Javier Porta Fouz faz do Bafici uma mina do cinema de autor

(Fotos: Divulgação)

Maratona de cinema de autor, o Festival Cinema Independente de Buenos Aires, o Bafici, fez uma triagem das temáticas mais urgentes (e mais recorrentes) da América Latina na atualidade, com foco nos fantasmas do feminicídio; nos ranços ditatoriais dos anos 1960, 70 e 80; e nos eclipses da condição masculina. Temas como esses foram garimpadas no conjunto de títulos submetidos ao evento, arquitetada sob a curadoria do crítico Javier Porta Foz, o atual diretor artístico do certame. Ligado ao Bafici desde 2001, ele conversou com o C7nema sobre o atual estado de coisas de um país assolado pelo avanço da ultradireita. Programador, pesquisador e pensador da cultura portenha, Porta Fouz deu espaço à língua portuguesa em diferentes frentes da seleção, com filmes que carregam brasilidade (Minha Mãe É Uma Vaca, de Moara Passoni) e alma lusitana (Cartas Telepáticas, de Edgar Pêra) em diferentes seções.  

Diretor artístico do Bafici, Javier Porta Fouz integra a equipa do evento desde 2001, tendo exercido diferentes funções

Qual é o desenho estético do Bafici e como ele se comporta na cena latina dos festivais?

Tivemos 3.900 filmes inscritos este ano. Entraram 300. É uma prova de que muita gente quer estar conosco, pelo prestígio que conquistámos como um lugar de referência. Quando comecei no evento, em 2001, não deveria haver mais de 20 longas metragens argentinas. Hoje, na produção argentina, temos cerca de 50 curtas e 50 longas… ou mais. Temos hoje mais cineastas e mais técnicos, isso em quase todo o país. É um cinema grande e diverso.    

Nesta era Javier Milei, o que mudou para o cinema argentino?
 
As políticas cinematográficas estruturadas não foram acompanhadas, não foram continuadas, sobretudo no campo da distribuição e da exibição. Os nossos filmes têm menos espectadores do que deveriam. Não sei ainda qual é a ideia de hierarquização da cultura que pretendem.

Como você avalia o espaço para a produção latina, dos demais países das Américas, na programação do Bafici?

Temos, por exemplo, “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, do Brasil, entre outros títulos, mas não estamos num período em que os grandes festivais, sobretudo os da Europa, têm olhado muito para as produções da América Latina

Ao mesmo tempo que sua direção artística celebra os novos autores da contemporaneidade, ela abre espaço às pérolas do passado, como a filmografia de Jacques Rozier (1926-2023), o realizador de “Maine Océan” (1986), numa retrospectiva de títulos como “Les Naufragés De L’île De La Tortue” (1976). O que essa imersão na obra dele traz para o Bafici?

Rozier é um realizador fundamental, mas só vimos uma longa metragem dele na Argentina. Rever os seus filmes… ou ver os seus filmes… é fundamental, assim como reencontrar obras de Raoul Ruiz, que trouxemos para uma seleção do Chile.

A cada dia de projeção no festival, as sessões são antecedidas por trechos de uma entrevista sua com a produtora Lila Stantic. O que a carreira dela simboliza para o cinema argentino?

Lila tem a capacidade de olhar e de procurar as novidades que estão a acontecer e ainda não foram identificadas. Por essa habilidade, esteve ligada a longas-metragens que são uma chave para diferentes momentos do nosso cinema, como La Ciénaga – O Pântano e Camila, que foi um grande sucesso.     

Que grandes estrelas de autor deseja trazer ao Bafici em edições futuras?

Marco Bellocchio, Louis Garrel, Clint Eastwood, Kathryn Bigelow, Wes Anderson, Quentin Tarantino.

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