Inicialmente agendado para julho (11 a 19), o Curtas Vila do Conde arranca finalmente a sua 28.ª edição este sábado, 3 de outubro, com “Casa de Antiguidades” como filme de abertura.
“É um festival muito querido para mim”, disse-nos o realizador João Paulo Miranda Maria em San Sebastián, onde a sua obra – que faz uma reflexão sobre a sociedade, a história e a cultura do Brasil – foi exibida com sucesso há uma semana.
Com todas as questões de saúde equacionadas e o extremo cuidado em seguir as orientações da DGS no que toca à pandemia, o Curtas Vila do Conde avança para uma nova edição que desde sempre se quis presencial. “Tínhamos uma ideia na cabeça, que era realizar o festival da forma que consideramos mais importante, ou seja, um festival presencial. Adiamos a data, fomos avançamos e assistindo a tudo o que ia passando e vimos como dar a melhor resposta com a data que entretanto marcamos para o evento, de 3 a 11 de outubro.”, explicou-nos Nuno Rodrigues, diretor do certame, adicionando que uma das medidas tomadas foi a defesa e apoio ao cinema português. “A competição nacional começa no primeiro fim de semana – não era habitual ser assim – e depois segue para o Cinema Trindade no Porto, em Faro no Auditório IPDJ, e em Lisboa no Cinema Ideal. É um formato que vai permitir conversas com os realizadores nos vários locais e vários pontos do país.”
Garantindo uma das competições nacionais mais fortes dos últimos anos, Nuno Rodrigues destaca “o regresso de um conjunto de autores que já fizeram parte da história do festival, com várias apresentações em competição, como Sandro Aguilar, João Rosas e Cláudia Varejão”, mas também a presença de novos realizadores, como a Denise Fernandes, que surge no Curtas pela primeira vez. “Há uma mescla de autores muito jovens com um primeiro filme e outros que até já têm prática na longa-metragem mas que regressam ao formato curto.”
Na competição internacional, há filmes de Sergei Loznitsa, Jafar Panahi, Ben Rivers, Ben Russell, Guy Maddin e Nicolás Pereda, entre outros, num dos programas mais fortes dos últimos anos.
Foco em Isaki Lacuesta

Artista multifacetado, o cineasta, produtor, cenógrafo, ensaísta, escritor e curador Isaki Lacuesta terá grande parte da sua obra cinematográfica inserida na secção InFocus do Curtas de Vila do Conde, realizando-se paralelamente a primeira exposição do autor em Portugal, a ter lugar na Solar – Galeria de Arte Cinemática.
Para Nuno Rodrigues, Lacuesta é uma das principais figuras do cinema espanhol e europeu, mas relativamente desconhecido do público português. “É uma figura multifacetada no sentido em que trabalha dentro do cinema, ora em território da ficção, ora em documentários, e também cinema experimental. É alguém que desenvolve peças com outras características para espaços museológicos e galerias. E é alguém que faz projetos em cruzamento com bailarinos, músicos, com pessoas que trabalham noutras áreas. Esse lado multifacetado é a cara do curtas. A identidade do Curtas está muito ligada aos diferentes formatos, sejam curtas, médias, longas, experimental, formatos híbridos, a relação com a galeria, a relação com a apresentação noutros contextos, e nesse sentido pareceu-nos evidente apresentar a obra dele e até incorporar na exposição alguns novos trabalhos criados durante a pandemia”
As Novas Vozes

Uma das novidades desta 28ª edição do Curtas Vila do Conde é uma nova secção não competitiva denominada New Voices. Nuno Rodrigues explicou-nos a razão para a criação deste novo espaço: “Enquanto o programa In Focus é dedicado a alguém que já tem um trabalho vasto, este New Voices mostra novas vozes na área do cinema de pessoas que já têm um conjunto de curtas ou uma primeira longa-metragem neste início de carreira.(…) . Este ano escolhemos três realizadoras que têm alguns pontos em comum. Qualquer uma delas acaba por ter pontos diferentes de ligação ao festival. A Ana Elena Tejera, uma panamiana que esteve a filmar uma longa que estreou em Roterdão, e que tem algumas curiosidades. Uma delas é que parte do filme foi rodado em Vila do Conde e na Póvoa do Varzim. É essa a ponte e a ligação prévia. Por outro lado, a Elena López Riera foi a vencedora do Grande Prémio no ano passado, e a Ana Maria Gomes é uma portuguesa que vive em França, cujo um dos seus filmes ganhou o prémio do público há cinco ou seis anos, e que agora fez este novo filme – Bustarenga – com quem fizemos a coprodução com França. Ao mesmo tempo, e apesar de linguagens (cinematográfica) diferenciadas, ambas têm muitos pontos em comum, como a relação com a identidade, com o regresso ao lugar de origem, até porque todas elas trabalham fora do seu país de origem”.
Cinema Revisitado

Esta secção inaugurada em 2019 aposta em programas especiais que visitam a história do cinema e este ano um dos focos de grande interesse do Curtas são alguns trabalhos publicitários de Jean-Luc Godard, uma seleção com curadoria de Nicole Brenez.
“O festival gosta de buscar coisas curiosas aqui e ali. Havia uma relação com a Nicole Brenez, que é atualmente uma das duas, três pessoas do mundo mais próximas do próprio Godard, e que também é uma curadora e crítica que trabalha para a Cinemateca Francesa. Há cerca de um ano e meio começamos a desenvolver esta ideia e ela é que desenvolveu a curadoria deste lado mais desconhecido de obras como trailers, filmes de publicidade, alguns dos quais não foram aceites pelas próprias entidades que as encomendaram. Eu diria que é um programa muito especial, não só no contexto nacional mas internacional. (…) Esta especificidade,já fizemos no passado com outros autores como o Saul Bass, que trabalhava para os trailers de Hitchcock.”
Outro dos destaques no Cinema Revisitado é a exibição da cópia digitalizada de “O Recado“, filme de 1971 de José Fonseca e Costa, que vai decorrer já este sábado pelas 21h45.
Há longas no Curtas
Em termos de longas-metragens, não é só “Casa de Antiguidades” que merece destaque. Desafiado pelo C7nema a escolher um único filme da programação, Nuno Rodrigues selecionou “First Cow” de Kelly Reichardt: “Um filme que não estreou em sala e que vai estar no Curtas é de uma cineasta que considero das mais interessantes da atualidade e que o festival dedicou uma retrospetiva há quatro anos. A Kelly Reichardt. Eu sugeria as pessoas a verem o First Cow.”
Edição presencial e online
Apesar de defenderem um festival presencial, a organização do Curtas não deixou de pensar em alternativas, até pela incerteza em relação à pandemia. “Não sabíamos se haveria um segundo confinamento e tínhamos de ter as coisas preparadas para de uma forma ou outra apresentarmos o Festival”, diz Nuno Rodrigues, adiantando que com esta nova faceta surge igualmente uma nova oportunidade. “Qualquer pessoa em qualquer canto do país que tem dificuldade em movimentar-se ou que na sua vila, cidade ou aldeia não tem cinema, tem aqui uma possibilidade de assistir ao Curtas”.
Toda a programação do Curtas pode ser consultada em http://festival.curtas.pt/

