Aclamado na sua passagem por Roterdão, em janeiro, “Banel et Adama” chega às salas em Portugal carregado de mitologias do Senegal, apoiado numa tónica mágica referendada em Cannes, com a seleção na corrida à Palma de Ouro. A sua realizadora, Ramata-Toulaye Sy, hoje agarra-se com orgulho às vagas que vem conquistando nas maiores maratonas audiovisuais da Europa. Em maio do ano passado, na Croisette, a revista “Screen” atribuiu-lhe elogios na crítica escrita por Wendy Ide. Segundo ela, o filme é uma “fábula atmosférica” e “cresce na sua segunda metade e será de interesse para os distribuidores de filmes independentes”.
“Não quero me limitar a um cartão postal do Senegal, mas, sim, a buscar imagens não saturadas, apoiadas em referências de Van Gogh e Munch. Tentei dialogar com a literatura sem me deixar embevecer por lirismos da prosa”, disse Ramata-Toulaye (na foto acima) ao C7nema, em Cannes.
O que existe de ousadia nesta história de amor do Senegal (terra dos ancestrais da realizadora, que nasceu no fim da década de 1980 em Paris e lá estudou) é o seu flirt com o realismo mágico. Existe até uma revoada de aves que inundam o céu com o aviso funesto de uma tragédia. Khady Mane interpreta Banel, jovem que se casa com Adama (Mamadou Diallo) sem entender as interdições culturais do seu povo ligados ao amor. A união é feita sem que ele entenda os meandros que cercam as ligações afetivas naquele espaço.

“É da literatura que o realismo de tons fantásticos, cercado de magia, brotou para dentro da minha narrativa”, explica a realizadora. “Ele passa por Faulkner, entre muitos autores mais ou menos alinhados com essa perspetiva mágica. Procurei ir além da comédia romântica clássica, com a qual o cinema nos marcou, explorando a potência que nos tira do real, pois não quero fazer um manifesto, um filme social. É a história de um amor, ainda que os fantasmas da escravatura contra o povo negro apareçam em algum lugar.” Ainda sobre referências, a Khady viu ‘Camille Claudel’, o filme, para construir a sua personagem de modo a tornar crível que, hoje, ainda se enlouquece por amor. “Existe uma dimensão de tragédia no filme, mas também existe a banalidade da vida, que não pode ser descartada”.
Pilares autorais do cinema produzido por países africanos – como Souleymane Cissé, do Mali – estão no radar de Ramata-Toulaye, mas não engessam a sua dinâmica criativa. “Respeito a obra de Cissé, que é um dos grandes, assim como admiro outros filmes de colegas africanos. Mas nasci em França, não cresci com essas narrativas de África. Só fui descobri-las mais tarde”, disse a cineasta. “Sou vista aqui como alguém recém-chegada. Mas tenho currículo. Não sou uma desconhecida. Estudei cinema. Estou aqui. Vejam o que tenho a dizer com os meus filmes”.

