Realizador de filmes como Terre battue (2014) e La Fille au bracelet (2019), Stéphane Demoustier estreou este ano, no Festival de Cannes, L’inconnu de la grande arche (2025), onde acompanha a história de Johan Otto von Spreckelsen, um desconhecido arquiteto dinamarquês que surpreendeu ao vencer o concurso internacional lançado pelo governo de François Mitterrand para projetar um edifício emblemático em Paris: o Grande Arco de La Défense.
Retratando a tensão entre a visão artística e as pressões políticas e apoiando-se na atmosfera política e cultural da década de 1980 – marcada pelo fim do romantismo de Mitterrand e pela ascensão de uma ordem liberal mais pragmática e dura, L’inconnu de la grande arche conta no elenco com Claes Bang, Sidse Babett Knudsen, Xavier Dolan e Swann Arlaud.
Aproveitando a exibição do filme na Festa do Cinema Francês, lançamos a nossa conversa com o cineasta em Cannes – onde abordámos a génese do projeto e os principais desafios que ele encontrou nas filmagens.

Como cineasta, qual é o seu interesse na arquitetura?
O que me interessa na arquitetura é que levanta questões de espaço e de tempo, muito próximas do trabalho de um cineasta. Há uma evidente ligação entre fazer um filme e erguer um edifício. E porque se constrói na cidade, na polis, a arquitetura tem também uma dimensão política. E a arte, de alguma forma, também é política. Além disso, um edifício é a manifestação material de uma ideia. O cinema pode tentar representar isso.
E como nasceu este projeto e de que forma desenvolveu a ideia? É um filme sobre um arquiteto ou um filme político sobre uma época?
No início, o que me despertou a atenção foi um livro sobre o Grande Arco de La Défense e, de forma mais geral, sobre o bairro de La Défense. Percebi que não sabia quem era o seu arquiteto. Todos os franceses conhecem o monumento, mas quase ninguém conhece o seu autor. Essa ausência intrigou-me. Mesmo no livro, havia pouquíssimas informações sobre ele, porque morreu cedo e a sua vida nunca foi realmente documentada. Esse ponto cego interessava-me e quis explorá-lo através da ficção, mas com uma base real: a realidade técnica do estaleiro, o contexto político da época e a forma como, em 1986, o romantismo de Mitterrand deu lugar a uma ordem liberal mais dura e pragmática, que ainda vivemos hoje.
Quanto tempo demoraram as filmagens?
Foram 31 dias.
Quais foram os maiores desafios da produção?
Dois em particular. Primeiro, recriar a época, o que é sempre caro: roupas, carros, cenários. Depois, representar o estaleiro, recorrendo a efeitos visuais, mas dentro de um orçamento modesto para a ambição do filme, menos de sete milhões de euros. Como não podíamos reconstruir o estaleiro ou recriá-lo integralmente em digital, trabalhámos com fotografias de arquivo animadas, nas quais inserimos as personagens. Essa solução, pensada com a equipa de efeitos e o diretor de fotografia, revelou-se muito eficaz.
O filme funciona também como sátira política…
Sim, há uma sátira ao ambiente de corte em torno de Mitterrand, quase como um rei rodeado pelos seus cortesãos. Mas também quis mostrar a grandeza do projeto: o concurso foi aberto e internacional, e a escolha recaiu num arquiteto dinamarquês de 53 anos praticamente desconhecido. Há algo de visionário e ousado nisso.

Como pensou a recriação visual dos anos 1980?
Não queria um fetichismo histórico, mas sim o espírito da época. Com o diretor de fotografia, inspirámo-nos em documentários de Raymond Depardon, na cor e no enquadramento. No estaleiro, as máquinas eram todas vermelhas, uma marca da empresa de construção. Usámos isso no filme como elemento visual forte.
E como surgiu o elenco? Já tinha nomes em mente enquanto escrevia o argumento?
Não. Por exemplo, descobri o Claes Bang em The Square (2017) e pensei que fosse sueco. Quando descobri que era dinamarquês, pareceu-me perfeito. Ele trouxe uma nobreza essencial à personagem, um idealismo sincero, mas também frágil. O seu porte físico, imponente, reforçou a ideia de alguém que vem de outro lugar e que está em desfasamento.
A vida privada do arquiteto e da mulher também faz parte da narrativa. Esses elementos foram inventados durante a escrita?
Sim. Sabia-se muito pouco sobre a esposa dele, apenas que o acompanhava sempre mas não falava. Decidi criar, de forma ficcional, uma personagem que representasse essa presença indispensável. A ideia de que, sem ela, ele se desmoronava, ajudou-me a estruturar a relação no filme.
As personagens que vemos em cena são todas baseadas em pessoas reais?
Não. A personagem interpretada por Xavier Dolan é uma fusão de duas figuras reais ligadas ao Estado. Achei mais legível criar uma só personagem. Isso deu-me liberdade para inventar.
Surpreendeu-nos vê-lo como um tecnocrata francês.
Foi um contra-pé. Apesar de ser canadiano, ele tem uma energia e uma ambição que encaixaram bem na personagem. O que mais me impressionou foi que nunca julgou o seu papel. Pelo contrário, encarou-o como alguém que também servia a construção da Grande Arco. Isso convenceu-me.

Exibição na Festa do Cinema Francês
Sábado, 4 de outubro 2025 – 18:30
Cinema São Jorge – Lisboa

