produtor, percebemos que é muito inteligente na forma como investe o seu dinheiro. Mas em casa, é à mesma tão criterioso a ensinar aos seus filhos o valor do dinheiro? É claro que tem muito dinheiro, mas consegue fazer passar essa ideia lá em casa?

Claro. É uma das muitas coisas que tento incutir nos meus filhos e prepará-los para um dia viverem a sua própria vida e a respeitar toda a gente.   

E para si, até que ponto é importante o dinheiro? 

Nunca é demais. Há uma série de novos problemas, ainda que numa escala diferente. É claro que nos dá mais liberdade de ver o mundo e liberdade para viajar. Oxalá todos pudéssemos viajar mais. Acho que passaríamos a ser mais generosos.  

Mas o Brad contribui bastante para obras de caridade… 

Eu tenho dito muitas vezes que me saiu a lotaria. Quanto mais viajo mais percebo a oportunidade que tive. E muita gente não tem essa oportunidade. Afinal de contas, não passa de uma questão de sorte.   

Vamos lá, não pode ser apenas sorte… Tem de haver algo mais. 

O facto de nascermos num determinado local nos determinar uma certa oportunidade na vida, não é para todos. Até podemos ter sido criados iguais, mas não nascemos iguais.  

Quando recebeu o seu primeiro cheque gordo, teve cuidado de não fazer grandes extravagâncias? 

Mas eu ainda posso fazer isso. Levar a família à bancarrota (risos)…   

É verdade que vai fazer dois filmes com o Michael Fassbender, “Twelve Years as a Slave” e “The Counselor”. O que acha dele?   

Gosto imenso dele. Adorei Fome. Ele tem algo particular. E o Steve McQueen (realizador de Twelve Years as a Slave ) é um dos grandes pintores da atualidade.  

Agora que a Angelina se estreou como autora de guião e realizadora, acha que poderá seguir as suas passadas? 

Não, acho que não.   

Porque não? 

Tenho muitos bons amigos que o fazem. Mas eu acho que seria demasiado obsessivo. E acho que iria ter repercussões na família.   

Você e a Angie discutem os projetos um do outro? Procuram a aprovação de ambos?  

Claro. Ajudamo-nos mutuamente e a perceber o tipo de papel que por vezes nos cabe. Sem dúvida, eu procuro sempre aprovação dela e tenho orgulho em ser o marido dela.   

Como é que passa o seu tempo livre com as crianças? Que tipo de coisas fazem juntos? 

As coisas normais. Para nós, até um almoço é uma aventura. Os rapazes gostam muito de desporto. E eu gosto de lhes atirar uma bola (assim se joga futebol americano). Também gostam de lutar – principalmente karaté –  e de jogar na little American Football League.  

Qual é para si o maior desafio quando está com todos eles? 

Enquanto pai de seis crianças, tudo se resume à logística das coisas. E ao tempo. Quando antes podia sentar-me e ser menos criterioso com o meu tempo, agora todas as horas são para aproveitar. Mas também preciso de me certificar que eles têm a atenção que precisam. Sinto a falta deles quando estou a trabalhar. Isso faz-me sofrer, mas todos temos de trabalhar.  

Até que ponto é difícil para vocês conciliar os vossos programas para ter tempo com a família? 

Eu e a Angie estamos sempre a alternar por forma a estar, pelo menos um de nós com as crianças e outro a trabalhar. E pelo meio tentar ainda ter algum tempo todos juntos. E acho que temos conseguido conciliar as coisas da melhor maneira. Já percebeu porque é que não quero ser realizador… 

 
 
 
 
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