Em Sarajevo, o vento soprou a favor de Stefan Đorđević: “Wind, Talk to Me” vence festival

(Fotos: Divulgação)

Numa 31.ª edição marcada pelas homenagens e distinções pela carreira a Willem Dafoe, Stellan Skarsgård, Ray Winstone e Paolo Sorrentino, o Festival Internacional de Cinema de Sarajevo escolheu como melhor filme da sua competição Wind, Talk to Me (Vetre, Pričaj Sa Mnom), do realizador sérvio Stefan Đorđević.

Wind, Talk to Me

O júri, presidido pelo realizador ucraniano Sergei Loznitsa, elogiou a abordagem corajosa e pessoal do cineasta sérvio, que inicialmente pretendia realizar um documentário sobre a mãe, mas teve o projeto interrompido com a sua morte. Anos depois, ele reencontrou a família para celebrar o aniversário da avó e, enquanto tenta, ao mesmo tempo, concluir o filme inacabado, resgata um cão abandonado. Estes eventos contribuíram para construir “uma jornada introspectiva sobre a perda, a memória e os laços familiares“, que convenceu o júri do certame, composto ainda por Dragan Mićanović (ator), Emanuel Pârvu (realizador), Ena Sendijarević (realizadora), e Tricia Tuttle (diretora do Festival de Cinema de Berlim).

Já o prémio de Melhor Realização foi atribuído a Ivana Mladenović pelo seu Sorella di Clausura, descrito como “uma corrente dostoievskiana de falhas acumuladas que deságua numa comédia romântica sem romance“. Já na atuação, o júri optou por uma escolha coletiva: o prémio de Melhor Atriz foi entregue ao quarteto de atrizes de Fantasy — Sarah al Saleh, Alina Juhart, Mia Skrbinac e Mina Milovanović — pelo carisma e autenticidade com que “encarnaram personagens que exploram as distâncias entre identidade e percepção“. O galardão de Melhor Ator coube a Andrija Kuzmanović, por Yugo Florida.

Our Time Will Come

Na secção de documentários, o destaque foi para Our Time Will Come (Unsere Zeit Wird Kommen), da austríaca Ivette Löcker, vencedora do Heart of Sarajevo para Melhor Documentário. A obra, que acompanha a relação intercultural entre uma austríaca e o seu marido gambiano, Victoria e Siaka, em Viena, foi elogiada por construir um espaço cinematográfico onde se cruzam o amor, a coexistência e a política do quotidiano. Já no formato de curta-metragem, o prémio foi para The Man’s Land (Kacebis Mista), da georgiana Mariam Bakacho Khatchvani, uma obra que “desafia uma tradição centenária com uma câmara íntima e montagem rigorosa“. Um Prémio Especial do Júri foi atribuído a In Hell With Ivo, da búlgara Kristina Nikolova, por “capturar com honestidade e compaixão a figura de um artista iconoclasta“, o artista queer e compositor Ivo Dimchev. A menção honrosa na categoria documental foi para I Believe the Portrait Saved Me, de Alban Muja, que usa a ferramenta da reconstituição para falar de sobrevivência e do poder redentor da arte.

Na competição de curtas-metragens, o grande vencedor foi Winter in March (Lumi Saadab Meid), da arménia Natalia Mirzoyan, também qualificado para os Óscares. O júri destacou a precisão e criatividade do filme, que conta uma história de conflito interno face ao colapso moral do seu país. A menção especial foi para Eraserhead in a Knitted Shopping Bag, da búlgara Lili Koss, uma obra lúdica e comovente sobre crianças que, nos anos 90 pós-comunista, criam o seu próprio mundo. Já na categoria estudantil, o prémio foi para Tarik, do sérvio Adem Tutić, um retrato visualmente marcante da masculinidade tóxica e da sensibilidade juvenil.

Dois prémios especiais destacaram o compromisso com causas sociais: o Prémio para a Promoção da Igualdade de Género foi entregue a God Will Not Help (Bog Neće Pomoći), da croata Hana Jušić; o Prémio Especial Perspetivas Jovens foi para DJ Ahmet, do macedónio Georgi M. Unkovski, uma “história leve mas profundamente comovente sobre jovens que desafiam tradições locais” — um filme que também recebeu o Prémio Cineuropa.

Entre os prémios atribuídos pelos parceiros do festival, Things Hidden Since the Foundation of the World, de Kevin Walker e Irene Zahariadis (Grécia, EUA), foi eleito candidato ao Prémio da Academia Europeia de Cinema para Melhor Curta-Metragem. Já White Snail, de Elsa Kresmer e Levin Peter, recebeu o Prémio CICAE, garantindo apoio à distribuição em mais de 3.000 salas de cinema europeias.

O Festival Internacional de Cinema de Sarajevo decorreu de 15 a 22 de agosto.

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