“O dragão irresistível chegou e levou-me daqui para fora“. Assim o diz a atriz Alma Pöysti em “Tove“, filme de abertura do Festival de Gotemburgo, que arrancou hoje e promete muito e bom cinema até ao próximo dia 8 de fevereiro.
Uma frase que ganha maior significado no início da edição 2021 do certame sueco, até porque o dragão é o símbolo do festival que este ano decorre para uma grande maioria de público em formato online. E dizemos grande maioria porque algures na Ilha de Pater Noster estará, a partir de sábado, dia 30 de janeiro, um cinéfilo isolado que durante 7 dia vai assistir ao evento no mais profundo distanciamento social.

O concurso que agitou a internet teve 12 mil concorrentes e um vencedor, que a partir do pequeno pedaço de terra – que ganhou o seu nome de Pai Nosso (Pater Noster em Latim) pela localização da ilhota fazer temer o pior para os marinheiros – irá informar-nos diariamente através de vídeo a sua experiência. Além dessa ilha, há mais dois espaços do evento que normalmente enchem e são o coração do festival, mas que em tempos de pandemia estarão apenas disponíveis para um espectador de cada vez: a arena Scandinavium e o cinema Draken, normalmente o coração do certame.
São 7 os filmes que competem na categoria principal do evento – a competição nórdica – estando preparada a estatueta de um dragão para o vencedor, além de qualquer coisa como 40 mil euros. Um desses 7 filmes é “Tove“, projeto dedicado à artista visual finlandesa-sueca Tove Jansson (1914–2001).
Assinado por Zaida Bergroth, e com Alma Pöysti no papel-título, “Tove” mostra o lado mais pessoal da criadora dos Moomins, personagens que surgiram em livros e tiras de BD dos jornais, acabando por serem exportados para todo o mundo. Mas o foco do filme é mesmo o lado mais desconhecido da autora, os eventos da sua vida imediatamente após o final da 2ª Guerra Mundial, quando se estabeleceu, pintou quadros e até ilustrou postais para sobreviver. “Tive sempre pena das pessoas sem talento para as artes, mas que seria de nós sem os burgueses“, diz ela em jeito provocador numa festa social.
Também assistimos à sua relação com o jornalista, político e filósofo Atos Wirtanen (interpretado por Shanti Roney), e com Vivica Bandler (interpretada por Krista Kosonen), a diretora de teatro que a fez responder a frase com que iniciamos este texto. Contextualizando, Tova acabava de dizer a Atos que tinha dormido com uma mulher. A sua frase surgiu como resposta a como ela se sentiu depois de ter tido relações sexuais com Vivica: “O dragão irresistível chegou e levou-me daqui para fora“.
Curiosamente, Tove critica a certo ponto o trabalho do seu pai, o escultor Viktor Jansson, dizendo que este é muito convencional na sua arte. Na verdade, o filme de Bergroth também ele cai frequentemente nas convenções e algum acdemismo, mas ainda revela-se um objeto intenso e retrospetivo de uma das figuras mais enigmáticas e interessantes da cultura nórdica.
Ao lado de “Tove“, na corrida ao Prémio Dragão, estão vários pesos pesados da região, incluindo “Another Round“, de Thomas Vinterberg, e “Pleasure” de Ninja Thyberg, o qual promete abalar o certame (e também o Festival de Sundance) com a história de uma jovem de 20 anos (a estreante Sofia Kappel) que aterra na Califórnia para iniciar uma carreira na indústria da pornografia. A concurso estão ainda “Gritt“, da norueguesa Itonje Søimer Guttormsen; “Tigers” de Ronnie Sandahl; “Sweat” de Magnus Von horn; e “Persona Non Grata” de Lisa Jespersen.
Portugal também marca presença no Festival de Gotemburgo, inserido na secção que atribuiu o Prémio Ingmar Bergman. O representante é “O Último Banho” de David Bonneville.








