Nesta edição do Fantasporto esteve presente o jovem realizador japonês Kurando Mitsutake, apresentando em antestreia mundial o seu novo filme Samurai Avenger: The Blind Wolf, um autoproclamado “spaghetti sushi” ou, sem referências gastronómicas, um “western samurai”.
No filme, Blind Wolf (um samurai cego, interpretado pelo próprio realizador) e The Drifter (um motoqueiro vestido de cabedal, à procura de aventuras) unem-se nas redondezas do Vale da Morte (no deserto Mojave) para lutarem contra sete assassinos-samurai contratados pelo pérfido Nathan Flesher, um barão do crime do deserto.
Nesta sucessão de confrontos, vamos conhecendo as motivações dos heróis (vingança à oriental) e aprendendo em detalhe todos os termos e técnicas dos samurais. Num estilo reminiscente de Kill Bill e até Zatoichi, este filme de samurais em estética western utiliza paragens narrativas estilizadas para ensinar o espectador como fazer determinado golpe, ou como pode um sabre cortar outro.
O seu realizador, Kurando Mitsutake, nasceu no Japão mas, na altura de estudar cinema, emigrou para Los Angeles, onde foi trabalhando na indústria cinematográfica como complemento dos seus estudos. Em 2007, estreou-se na realização com o “direct-to-video” Monsters Don’t Get to Cry.
O C7nema teve a oportunidade de entrevistar Kurando na noite a seguir à estreia em Portugal do seu filme, e ainda falar com ele umas semanas mais tarde para recolher algumas impressões sobre Portugal e o Fantas.
Sobre Blind Wolf
Qual o objetivo de Blind Wolf?
Boa e sangrenta diversão! É um grande tributo ao cinema de samurais e aos westerns, e parece-me que quem gostar deste género de filmes irá achar que é um filme especial.
O Samurai Avenger faz lembrar Kill Bill de Quentin Tarantino, pela irreverência gore com que cria um western com samurais. Quais foram as principais inspirações para o teu filme?
Na realidade, quer Samurai Avenger quer Kill Bill são inspirados pelos mesmos filmes: clássicos do cinema japonês dos anos 70, como Lone Wolf and Cub, Zatoichi e Lady Snowblood – filmes de samurais, todos eles, extremamente violentos. Foi com estes filmes que eu cresci, daí a minha paixão pelos samurais.
Mas sou um entusiasta do Kill Bill e da cinematografia do Tarantino, nomeadamente pela forma como revisitou esses filmes de que eu tanto gosto.
Gostas do trabalho de ator? Porque escolheste ser o ator principal do teu filme?
Eu gosto muito de atuar – é uma experiência muito divertida “viver” a vida de uma personagem num set.
No entanto, se pudesse ter escolhido, não teria sido ator e realizador ao mesmo tempo. No caso de Samurai Avenger, foram motivos económicos que me levaram a assumir o papel do protagonista. Ajudou-me a poupar muito tempo e dinheiro; foi importante para tornar esta produção de baixo orçamento possível.
Por exemplo, quando outros atores estavam a ser maquilhados para as cenas de gore, eu estava disponível para os meus close-ups. Este tipo de situações poupou-nos muito tempo.
Sobre a carreira
Foste estudar cinema para Los Angeles e lá começaste a tua carreira. Porquê esta decisão?
Por um lado, queria muito a experiência de estudar e trabalhar fora do Japão. Por outro lado, o mercado de trabalho na área do cinema no Japão tornou-se muito limitado e restritivo. A produção está cada vez mais nas mãos de duas ou três empresas, baseadas no poder televisivo. Los Angeles é o maior mercado de trabalho do mundo em termos de audiovisual.
Qual é a tua posição sobre os remakes americanos de filmes japoneses (e asiáticos no geral)?
Infelizmente, parecem-me feitos para ganhar dinheiro, mais do que por terem algo novo para dizer.
Em Hollywood, os argumentistas têm grandes casas e são muito ricos. Os filmes de argumento original levam, por vezes, dois ou três anos a serem escritos. Por isso, os produtores avançam com remakes, pois são mais rápidos a desenvolver e têm fórmulas já testadas.
Parece-me que, com a crise financeira, Hollywood tem cada vez mais pressão para investir pouco num filme (ou seja, num argumento) e tentar gerar mais resultados.
Parece-te que Hollywood está a ser afetada pela crise?
Toda a gente teme isso. Toda a gente teme que a produção de filmes abrande e que os orçamentos diminuam. Daí tantos remakes e sequelas: são mais baratos a desenvolver e têm resultados de vendas muito melhores. Mas a verdade é que o box office tem sido bom, até muito bom.
É o teu plano ficar pelos EUA ou planeias voltar para o Japão?
Eu gostava de ficar em Hollywood. É mais fácil financiar projetos e é, acima de tudo, mais fácil e mais barato encontrar técnicos e atores para o teu filme. É a economia de escala a funcionar a favor do realizador. Mas se as coisas não correrem bem, e se não for sustentável, terei mesmo de voltar para a terra-mãe.
Foste ator na série de televisão Heroes, e assistente de realização no remake americano de Shutter. O set de filmagens de uma série de televisão é muito diferente do de um filme?
As séries de televisão produzidas em Hollywood têm uma grande estrutura – na realidade não se nota uma grande diferença entre o set de uma grande série ou de um filme.
Tens algum novo projeto na calha?
Estou a preparar-me para escrever uma sequela de Samurai Avenger: The Blind Wolf. Tenho também outros argumentos que estou a desenvolver. Na realidade, tudo dependerá do alinhamento das estrelas e de encontrar o produtor ou o investidor que queira dar luz verde a qualquer um desses projetos.
Sobre o cinema japonês
Quais dirias que são os 5 filmes japoneses que recomendarias a um espectador português que não conhecesse nada dessa cinematografia? Qual é o “Japanese Cinema Starter-Kit”?
Essa é uma pergunta muito difícil! Mas se tivesse de escolher os cinco melhores exemplos de cinema japonês, escolheria Seven Samurai (de Akira Kurosawa), Hana-Bi (de Takeshi Kitano), Ringu (de Hideo Nakata), The Man Who Stole the Sun (de Kazuhiko Hasegawa) e Lupin the Third: The Castle of Cagliostro (de Hayao Miyazaki).
Qual é a tua posição em relação ao cinema japonês atual?
Nos anos 80 o cinema japonês era artisticamente muito rico, mas o público não lhe prestava muita atenção. Felizmente isso mudou, mas parece-me que nos últimos anos houve um retrocesso muito grande. As empresas televisivas dominam o negócio do cinema, e isso tem atrofiado muito o setor. Procuram lucros imediatos, ou com filmes chorões, ou então com filmes de terror reminiscentes do sucesso que foi Ringu.
Muitos espectadores ocidentais confundem o cinema japonês com o da Coreia do Sul. Infelizmente, os filmes da Coreia do Sul têm sido feitos com mais dinheiro, mais liberdade criativa e têm tido muito mais impacto. Esperemos que o cinema japonês consiga resolver os seus problemas internos.
Sobre Portugal
Gostaste do Fantasporto? Que te pareceu em comparação com outros festivais?
Infelizmente apenas estive no Fantasporto durante dois dias. Perdi muita da emoção, até porque o meu filme passou no primeiro fim de semana (em antestreia mundial). Mas gostei muito do festival e fiquei cativado pelo entusiasmo do público português. Devo confessar que o público que foi ao screening do meu filme foi do melhor com que já estive.
Gostaste do Porto?
Definitivamente, é um destino para voltar. Pelo pouco tempo que tive, apenas pude conhecer o centro histórico, que me cativou bastante. Os portugueses são muito simpáticos e a comida é espetacular.
Conheces o cinema português? Nomeadamente o realizador portuense Manoel de Oliveira?
Infelizmente, quer o mercado americano quer o japonês estão inundados de filmes próprios. É muito difícil um filme europeu conseguir ter um grande protagonismo, alguém tem de o elevar a um grande nível de popularidade.
Devo confessar que nunca vi um filme português. No Japão, quando não somos confrontados com o cinema asiático (não necessariamente nipónico), somos confrontados com o americano. Chegam-nos os grandes filmes europeus. O mesmo se passa nos EUA.
Mas conheço o Manoel de Oliveira de nome. É o realizador dos 100 anos de idade (risos).
Sobre a internet
Qual a tua posição em relação à imprensa baseada na internet, nomeadamente, os sites de cinema como o C7nema.net? Que papel achas que a internet tem no cinema contemporâneo?
Parece-me que a internet consegue elevar os pequenos filmes e pô-los lado a lado com os grandes. O fosso entre o grande cinema de Hollywood e o cinema emergente já não é tão grande, e a internet foi essencial para isso. Cada vez mais os espectadores e os cineastas estão próximos. Se tiveres um filme pequeno e orientares bem a tua campanha de marketing, especialmente através da internet, podes conseguir grandes resultados.
Relativamente à imprensa baseada na web, o mesmo se passa. No cinema, mais até do que noutras áreas, os sites estão lado a lado com a imprensa escrita.

