Júri de Marraquexe ataca o avanço capitalista da IA

(Fotos: Divulgação)

Das falas que mais (e melhor) reverberaram na conferência de imprensa do júri do 22.º Festival de Marraquexe, nenhuma correu mundo mais depressa do que a análise do cineasta sul-coreano Bong Joon Ho sobre o papel da inteligência artificial na cultura cinematográfica:
“Vou organizar um esquadrão militar, e a missão deles é destruir a IA”, brincou (#sqn) o artista que retratou um futuro dos mais alternativos (e digitais) no grande ecrã este ano, com Mickey 17.

É ele quem preside ao júri convocado para Marrocos para perceber que caminhos a arte há de trilhar, nos ecrãs, a partir da eclosão de novíssimas vozes autorais. É para elas que se abre o certame anual de Marraquexe, dedicado a cineastas em fase de estreia, na sua primeira ou segunda longa-metragem.

“Estou aqui para descobrir alguém louco e desafiante. Só os jovens têm esse poder”, disse Bong, cuja presença em terras marroquinas confirma uma tradição que a maratona cinéfila de Marraquexe mantém desde a sua inauguração, em 2001. “A IA é uma prova daquilo que só a Humanidade é capaz de criar.”

O evento é famoso por ter júris estelares, por vezes tão hollywoodianos quanto os de Cannes e Veneza. Os seus júris chegam por vezes a eclipsar as estrelas que estão na competição oficial, que, em 2025, mobiliza 13 títulos de diferentes cantos do planeta. Bong, que fez história ao ganhar três Óscares e a Palma de Ouro com Parasitas (2019), foi incumbido de comandar a comissão julgadora da 22.ª edição do festival, cuja distinção principal se chama Estrela de Ouro. As atrizes de quilate pop Jenna Ortega (a personagem Wednesday da Netflix) e Anya Taylor-Joy (de O Gambito da Rainha) serão juradas também, assim como as cineastas Julia Ducournau e Celine Song, os realizadores Hakim Belabbes e Karim Aïnouz e o actor Payman Maadi.

“É importante assegurar às pessoas o direito de formular as suas próprias ideias, o que nasce da contemplação. Isso torna-nos mais humanos”, disse Jenna ao C7, pouco depois de citar Sunrise (1927), de F. W. Murnau, como um dos espectáculos audiovisuais que moldaram o seu olhar.

Na manhã deste sábado, ela e as/os colegas juntaram-se no Palácio do Congresso de Marrocos, para expor as bases do que esperam de Marraquexe.

“No meio de toda a colonização que impuseram às nossas mentes, a nossa tarefa aqui é defender a humanidade”, afirmou Celine, culpando o capitalismo pelas alienações que o cinema autoral tenta dissipar ao apostar na independência, num contexto histórico de poluição visual e auditiva.

“Quão alto precisa uma pessoa de falar hoje para que a sua opinião seja ouvida? Talvez, diante deste contexto, o silêncio, que pode parecer desconfortável, seja essencial para a escuta”, disse Anya Taylor-Joy, em resposta ao C7.

Único representante da língua portuguesa no júri, o brasileiro vindo da Argélia Karim Aïnouz, cearense de berço (vindo do estado do Ceará, no Nordeste), que ganhou visibilidade com Madame Satã (2002), A Vida Invisível (2019, prémio Un Certain Regard) e Motel Destino (2024), usou o seu tempo na conferência para dissecar o fim das fronteiras entre o real e o ficcional.

“A sensação de intimidade é o que mais me move nesta selecção, sem me interessar se é ficção ou documentário, pois existe um espaço híbrido, que não se encontra facilmente noutros festivais. Para mim, o Cinema é mais uma questão de personagem do que da forma como se conta”, disse Karim.

A voz mais activa na mesa, a vencedora da Palma de Ouro de 2021 (por Titane), Julia Ducournau, declarou qual é o ethos do colectivo chefiado por Bong: “Estamos aqui para sentir, não para criticar”, afirmou a cineasta francesa, antes de defender a relevância da revisitação de longas do passado, como é o caso de Jeanne Dielman (1975), de Chantal Akerman (1950-2015), uma produção lançada há 50 anos e hoje encarada como um dos melhores filmes da História. “É um processo de imersão espectacular na vida de uma mulher, que nos oferece uma experiência única da vivência feminina.”

Marraquexe segue com o seu festival até 6 de Dezembro, quando o júri anuncia as distinções, antes da projeção de Palestina 36.

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