Hoje no FEST: Entrevista a Kyle Patrick Alvarez (Easier with Pratice)

(Fotos: Divulgação)

«Easier with Practice», de Kyle Patrick Alvarez, o filme vencedor do Castelo de Prata do FEST 2010, regressa ao festival de cinema jovem de Espinho esta terça-feira, dia 20 de junho, na retrospetiva Light and Sound.

Davy Mitchell é um escritor de contos, muito introvertido, que se lança numa road trip com o irmão pelos EUA para promover o seu livro. Mas a viagem depressa perde o lado divertido e cai na rotina, deixando Davy farto de aturar o irmão.

Certa noite, o telefone do hotel toca e Davy atende. Do outro lado, uma mulher desconhecida chamada Nicole convida-o para um blind date de sexo por telefone. A voz é tão sedutora que Davy aceita. Os telefonemas repetem-se e, lentamente, Davy apaixona-se pelos segredos da misteriosa Nicole. Mas a paixão dá lugar à frustração, sobretudo porque Nicole recusa encontrá-lo em pessoa.

É esta a premissa da estranha história de amor que é «Easier with Practice», uma road trip de autodescoberta que joga inteligentemente com o espectador e termina com um desfecho surpreendente e cheio de possíveis interpretações.

No ano passado, o C7nema falou com o realizador americano Kyle Patrick Alvarez, no rescaldo da vitória no FEST.
Entrevista conduzida por José Pedro Lopes.


O teu filme é inspirado num artigo da GQ de David Rothbart. Sobre o que tratava esse artigo e como te levou a criar esta história?

Quando li o artigo, surgiu-me logo a ideia para a história. O que mais me convenceu foi a forma honesta e algo imatura como o escritor levava tão a sério um relacionamento construído em torno do que era apenas um “telefonema de sexo anónimo”. Queria fazer um filme tão sincero e desarmante como o artigo, com base em algo que, à partida, é tudo menos honesto.

Estudaste literatura inglesa e também és escritor. Como te revês na personagem do filme?

Apesar de ser baseado numa história verídica (a do artigo), há muito de mim no filme. Tenho muitas ansiedades sociais e canalizei-as para as inseguranças do Davy. Também já estive em relacionamentos à distância, por isso percebo as expectativas e emoções quando a única coisa que temos da outra pessoa é a voz ao telefone.

O teu filme é uma variação curiosa das “bootie calls”: mistura encontros às cegas com sexo telefónico. Vês o telefone como um objeto bizarro que nos pode pôr em contacto com qualquer um?

Vejo até de forma positiva a tecnologia e a forma como nos conecta instantaneamente com alguém que não conhecemos. No entanto, nada substitui a qualidade da comunicação cara a cara. A internet tornou o mundo num lugar mais pequeno e deu-nos uma perspetiva mais livre. Creio que é a arbitrariedade daquele telefonema que cria o relacionamento do filme. Ele tenta capturar esse mini-mundo que se constrói.

Este filme tem uma perspetiva cinzenta do mundo. Davy não se consegue relacionar nem com a namorada, nem com o irmão. E, no fim, apaixona-se por alguém que não é quem parece. Vês o mundo com este cepticismo?

Creio que o mundo nos desafia sempre, especialmente no que toca ao amor. É raro estarmos numa situação perfeita ou num relacionamento perfeito. Mas penso que são as estruturas sociais que nos fazem ter medo de outras formas possíveis de amor. Queria que o filme estimulasse as pessoas a pensarem que talvez o relacionamento ideal não esteja dentro dessas estruturas — e que até faça sentido apaixonarmo-nos pelo telefone por alguém que fisicamente não sabemos como é.

No final, Davy descobre que Nicole é, na realidade, um homem, mas nunca percebemos se ele o aceita ou rejeita. Inclusive, fica a dúvida: eles dormiram juntos ou tiveram apenas um momento constrangedor? Qual é a verdade?

Queria que o filme tivesse esse final aberto, que deixasse os espectadores na dúvida. Na vida real, Davy não foi para casa com Nicole, mas ficaram amigos.

Na minha visão, não vejo o Davy como homossexual, apenas como alguém que ainda não definiu nem descobriu tudo sobre si. Por isso, a minha opinião não é relevante.

Subtilmente, este filme lida com a homossexualidade e a discriminação. Tinhas receio que isso pudesse condicionar o filme social e politicamente?

Sabia que o final iria alienar muita gente. Fiz um esforço para que não fosse um “filme gay”, mas sim uma história onde a homossexualidade surge como contexto para algo mais geral: os sentimentos humanos.

Os meus filmes favoritos são aqueles que põem em causa os valores e perceções que temos, por isso queria que o filme provocasse o público.

Eugene Byrd está excelente como Aaron/Nicole. Foi a tua primeira escolha?

Ele foi a primeira e única escolha. Quando os responsáveis de casting mo apresentaram, percebi logo que era a pessoa ideal. Na vida real, é totalmente diferente do Aaron, mas conseguiu criar uma personagem muito especial. Tivemos dúvidas de calendário sobre a disponibilidade dele, mas felizmente conseguiu e sem dúvida tornou o filme no que é.

O que te fez querer ser realizador de cinema?

Foi quando vi «Psycho» que percebi que o meu sonho era fazer cinema. Mas muitos outros filmes me inspiraram e continuam a inspirar até hoje.

O que devemos esperar do teu novo filme, «C.O.G.»?

«C.O.G.» é um projeto de sonho. É baseado numa história de David Sedaris, e foi das primeiras vezes que ele autorizou que alguém adaptasse um trabalho seu. Foi uma grande honra. É uma história maior que «Easier with Practice», com mais personagens, mas também sobre autodescoberta.

Como foi ver «Easier with Practice» ser um sucesso nos Independent Spirit Awards, noutros festivais e até vencer o FEST, em Portugal?

Não esperava tanto reconhecimento. As nomeações e prémios nos Independent Spirit Awards foram das experiências mais estranhas da minha vida. A vitória no FEST foi uma enorme alegria, sobretudo porque o meu parceiro de vida é português e conheço bem o país. Sou fã de Portugal e foi uma grande honra para mim.

Algum conselho para jovens realizadores?

Façam filmes, custe o que custar. Não são “cineastas” até fazerem filmes, por isso força aí.

 

 

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