É, facilmente, um dos maiores nomes do cinema documental português. Com inúmeros trabalhos neste campo, Sérgio Tréfaut é também reconhecido pelo trabalho que desenvolveu no DocLisboa.
Presentemente, podemos encontrar nas salas de cinema um trabalho seu, intitulado A Cidade dos Mortos. O filme tem sido muito bem recebido e, à quarta semana, já atingiu praticamente seis mil espectadores.
Mas Tréfaut decidiu embarcar numa nova direção. Já não é diretor do DocLisboa e estreou-se no campo da ficção com Viagem a Portugal. No elenco encontramos nomes fortes do cinema português, como Isabel Ruth e Maria de Medeiros, tendo o filme estreado recentemente no IndieLisboa’11.
O c7nema falou com Tréfaut para saber mais sobre o abandono do campo documental e a chegada ao cinema de ficção. Aqui ficam as suas palavras:
O Sérgio fez praticamente toda a sua carreira no cinema em torno de documentários. A saída de diretor do DocLisboa e a realização de um filme de ficção inicia uma nova abordagem ao cinema e um divórcio com os documentários?
Não estabeleço fronteiras marcadas entre os géneros. Ficção e documentário são, para mim, formas livres de fazer cinema.
Como surgiu a ideia para o filme?
Viagem a Portugal parte de uma história verídica, que me foi contada pela sua protagonista há cerca de oito anos. Ela era minha professora de russo quando eu ainda estava a preparar o documentário Lisboetas.
Como se processou o casting, a escolha dos atores?
Há três atores gigantes nos papéis principais: Maria de Medeiros, Isabel Ruth e Makena Diop. Escrevi e reescrevi os diálogos pensando nas suas vozes e atuações. No entanto, o filme cruza atores profissionais com não-atores. Estes foram escolhidos após seleção fotográfica, casting, ensaios e testes.
Para que servem, ou qual o objetivo das repetições e transições/cortes a branco ou preto (não os que tinham horas ou data, claro) em Viagem a Portugal?
O filme conta uma história linear, clássica, mas a sua forma é muito invulgar. Já não tenho paciência para tanta coisa igual. Aborreço-me muito nos filmes mainstream, que parecem telefilmes. Para mim, há imensas cenas que não estão lá a fazer nada, quase só para encher chouriços. Em Viagem a Portugal apostei nas elipses. Decidi guardar apenas o que me parecia essencial, com cortes sem raccord de plano para plano. Também achei interessante dar a ver exatamente a mesma cena de várias formas. Às vezes isso corresponde a pontos de vista opostos; outras vezes corresponde a uma acentuação do lado ficcional do filme: pode-se contar assim, pode-se contar de outra forma. É um jogo.
Tudo isto faz com que o espectador consiga distanciar-se de uma história aparentemente emotiva e não faça a tradicional catarsis, que anula a capacidade reflexiva. O objetivo dos brancos e das repetições é precisamente o de perturbar os nossos hábitos.
Ficou satisfeito com o resultado final?
Gosto muito do objeto plástico e adoro a interpretação dos atores. Espero que, além disso, o filme possa fazer pensar.
Temos duas críticas a Viagem a Portugal (ainda não publicadas). Uma bastante negativa (que diz que, para o que se mostra, bastava uma curta-metragem), outra claramente positiva. Acha que o filme pode gerar sensações díspares e ser um filme que se ame ou odeie?
Eu acredito nos meus projetos. Viagem a Portugal é um filme descarado, arriscado, anticonvencional. Não é um filme para agradar a gregos e troianos.
Quais os seus projetos para o futuro? Vai continuar na ficção?
Tenho um documentário em preparação e uma ficção escrita (uma comédia), à espera de financiamento.
A Cidade dos Mortos já atingiu os 5 mil espectadores. Está satisfeito com o resultado?
Ainda não completou a 4.ª semana e está quase nos seis mil. Sem contar mais de mil pessoas que o viram entre o IndieLisboa 2010 e a Cinemateca. A vida quotidiana nos cemitérios do Cairo não é um tema que arraste as pessoas para o cinema como Lisboetas, José e Pilar ou Complexo. Para já, é um bom resultado. Poucas ficções independentes portuguesas fazem tantos espectadores e com tão poucas cópias.
Que futuro vê para o cinema português?
Acho que o cinema português deveria ser defendido e estimulado de forma sistemática pelos canais de televisão abertos (públicos e privados). Isto passa por políticas governamentais que não existem. Os sucessivos governos em Portugal estão-se literalmente a cagar para o facto de a televisão ser a porcaria que é, que não estimule o desenvolvimento e a reflexão da população. Pior: convém-lhes que a televisão seja um lixo.

