Já virou piada na indústria cinematográfica o impasse na finalização de “The Way Of The Wind“, de Terrence Malick, que nunca mais fica encerrado, sob a hipótese de que o perfeccionismo do realizador travar o fim da pós-produção. Brincam que só Deus pode finalizar esse épico sobre a fase final da vida de Jesus. Sabe-se que o guião aborda as pregações do filho do Homem, num périplo que vai da crucificação à Páscoa. O húngaro Géza Röhrig é quem vive o Salvador. As filmagens tiveram locações na Turquia. Mark Rylance é um dos destaques do elenco no papel de Satã. Malick conta ainda com o belga Matthias Schoenaerts no papel do fundador da Igreja, o apóstolo Pedro. Joseph Fiennes, Ben Kingsley e Franz Rogowsky estão no elenco. Havia uma expetativa da vinda deste filme à Croisette, este ano. Não aconteceu. Contudo, é um dos mais festejados títulos da obra malickiana que abre-alas na seção (ao ar livre) Cinéma A La Plage de 2025: “A Hidden Life”.
Em meio à onda de intolerância que varre o Velho Mundo na escolha de um novo Papa, o regresso de um filme debruçado sobre a rejeição à Maldade, como “A Hidden Life” é, a um só tempo, um bálsamo ético e um convite ao debate acerca dos ecos nazis ao nosso redor. Trata-se de um Malick dos melhores, no limite do esplendor, dirigido com uma potência que só se viu igual em “Days of Heaven“, vencedor da láurea de Melhor Realização em Cannes, em 1978. A sua escolha para o Cinéma de la Plage amplia o prestígio do cineasta e estará lá ao lado de clássicos (“Sunset Blvd“, de Billy Wilder) e de estreias (“Ange“, de Tony Gatlif). Chamado no Brasil de “Uma Vida Oculta“, “Uma Vida Escondida” em Portugal, “A Hidden Life” venceu o Prémio do Júri Ecuménico de Cannes numa fase em que Malick vinha se concentrando em festivais como a Berlinale e o SXSW. Após uma safra de filmes recentes de linha messiânica, calcados nos seus estudos da filosofia transcendentalista, como “A árvore da vida” (Palma de 2011), o veterano realizador nascido em Illinois aplica os seus ensaios sobre a fé no contexto da II Guerra Mundial. A aparição do mítico ator suíço Bruno Ganz (1941-2019), num momento crucial da trama, foi saudada, há seis anos, na Croisette, com apupos de respeito, numa salva de aplausos. No seu novo trabalho, o mais sóbrio e contundente desde “The Thin Red Line” (“A Barreira Invisível“, Urso de Ouro em 1999) recria, com uma potência plástica singular, relativa à fotografia de Jörg Widmer, a saga do fazendeiro austríaco Franz Jägertätter, que se recusou a lutar em prol dos nazis. Analgésico seria a melhor palavra para classificar o efeito que o desempenho de August Diehl (de “O jovem Karl Marx“) no papel central. Igualmente impecável é a atuação de Valerie Pachner como Fani, a mulher e esteio moral de Franz. “O Terry é curiosidade em estado puro nos sets, pois, a filmar, ele bombardeia a sua equipa de perguntas, sem dar muitas respostas“, disse Diehl ao C7 em Cannes. “O heroísmo de Franz foi dizer ‘Não’ contra toda a violência”. Para investigar a paisagem de feno, de árvores e rios, numa aldeia germânica, Malick contou com a fluidez da câmera de Jörg Widmer (de “Os invisíveis”). O fotógrafo integrou a equipa da câmara de “A Árvore da Vida“.
O 78º. Festival de Cannes segue até o dia 24 de maio.

