Estreou na passada quinta-feira, nas nossas salas, «No Meu Lugar», uma co-produção da Fado Filmes (Portugal), produtora de Luís Galvão Teles, e da VideoFilmes (Brasil), de Walter Salles, «No Meu Lugar» é uma longa-metragem que marcou a estreia do crítico de cinema Eduardo Valente, que também assinou o guião com Felipe Bragança (“O Céu de Suely”).
Estreado no Festival de Cannes, e com uma passagem pelo Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira (onde venceu o Prémio Revelação), «No Meu Lugar» segue um tema recorrente na cinematografia brasileira dos últimos anos, a violência urbana, embora longe do «cinema favela». Na obra acompanhamos três histórias passadas em tempos diferentes, após um assalto a uma casa de classe média alta, no Rio de Janeiro. Com uma estrutura multiplot, «No Meu Lugar» apresenta três núcleos sociais abalados por esta manifestação de violência: uma família de classe média abalada por um crime; um polícia em crise por uma acção desmedida; e um jovem casal pobre, ela empregada da família e ele um rapaz que faz entregas do supermercado, e vive na favela.
O c7nema teve a oportunidade de entrevistar o realizador e crítico de cinema Eduardo Valente, que nos falou um pouco mais das opções que tomou durante a produção desta obra.
Aqui ficam as suas palavras:
Como surgiu a ideia de «No Meu lugar» e o que o conduziu até esta história?
A ideia era de falar do meu Rio de Janeiro, ou seja, da cidade onde sempre morei, neste tempo actual. Busquei então encontrar uma história que me permitisse lidar com este sentimento duro de viver numa cidade onde a sombra da violência está sempre presente em nossos quotidianos, ao mesmo tempo em que seguimos nos relacionando uns com os outros, tendo existências familiares e de amizade profundas, como em qualquer outro lugar.
A estética do filme é muito menos carregada e longe do cinema/videoclip de trabalhos como «Tropa de Elite» ou «Cidade de Deus», filmes com tendências mais de Hollywood. Porém, o seu filme é mais pausado, mais ligado a uma espécie de naturalismo. É mais Bruno Barreto, Walter Salles, ou indo lá fora, é mais Trapero, Martel e Van Sant. Essa opção é uma forma de se distanciar do cinema mais mainstream?
Não necessariamente, era apenas a opção correta, a meu ver, para contar essa história. Acho que cada filme pede um olhar, uma colocação, e tenho mais interesse em ser verdadeiro com o sentimento de um filme do que com alguma característica propriamente de estilo meu.
«No Meu Lugar» acompanha várias histórias em paralelo, mas curiosamente trata as personagens um pouco como vítimas das circunstâncias. Assim, há um certo tom fatalista, um fado, um destino malvado que os conduz. Essa opção retira algum sentido crítico às atitudes das personagens. O objectivo era mais ser um espectador da história do que moralizar através dos comportamentos, e fugir a clichés de «herói e vilão»?
Com certeza concordo com a sua segunda afirmação. Principalmente por achar que é muito difícil atribuir culpas e sentidos lógicos para situações que são muito maiores do que nós. Eu não acho que o filme fuja de que o espectador possa considerar esta ou aquela acção/reacção dos personagens como adequada ou não, mas para isso ele (o espectador) precisará aplicar por si mesmo os seus valores sobre o que vê na tela. O que não me interessava era impor a eles (personagens ou espectadores) os meus valores.
Como funcionou o casting dos actores e a coordenação do trabalho com o argumentista?
Foram processos muito intensos. Na verdade, a ideia original do filme é minha, mas trabalhei junto com o Felipe Bragança, um cineasta e parceiro antigo meu. Além disso, contamos com a colaboração de outros dois amigos e cineastas, Gustavo Bragança e Marco Dutra (este teve sua primeira longa exibida em Cannes agora em 2011, aliás). Cada um deles (Felipe, Gustavo, Marco) escreveu a primeira versão da história de um dos três núcleos do filme sem conhecer o que o outro escrevia.
Acreditamos que era importante essa independência pois as histórias não existiam em função da outra, e sim de forma inteira dentro de si mesmas.
No casting trabalhei com outro cineasta e amigo, Pedro Freire (que já teve uma curta exibida em Veneza), que tem um longo trabalho com atores. Vimos uma enorme quantidade de actores para o filme, e só ficamos satisfeitos com cada personagem quando estávamos certos de termos encontrado a pessoa.
Para além de realizar, também é crítico de cinema. Onde se sente mais à vontade? É um cineasta que escreve críticas ou um crítico que faz filmes?
Eu sempre digo que eu faço cinema. Isso para mim inclui não só fazer filmes e escrever textos, como também todas as outras coisas que faço, como dar aulas de cinema ou fazer curadoria e selecção para mostras e festivais. Tudo é parte de um mesmo processo, a meu ver.
Uma das maiores vantagens de ser crítico de cinema é ver muitos filmes e poder definir as noções de clichés, quase numa postura quantitativa. Porém, e apesar de o filme se afastar do cliché do heróie do vilão, ele acaba por mais uma vez trazer uma história de crime no Rio de Janeiro. Será que não é um cliché do cinema brasileiro, especialmente nos últimos anos, abordar esta temática?
Abra os jornais no Rio de Janeiro um dia que seja, e tente não ler uma história sobre violência. Tente ter conversas com seus familiares ou amigos no Rio sem que o tema surja naturalmente. Passe pelo menos um dia sem planejar ao menos uma acção do seu dia de acordo com preocupações do tipo “seria uma boa hora para circular nesse ou naquele lugar?”; “deveríamos mesmo passar por aqui ou por ali?”, etc.
Para mim não se trata de cliché, mas de uma circunstância histórica e local da qual não se pode escapar. Pelo menos essa é a minha experiência da cidade. Minha opinião é que, constatando isso, podemos nos limitar a explorar o tema com seus efeitos catárticos, o que não me interessa tanto, ou perceber os efeitos desta realidade sobre as pessoas, que é o que me interessa.
Numa entrevista que li há uns tempos atrás, afirmou que «existem críticos que se ressentem de ser um cineasta, assim como cineastas que se ressentem de ser um crítico». Como funciona essa dinâmica no seu dia a dia?
Com muita tranquilidade. Entendo os papeis distintos dos dois, e não vejo como ou porque precisar trabalhar-se contra ou mesmo em separado. O cinema os une.
Em 2002 foi premiado em Cannes por um júri presidido pelo Martin Scorsese, o Primeiro Prémio da Cinéfondation, na competição de filmes universitários do Festival de Cannes. Sei que é fã do trabalho de Scorsese. Como foi a sensação de ser premiado e em que medida isso ajudo-o a embarcar na realização de uma longa-metragem? (até para encontrar financiamento)
Menos na parte do financiamento, e principalmente porque o prémio assegurava que minha primeira longa seria exibida no Festival. Senti uma certa responsabilidade com os colegas que tinham filmes na mostra e queriam ganhar o prémio apenas por essa oportunidade. Achei que
precisava me utilizar dela.
Quanto a Scorsese, foi um momento feliz, mas principalmente pela conversa que pudemos ter depois da premiação, em que ele me disse sobre coisas que tinha gostado em especial no filme.
Já tem algum novo projecto no cinema em marcha? Se sim, qual?
No momento não, porque estou em um outro papel dentro do cinema, tendo assumido um cargo de assessor internacional dentro da ANCINE, a agência nacional do cinema do Brasil (equivalente ao ICA português). É um novo desafio que muito me interessa, conhecer mais um novo lado do cinema, e tentar ajudar de alguma maneira os outros colegas do cinema brasileiro. Espero conseguir. Enquanto estamos aqui “desse lado”, no Governo, temos que parar por um tempo com os projectos pessoais.
Agora queria fazer uma pergunta ao crítico. O Brasil escolheu o filme «Tropa de Elite 2» para os Óscares. Concorda com essa opção? Se não, qual seria o filme que escolheria?
Acho que é sempre uma questão de sorte, mais do que tudo. Já se tentou aplicar várias lógicas a esse processo, e às vezes elas funcionam exactamente ao contrário. Acho que é um filme que tem possibilidades, e essa escolha precisa ser pragmática mesmo.
Onde se vê daqui a 10 anos?
Considero de verdade que, por sorte, não tenho a menor ideia. Quando olho para 10 anos atrás, vejo que nunca imaginaria onde estou agora, então prefiro não pensar tão longe, e me deixar fascinar pelas surpresas do caminho até lá.

