Fã incondicional de Ricardo Darín, sempre inconformado com a excelência onipresente na escrita de guião dos argentinos, o Brasil saiu premiado no mais prestigiado festival de seus hermanos sul-americanos, realizado em Mar Del Plata, desde os anos 1950: o troféu Astor Piazzolla de Melhor Longa-metragem ficou com “Saudade Fez Morada Aqui Dentro”.
O seu realizador é Haroldo Borges, integrante do coletivo baiano Plano 3 Filmes. Conhecido antes por “Filho de Boi” (2019), Borges assume o sentido da visão como foco da sua narrativa, que ganhou ainda a láurea de júri popular, o prémio humanista Signis, uma menção honrosa para o elenco e o troféu de Melhor Montagem, dado pela Asociación Argentina de Editores Audiovisuales. Na produção, Bruno, um adolescente de 15 anos que vive com a mãe e irmão numa pequena cidade no Brasil, recebe o diagnóstico de que está perdendo irreversivelmente a visão. Não se sabe em que momento exato virá a cegueira total. A sua única certeza é: ele vai parar de ver em breve. Enquanto se prepara para enfrentar um futuro inquietante, Bruno tenta lidar com as preocupações típicas de um menino da sua idade: ele conversa e dança com o irmão mais novo, joga futebol, participa em festas e fortalece uma amizade pintada a pigmentos românticos com uma colega de classe. É uma narrativa na qual o trágico se converte em um conto sobre aprendizagem coletiva.
Presente na cena dos grandes festivais do planeta desde a Berlinale, em fevereiro, “Mato Seco Em Chamas”, produção luso-brasileira, feita no Centro-Oeste, ao lado de Brasília, recebeu o Prémio Especial do júri na Competencia Latinoamericana de Largometrajes, construindo uma espécie de “Mad Max” feminino. Nessa seção, a vencedora foi a cineasta Laura Citarella, que comemorou a vitória de “Trenque Lauquen”, projetado antes em San Sebastián.
Título inaugural da seleção competitiva, “Tres Hermanos”, da Argentina, deu a Francisco J. Paparella o prémio especial do júri. Também portenho, “Cambio Cambio”, de Lautaro García Candela, obteve uma menção especial. Na categoria Melhor Realização, houve um empate entre Ana Garcia Blaya (por “La Uruguaya”) e Melisa Liebenthal, por “El Rostro de la Medusa”. O prémio de Melhor Interpretação foi entregue a Sonia Parada, por “Los De Abajo”. E o Melhor Argumento foi o de “There There”, de Andrew Bujalski.
“Lobo e Cão”, de Cláudia Varejão, conquistou um prémio da associação de fotógrafos de cinema da Argentina. A luz desenhada pelo fotógrafo Rui Xavier encantou plateias.
A Melhor Curta-Metragem de Mar Del Plata foi o brilhante ensaio ecológico cubano “Ánima”, de Manuel Matías Gómez. Já o Prémio da Crítica, concedido pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) foi concedido a “Tenho Sonhos Elétricos”, de Valentina Maurel, da Costa Rica.

