Estreia essa semana em Portugal “O Porco de Gaza”, a abordagem cómica do conflito árabe-israelita centrada nas peripécias do pescador Jaffar (…), que involuntariamente “pesca” um porco, animal impuro para muçulmanos e judeus, do qual tem que se livrar de qualquer maneira. Um problema considerável também para a esposa dele, Fátima (Baya Belal), que lida diariamente com uma vida de pobreza e a opressão das tropas inimigas no seu próprio teto. É comum em Gaza soldados israelitas estarem estacionados mesmo em cima das casas de palestinianos e a interação deles com Fatima rendem algumas das mais hilárias situações de “O Porco de Gaza”. Primeiro filme do realizador francês Sylvain Estibal, que concorreu ao César de Melhor Primeira Obra.
De passagem por Portugal durante a exibição do filme na última edição da Festa do Cinema Francês, a atriz Baya Belal conversou com o C7nema sobre a sua personagem e os riscos de uma abordagem em tons de comédia de um conflito ainda explosivo. Ela também faz parte de outro filme a ser lançado em fevereiro no nosso país, a produção belga “A Perda da Razão”, que esteva na secção A Certain Regard (Festival de Cannes) do ano passado.
Não tiveram receio em tratar em tom de comédia um tema que é ainda é bastante explosivo?
Quando li esse argumento eu apenas ri imenso. Quando lia pensava, “meu Deus, esse Jaffar é completamente maluco e estúpido”. Penso que é muito importante tratar deste tema na forma de comédia. O assunto é tão sério que precisa de outra perspetiva. Neste caso, eles terminam por rir uns da estupidez dos outros. O acento cómico faz com que tu pares e dê um passo atrás e veja o absurdo da situação, de como o ser humano pode ser tão estúpido. É o que o Sylvain Estibal chamou de “grito de revolta cómico”. Ele queria gritar porque nós precisamos de paz. O filme é uma mensagem de esperança, porque as pessoas podem vivem juntas e em paz. Os políticos podem levar as pessoas a pensar o contrário. O objetivo de quem está no controlo não é levar as pessoas a viver em paz e harmonia. Eles têm interesse no conflito. Por isso esse tipo de mensagem é importante.
O filme já foi lançado em Israel? Seria interessante ver a reação…
Não, ainda não. Mas ambas as comunidades em França receberam o filme muito bem e riram imenso da situação. Tivemos excelentes conversas depois das projeções.
Pensa que a Fatima é uma personagem triste?
Eu não penso que ela é triste. Ela tem sentido de humor, apenas é bastante realista em relação ao seu marido, pois sabe que ele é um pouco infantil, está sempre a meter-se em estranhas aventuras…
Mas ela gosta dele…
Sim, ela gosta muito dele. Há uma grande cumplicidade. Ela tem dignidade, mesmo diante da vida que tem, da sua situação. Ela sempre mantém sua dignidade, isto é bastante importante a propósito desta personagem. Por vezes ela está triste com o que está acontecendo, mas não o tempo todo.
Uma das partes mais cómicas do filme é quando ela assiste telenovelas com um soldado inimigo…
Sim, eles têm uma forma muito especial de comunicar-se. As pessoas normalmente gostam bastante destas cenas. Termina por ser uma forma deles dizerem coisas um ao outro. Não frontalmente, diretamente, pois isso seria complicado. É algo bastante simbólico.
Como entrou no projeto?
Eu conheci Sylvain Estibal mal ele chegou em Paris. Ele vinha do Uruguai e ficou um ou dois meses na cidade antes de rumar para Malta, onde decorreram as filmagens. Eu conheci-o quando ele estava à procura de alguém para interpretar a personagem feminina da história.
Quanto tempo levou e como foram as filmagens em Malta?
Ficamos lá cerca de um mês. Foi perfeito, a população de lá foi ótima. Tivemos um grande apoio e uma equipa fantástica. Os atores que tomaram parte no projeto também foram uma escolha excelente. Estavam todos muito conectados com a mensagem do filme. Especialmente Sasson Gabai, ele é um grande ator e muito famoso no seu país. E ele era muito atencioso com as pessoas na rua, falava com toda a gente…
Então ele é um tipo simpático como a sua personagem…
É mais do que isso. Ele é mais inteligente que sua personagem (risos). É muito carismático e muito humano também.
Entrevista com Baya Belal, atriz principal de «O Porco de Gaza»
(Fotos: Divulgação)
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