Entrevista a Christopher Nolan – ‘Insomnia’ (2002)

(Fotos: Divulgação)

Porque é que escolheu o filme Insomnia para se seguir ao Memento? O que é que o atraiu no guião original?

Achei uma situação fascinante e psicologicamente muito atrativa. É um dilema moral grande, levado numa direção no filme original, que é um filme muito bom, mas, após o ter visto, ocorreu-me que, ao mudar as personagens, mantendo a mesma situação, o mesmo drama psicológico intenso entre duas personagens, poderia levá-lo numa direção diferente e criar um novo paradoxo moral.

Houve muita pressão para que o filme a seguir ao Memento fosse um original? As pessoas ficaram surpreendidas por estar a fazer um remake?

Para ser honesto, comecei a trabalhar no Insomnia uns meses antes de Memento estrear, por isso não vi o filme como algo que as pessoas pensassem ser um seguimento do que tinha feito anteriormente — não sabíamos a projeção que Memento iria ter. Achei que deveria ser livre para seguir o que me inspirasse e que eu gostasse. Achei o original muito apelativo.

Acha que trabalhar com um orçamento tão alargado teve constrangimentos ou restrições em termos de opções no seu terceiro trabalho como realizador?

Acho que cada filme que fiz aumentou o orçamento de forma espontânea e achei o processo similar em todas as etapas. No fim do dia, era apenas sobre as filmagens feitas — que é o que de facto aparece no ecrã. Por isso, todas as outras coisas, que na realidade estão a custar muito dinheiro em termos de fazer alguma coisa numa escala maior, são aspetos que não afetam o processo criativo de organizar imagens ou criar narrativas.

Tinha já pensado em Al Pacino e em Robin Williams quando começou a trabalhar no filme?

Quando estou a trabalhar no guião tento não pensar nos atores, porque acho que isso limita um pouco a escrita. Começa-se a escrever personagens que eles já fizeram. Eu e a Hillary falámos sobre isso e deve-se ver as personagens como pessoas. Foi isso que tentei fazer desde o início e, felizmente, a Warner Bros e a Alcon achavam o mesmo. Por isso pensámos que Will Dormer deveria ser um ator substancial. Alguém que já tivesse um público que o apoiasse e identificasse com certas personagens, para poder já contar-se com uma certa simpatia, e depois pegar-se na história e levá-la para um lado totalmente inesperado. Pacino enquadrava-se totalmente, porque ele fez grandes polícias no passado e a minha ideia era pegá-lo e levá-lo noutra direção, afastá-lo da figura ícone do polícia e também dos estereótipos dos filmes. Al, para além de ser um dos melhores atores que jamais viveu, tem também um certo carisma que achei que a personagem deveria ter para levar o público para esta situação negra. E depois, claro, quando se tem o Al Pacino na personagem principal, tem de se encontrar outro ator de presença forte para contracenar com ele. Robin Williams tem esse carisma e esta forte identificação no público — foi fantástico virá-lo do avesso. Ele desempenha uma personagem muito negra mas muito real, que nunca ninguém o tinha visto representar.

O Robin foi ter consigo com o projeto ou procurava contratar alguém contra o tipo estabelecido?

Bem, foi uma ideia muito arrojada, mas já não me lembro de que lado surgiu primeiro, do nosso ou do deles… não ousei pensar que ele aceitasse representar algo tão diferente do que tinha feito no passado, mas, na realidade, ele estava à procura de um desafio destes nesta altura. Assim, as coisas juntaram-se naturalmente. Acho que o Robin estava muito entusiasmado com a ideia de trabalhar com o Al Pacino. Não tinham trabalhado juntos, mas admiravam o trabalho um do outro.

Acha que a culpa desempenha um papel muito relevante na conduta psicológica das personagens?

Para mim, o filme é sobre respostas à culpa e temos duas personagens que lidam com a culpa de modos opostos. De facto, é isso que torna a relação deles bastante interessante. No aspeto temático, o filme diz alguma coisa sobre a culpa como definição da moralidade ou sugestão de moralidade. Ambas as personagens entram, ao seu modo, em transgressão como resposta à culpa.

Achou complicado extrair sentimentos tão negros do filme enquanto filmava em plena luz do dia? A justaposição de tudo ser descoberto à luz do dia através de sentimentos tão negros?

Ocorreu-me, e discuti isto bastante com o diretor de fotografia, Wally Pfister, que ter a luz do dia como constante plano de fundo permite criar imagens ainda mais negras do que se teria se se filmasse durante a noite, porque à noite tem de se usar iluminação artificial, tem de se pôr lâmpadas na sala, esse género de coisas. O que tentámos criar foi interiores escuros em que, no fundo da sala, houvesse uma janela que escoasse luz e que permitisse criar silhuetas escuras, formas, profundidades interessantes. Num interior escuro, onde efetivamente uma pessoa se pode afastar da luz e esconder num canto. Assim, pode-se de facto criar um filme mais negro durante horas diurnas do que filmado à noite.

Como foi filmar no Alasca? Tinha noites claras?

Quando acabámos de filmar algumas cenas em junho, estava já muito claro durante a noite. O sol desce mais do que a linha do horizonte e, por isso, não há luz solar total, mas de qualquer modo é um ambiente estranho.

As pessoas ainda lhe perguntam constantemente sobre o Memento?

Claro, perguntam-me constantemente, mas recentemente têm sido mais recetivas ao enigma da história.

Insomnia e Memento são filmes muito negros — tenciona fazer uma comédia?

Bem, eu acho-os bastante engraçados, talvez mais ninguém concorde. Gostava de fazer todo o tipo de filmes, talvez excluindo os musicais, porque todos os outros têm interesse para mim. Muito do que se passa nestes dois filmes é de facto de uma seriedade negra mas, de qualquer modo, conseguem arrancar boas gargalhadas.

Em que medida realizar Insomnia foi diferente de realizar uma história que tinha sido escrita por si? É isso que tenciona fazer no futuro?

Escrevi os meus outros dois filmes, este é o primeiro que faço a partir de uma história escrita por outra pessoa. Penso que no futuro vou estar recetivo a ambos os modos de trabalhar. Há algo de libertador em pegar no argumento de outra pessoa, porque se pode ser muito mais objetivo… quando somos nós a escrever, somos muito mais envolvidos pela história e torna-se difícil mantermo-nos focados. É agradável pegar em algo já criado e depois aplicar a nossa própria criatividade, como realizador, a algo que já tivemos oportunidade de julgar, de modo muito mais objetivo.

Foi difícil conseguir o diretor de fotografia (Wally Pfister) e o editor de Memento para Insomnia?

Tive muita sorte, embora o Memento ainda não tivesse estreado. Quer a fotografia quer a edição tinham muito a ver com o filme que Memento foi e teriam um papel relevante no filme que Insomnia teria de ser. Por isso, toda a gente foi bastante recetiva ao facto de eu querer trabalhar com a mesma equipa.

Tem alguma história relacionada com a fama desde que realizou Memento?

Tem sido tudo muito louco e estranho, mas quando se vai trabalhar todos os dias com o Al Pacino e com o Robin Williams começa-se a achar normal esta insanidade e a estranheza de trabalhar com pessoas que crescemos a ver nos filmes. É algo bizarro de se fazer mas, assim que se começa a trabalhar com estas pessoas e a ver o seu próprio método de trabalho e modo de representar, que foi o que crescemos a ver nos filmes, torna-se muito estimulante. É realmente um grande privilégio.

O Robin manteve-se na personagem nos intervalos?

O Robin é extremamente divertido. Está sempre a dizer piadas e, como muitos bons atores, é perfeitamente capaz de se separar da personagem até ao momento antes de entrar em cena. Nunca tinha trabalhado com o Robin — achei-o muito divertido o tempo todo. Foi-me dito por ele e por muita gente que ele estava mais controlado neste filme, porque precisava de uma atmosfera menos divertida e mais negra à sua volta. Tem uma mente brilhante, surgia constantemente com observações e críticas. Isso é algo que o Robin dá sempre, acho.

Encorajaram o Al ou o Robin a ver o original?

De modo nenhum e, na realidade, eu também não vi o original assim que comecei o projeto, porque não queríamos deixar de fazer coisas porque estavam no original ou não fazer coisas por estarem no original. Não queria fazer nenhum filme reativo. É um filme que trabalha de modo dramático, totalmente diferente do original, especialmente no que toca à caracterização. As principais diferenças são que tentámos fazer o contrário do que o original tentou fazer, especialmente nas diferenças das personagens. Por isso, em relação aos atores, fiquei bastante satisfeito que eles trabalhassem a partir do guião.

Qual foi o máximo de tempo que esteve sem dormir?

Bem, mesmo quando estávamos a acabar o filme, a minha mulher, que também trabalha no filme, deu à luz uma menina e ela manteve-nos acordados intensivamente durante algumas semanas. Foi sem dúvida o tempo que dormi menos e era mesmo assim que estava quando acabámos de editar o filme. Foi uma experiência educativa.

Tem planos de colaboração com o seu irmão no futuro?

Sim, estamos a trabalhar em algo juntos agora, mas a biografia de Howard Hughes é a próxima coisa que vou escrever.

Algum ator ou atriz com quem gostasse de trabalhar?

Sinto-me bastante bem por ter trabalhado agora com o Pacino, o Robin e a Hilary — foi gratificante trabalhar com os atores com quem tive oportunidade de trabalhar. Tenho tido muita sorte nesse aspeto, porque em Memento trabalhei com o Guy Pearce, Joe Pantoliano e Carrie-Anne Moss. Não sei, talvez tenha posto a fasquia muito alto em relação a com quem trabalho, mas é uma boa posição para se estar!

Em relação à Hilary, foi uma decisão consciente trabalhar com uma atriz mais nova do que no original?

A personagem do guião é muito diferente da personagem que aparece no filme original, e a juventude é sem dúvida uma prova disso. Esta é uma personagem que está a começar a sua carreira na polícia e esse fator é muito importante para a sua relação com a personagem de Al Pacino.

Usou muito a Internet?

A minha mulher está sempre online. Eu não gosto especialmente de computadores. Usei a Internet para pesquisa e, nesse aspeto, é uma ferramenta muito útil. Uso a Internet em termos de comunicação mais para contactar pessoas por e-mail e coisas assim. Mas a nossa experiência com Memento mostrou-nos que a Internet é um meio muito útil de promover o filme. Para os amantes de pequenos filmes foi de grande valor. Mas deixei essa função para o meu irmão mais novo — ele é que é o entendido em computadores de nós os dois.

Electric Arts./Cátia Simões/c7nema

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ex3y

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