Dupla vitória brasileira no desfecho da Berlinale: “Fogaréu” e “Três Tigres Tristes”

(Fotos: Divulgação)

Apesar de todo o processo de desmantelamento enfrentado pela cultura brasileira desde 2019, com a entrada de Jair Bolsonaro na Presidência, o seu cinema vem reagindo, como comprova o palmarés no desfecho da 72ª edição da Berlinale. Durante a fase “oficial”, restrita a jurados e convidados, de 10 a 16 de fevereiro, a curta-metragem do Rio de Janeiro “Manhã de Domingo”, de Bruno Ribeiro, centrado na ascese pessoal de uma pianista, foi agraciado com o Prémio do Júri da sua competição. Neste sábado, no anúncio da láureas do júri popular da seleção Panorama, o Brasil figurou entre os vencedores com “Fogaréu”, da goiana Flávia Neves, uma estreante que vinha de uma experiência com uma série documental para a TV. A sua produção foi a terceira longa de ficção mais votada pelo público no evento. Em primeiro lugar veio “Happiness”, de Askar Usabayev, do Cazaquistão, e, em segundo, “Klondike”, de Maryna Er Gorbach, coprodução entre a Ucrânia e a Turquia. Houve ainda uma votação em torno das longas-metragens da Panorama Dokumente, na qual ganharam: 1º: “Love, Deutschmarks and Death”, de Cem Kaya (Alemanha); 2º: “Nel Mío Nome”, de Nicolò Bssetti (Itália); e 3º: “Myanmar Diaries”, do Myanmar Film Collective (Holanda). Recorde-se que este último conquistou o Prémio de Melhor Documentário do Festival, na quarta-feira.

Experimento dramatúrgico no timbre do thriller, mas com alicerces etnográficos bem vincados, “Fogaréu” destrinça desigualdades fundiárias do Centro-Oeste do Brasil, especialmente aquelas ligadas à pecuária, com uma exclusão gradual da propriedade indígena. Taquicárdica, a montagem, assinada por Will Domingos e Waldir Xavier (também responsável pelo desenho de som), pontua um ritmo nervoso, que vai crescendo cena a cena, dando a uma cartografia do coronelismo um clima de suspense quase hitchcockiano. Suspense capaz de favorecer situações que avançam pelo terreno do chamado “extraordinário”, com chamas que brotam misteriosamente. Tudo é guiado pelo périplo de uma mulher, Fernanda (Bárbara Colen, de “Bacurau”) que regressa à paisagem goiana, em tempos da Procissão do Fogaréu, um ritual católico de capuzes, a fim de tentar saber a partit do tio, Antônio (Eucir de Souza, numa arrebatadora composição), a verdade sobre a sua mãe biológica. Pouco a pouco, atolada em tradições locais, e na descoberta da tendência daquela região em investir em casamentos entre primos, ela vai conhecendo novas formas de se institucionalizar o medo – mas também de desafiá-lo. De uma forma inusitada, o roteiro enxuto, escrito por Flávia e Melanie Dimantas, dá ao espectador uma heroína, que Bárbara constrói sempre nas franjas da resiliência.

Três Tigres Tristes

Na sexta à noite, o Brasil recebeu o troféu Teddy, simbólica distinção LGBTQI+ da Berlinale, atribuída a “Três Tigres Tristes”, de Gustavo Vinagre. A trama decorre em São Paulo, num futuro distópico, não muito distante do presente, quando um vírus que ataca o cérebro – sobretudo a nossa capacidade de lembrar – ameaça apagar vários afetos. Nesse cenário, o filme segue três jovens queer, que andam à deriva por uma cidade maculada pela pandemia e pelo capitalismo desenfreado, lembrando-se dos últimos amantes um do outro, compartilhando as suas experiências com o HIV.

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