Quando morreu em 2002, ninguém sabia ao certo a idade de Doris Wishman, cujos trabalhos foram apelidados ao longo dos anos de “insípidos“, “subversivos” e naturalmente de “série B“. É que embora o seu passaporte tivesse uma data de nascimento, 23 de abril de 1920, fazendo dela 82 anos na época, Michael Bowen, o seu biografo, disse que os familiares acreditavam que ela tinha cerca de 90 anos.
Com o seu corpo de trabalho reavaliado depois da morte, Doris Wishman estará em grande destaque na próxima edição do IndieLisboa, a decorrer entre os dias 28 de abril e 8 de maio, numa parceria com a Cinemateca.
Nascida em Manhattan, Wishman desejava ser atriz e frequentou o Hunter College, estudando atuação. Porém, o único papel que conseguiu foi o de secretária no negócio de distribuição de filmes de um parente. Quando decidiu realizar e produzir filmes e fez um curso intensivo de cinema, já o seu marido, o publicitário Jack Abrahms, morrera em 1958.
Estreou-se em 1960, tornando-se pioneira da sexploitation feminina no cinema ao longo da década. Começou com os os chamados nudie cuties, dos quais se destaca “Nude on the Moon” (1961), onde dois astronautas descobrem uma colónia de nudistas na lua. O fracasso levou-a a operar em terreno dos roughies, subgénero que misturava nudez e violência gratuita, no qual meninas inocentes são corrompidas pela grande cidade grande e pelos homens que habitam nela. Em 1965 lançou aquele que é considerado o seu mais famoso filme, “Bad Girls Go to Hell“, mas muitos outros, como “The Sex Perils of Paulette”, “Another Day, Another Man” e “Love Toy”, encaixam nesse perfil.


E depois dos “nudies” e dos “roughies” chegou uma terceira fase na carreira de Wishman, com os filmes mais abertamente pornográficos e populares, denominados “chesties”, com a stripper polaca Chesty Morgan a liderá-los. Wishman fez duas longas-metragens com a vedeta dos 185 cm de peito: “Deadly Weapons” (1974), em 1973, em que a heroína busca a vingança pela morte do seu namorado gangster e sufoca os assassinos; e “Double Agent 73”, no qual é uma espia com uma câmara implantada num dos seios.

Afastada da indústria nos anos oitenta, foi encontrada pela artista Peggy Ahwesh em Miami, em 1994, a trabalhar numa sex shop. Uma “mulher obcecada com os temas do estatuto social e liberdade feminina, o drama contemporâneo do medo, desconfiança e o desafio entre os sexos”. Foi assim que Ahwesh descreveu o cinema daquela que até à data é a cineasta mulher com mais filmes realizados.
Peggy Ahwesh irá estar em Lisboa durante o festival, para acompanhar a retrospectiva que este ano mostra cinema só para adultos.

