Katherine Waterston: “quando a escrita é boa, a química é fácil de encontrar”

“O Mundo Vindouro” já se encontra disponível em VOD

(Fotos: Divulgação)

Muitos descrevem a carreira da atriz Katherine Waterston como discreta, mesmo que ela já tenha trabalhado com nomes como Paul Thomas Anderson (Vício Intrínseco), Danny Boyle (Steve Jobs), Alex Ross Perry (Queen of Earth) e Ridley Scott (Alien: Covenant).

A Tina Goldstein da franquia Monstros Fantásticos é a grande estrela de “O Mundo Vindouro”, filme de Mona Fastvold, que depois de passar por Veneza, San Sebastián e Sundance abre agora a 2ª fase do Festival de Cinema de Roterdão.

O drama de contornos românticos em ambiente de época – baseada no conto homónimo de Jim Shepard, escrito em 2017 – estreou (também) esta semana em Portugal (Video-on-demand). Nela seguimos a história de amor de duas mulheres retidas em casamentos que não as preenchem. Katherine é Abigail, a esposa de um agricultor, Dyer (Casey Affleck). Cada vez mais invadida por um vazio e pela solidão, encontra na misteriosa Tallie (Vanessa Kirby) a chama que precisa para se sentir novamente “viva“, iniciando com ela um intenso romance.

Katherine Waterston em San Sebastián | Foto: Montse Castillo

A Mona enviou-me o guião e a meio da primeira página já sabia que tinha de participar neste filme.”, explicou a atriz em San Sebastián aos jornalistas, acrescentando que existiram dois elementos essenciais para essa escolha: “Um era uma frase na narração, que acabou por não entrar no filme, mas que dizia: “à noite, muitas vezes pergunto-me se aqueles que foram meus íntimos descobriram uma colina íngreme em mim cuja vista não contempla o essencial”. Esta frase ainda hoje me arrepia. Esta ideia ficou em mim, a de uma mulher que tem muito pouco (esposa de um agricultor, vive isolada) e que não é perseguida à noite pelo que não tem, mas por aquilo que não tem de dar, pelo que falhou com os outros e não com ela mesmo.

Já o segundo elemento que fascinou a atriz encontrava-se na descrição da sua personagem, definida como “um ativo” para o marido, “com todas as conotações negativas e positivas inerentes ao termo”. “Na primeira página senti que estava perante uma obra-prima e mal podia acreditar que tinha-me caído no colo a hipótese de interpretar esta mulher.

A preparação para este papel foi complexa, mas feita com bastante tempo e preparação: “Estava grávida quando o papel me foi oferecido e eles esperaram que eu tivesse a criança para poder participar no filme”, explicou Katherine, acrescentando que entre a oferta do papel e o início das filmagens passaram quase dois anos.”Existe uma diferença entre fazer uma personagem bem e entranhá-la nos teus ossos. Quando tens muito tempo com o guião, o teu subconsciente pode trabalhar na personagem e passado um tempo já a conheces. É como passar tempo com uma pessoa. Foi muito útil para mim”. 

Katherine reconheceu que houve trabalho específico para vestir a pele de Abigail, até porque devido à narração constante que pratica no filme, em jeito de diário, “tinha de haver uma diferença entre o que ela mostrava ao mundo e o que ia dentro dela”.  “Estava grávida na época e preparava-me para interpretar uma mulher que perde a sua cria. Foi algo desconfortável de fazer, mas também importante para carregar a personagem internamente. Sentir o seu sofrimento, transportá-la por entre cenas e não mostrar isso ao mundo”. 

Colaboração com Vanessa Kirby

Foi Katherine que sugeriu a Mona Fastvold a atriz Vanessa Kirby para o papel de Tallie, uma mulher bem diferente de Abigail. “Recomendei a Vanessa à Mona porque sabia que tinha de existir um contraste distinto entre estas duas mulheres. Usando termos do nosso tempo, a personagem da Vanessa era como um ventilador para Abigail.  Ela é uma força de vida. Ela respira vida para a minha personagem. Era importante encontrar uma atriz que aceitasse ocupar o espaço no ecrã e isso é difícil de encontrar nos dias de hoje. Não imaginei outra pessoa a fazer isso.” 

A dupla é a chama do filme, mas Katherine reconhece que quando “a escrita é boa, a química é fácil de encontrar”. “A tensão entre as duas que estava na escrita, a forma como falam muitas vezes em código, ajudou-nos muito a encontrar aquele relacionamento”.

Katherine Waterston e Vanessa Kirby

Outro desafio que a atriz encontrou foi o de narrar constantemente o que lhe ia na alma, transportando essas palavras para o grande ecrã através de repressões nunca mostradas. “A Mona foi muito esperta e pôs-me a trabalhar na narração enquanto estava no set. Normalmente fazia uma gravação no dia e fazíamos takes com a narração a ser ouvida. Isso ajudou-me a sentir mais durante as cenas. Havia também uma razão técnica, pois a Mona fez muitas tomadas. Ela queria ter a certeza que a narração cabia em cada cena. E mesmo quando retiramos a narração ao filmar, as palavras continuavam na minha cabeça. ”.

Outro elemento que agradou a Katherine foi a relação de Abigail com o marido, Dyer (Casey Affleck), muito longe dos chavões da época. “A relação dela com o marido era muito inteligente na escrita. Havia ali amor. Este casamento tinha as suas limitações mas era significativo para ambos. Eles importam-se um com o outro. Claro que ganhou uma dimensão mais dramática quando a Abigail apaixona-se pela Tally, pois ela não está a fugir de um homem mau ou miserável, bem pelo contrário. Ela tem um parceiro com quem passou por muito, o que criou uma ligação especial entre eles. (…) Uma das coisas que também adorei é que provavelmente existiam poucos esposos como ele naqueles tempos. Eram poucos, mas encorajantes numa sociedade que permanentemente evocava uma diferença de poder na dinâmica de um casal. Isto mostrava que é sempre possível para um indivíduo ser mais generoso e justo que aquilo que a sociedade lhe diz para ser. Adoro o contraste entre o  Dyer e o marido da Tally, o Finney (Christopher Abbott)“.

Uma recriação histórica cuidada

O Mundo Vindouro” teve a colaboração de  dois historiadores de ficção que Katherine define como “poços de sabedoria” sobre o período retratado (1850). “Eles foram muito úteis no guião, na linguagem usada daqueles tempos, algo em que eram especialistas. Toda a ideia que deu origem ao conto veio de um registo de uma quinta que um desses dois escritores descobriu. Nesses registos estavam essencialmente dados de produção da quinta. Eram centenas de páginas, mas neles também constava uma nota pessoal que dizia: ‘a minha melhor amiga foi-se embora. Acho que nunca mais a vejo’. Toda a história nasceu daí, dessa pequena nota”.

Katherine Waterston

Outra preocupação da equipa estava na direção artística e no guarda-roupa, pois iria servir para distinguir e separar socialmente Abigail de Tally. “Há tanto expressado visualmente que não falamos muito na diferença entre estes dois casais. Um deles é mais imprudente com o dinheiro, não necessariamente por ganharem mais, mas por fazerem empréstimos para terem certas coisas, como a Tally e a sua roupa. Por isso, a cena em que faço questão de comprar um vestido, marcando uma posição que estou a pensar em mim, é muito importante“.

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